Cinema

Rita Durão: "A política cultural não está a fazer o que deve"

Rita Durão: "A política cultural não está a fazer o que deve"

Atriz Rita Durão fala-nos de "O trio em mi bemol", novo drama de Rita Azevedo Gomes que adapta uma peça de teatro do cineasta francês Etic Rohmer. O filme já está nas salas de cinema. O JN falou com a atriz.

É um dos valores seguros do teatro português e com uma carreira no cinema onde deu os primeiros passos com José Fonseca e Costa, João César Monteiro ou José Álvaro Morais. Rita Durão recebe-nos na sala dos Artistas Unidos, em Lisboa, a pouco mais de uma hora do seu espetáculo, para nos falar de "O trio em mi bemol", que Rita Azevedo Gomes retirou precisamente de uma peça de teatro, a única escrita e encenada por Eric Rohmer.

Neste novo filme da sua cúmplice de há quase 20 anos, Rita Durão faz par com Pierre Léon, num casal separado que, no entanto, mostra ainda alguma cumplicidade nos sete encontros em que peça e filme se dividem.

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Onde nasceu esta cumplicidade entre a Rita Durão e a Rita Azevedo Gomes?

Nem me lembro muito bem como é que conheci a Rita, penso que fazia alguns espetáculos onde eu estava. E de repente lançou-me o desafio de fazermos um filme. É uma relação de cumplicidade com várias camadas. Onde se manifestou mais acabou por ser no cinema. Ao longo do tempo fomos criando uma grande amizade e eu também admiro profundamente a maneira de estar da Rita, na vida e no cinema,

Consegue separar-se de uma personagem para passar a outra, quando volta a trabalhar com a Rita Azevedo Gomes?

Acaba por ser sempre diferente. Nós vamos guardando isso, mas parece que é sempre a primeira vez. Já sinto na voz da Rita quando ela me telefona que está com uma ideia qualquer e fico com a mesma energia. Depois sentamo-nos e conversamos. Às vezes parece que não vai dar, que é impossível, mas temos conseguido que aconteça sempre.

Parece que a Rita Durão não falava Francês antes de fazer o filme. É verdade?

Nunca tive Francês na escola. Mas fui assistente de encenação da Christine Laurent na [companhia de teatro] Cornucópia. Só que não me sentia perfeitamente à vontade a falar Francês em frente a uma equipa que está a filmar. Foi um trabalho quase de ginasta. E houve outra pessoa importante, o Olivier Blanc, que trabalha no som, um companheiro no cinema e um amigo. Encontrava-me com ele, muitas manhãs por semana, e íamos lendo o texto juntos.

Como é que se processou o trabalho de preparação, com a rodagem durante a pandemia?

Eu tinha ensaios com o Pierre Léon e com a Rita por zoom. Às vezes a Rita não podia, mas pedia para gravarmos. Eu e o Pierre falávamos em francês, se existia alguma dúvida o inglês ajudava sempre. O Pierre ajudou-me imenso em termos da pronúncia.

Só se encontraram em cima da rodagem?

Sim, mas eu já conhecia o Pierre. Estive uma vez em Locarno com a Rita e o Pierre estava lá. Falámos imenso e entendemo-nos muito bem. A Rita achou muita piada e ficou de fora a ver a relação que eu e o Pierre tínhamos estabelecido, de uma maneira muito espontânea. Ficou qualquer coisa nela, para mais tarde nos juntar, e acho que resultou.

Para si, o Eric Rohmer, enquanto espetadora, é um cineasta que aprecia?

Não posso dizer que seja um cineasta que acompanhe. Na altura fiquei com curiosidade de ver mais coisas, mas pensei que talvez não fosse bom fazê-lo. O texto já existia e preferi deixar-me levar pela sua singularidade. Parece que anda à volta da mesma coisa, daquela relação e dos mal-entendidos que vão surgindo. O trabalho de casa era para o francês e deixei o Rohmer um pouco de parte.

Como é que transportou para cinema um texto que é de teatro?

Qual é a fronteira entre o cinema e o teatro? Tirando as questões técnicas que sabemos que existem. E a situação do teatro acontecer nos ensaios e depois todas as noites. No cinema nós também ensaiamos. Em muitos filmes da Rita não fica muito clara a fronteira entre o teatro e o cinema. E eu gosto muito de me balançar entre um e outro. As coisas não precisam de estar assim tão arrumadas.

A televisão dá-lhe o mesmo prazer, ou é uma atividade mais alimentar?

A televisão dá-me o mesmo prazer. Eu gosto de representar. Claro que depende daquilo que estou a fazer. Isso também se passa no cinema e no teatro. Depende do que estou a fazer, das condições em que estou a fazer, das pessoas com quem estou a trabalhar.

O cinema mudou muito, desde que começou a filmar...

Ainda filmei em película. Depois passámos para o digital. Abriu imensas portas, tornou possível realizar muitos projetos, que as pessoas, num outro tempo, não conseguiriam fazer. Vivemos cada vez mais rodeados de máquinas, cada vez mais sofisticadas e essa tecnologia chegou ao cinema. O cinema passou a ser uma coisa mais possível.

Como é que está a situação do ator em Portugal?

Há muitas pessoas sem trabalho e por vezes em condições de trabalho muito complicadas. Enquanto assim for é sinal que a política cultural não está a fazer o que pode e o que deve. A cultura é uma área muito importante para a sociedade, faz bem à sociedade. Mas não é tratada e cuidada como poderia e deveria ser.

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