Polémica

Rui Moreira: "Nunca calei ninguém"

Rui Moreira: "Nunca calei ninguém"

"Triste" com a demissão de Regina Guimarães do Conselho Municipal de Cultura, o presidente da Câmara do Porto afirma, no entanto, que catalogar como "fantochada" o órgão que a dramaturga integrou, desde a sua constituição, em 2017, até esta quinta-feira, revela "uma semente de superioridade moral" em que diz não a reconhecer.

Ao 18º dia, a polémica continua. Regina Guimarães que acusou, no passado dia 3 de fevereiro, a direção do Teatro Municipal do Porto (TMP) de ter censurado um texto da sua autoria em que criticava o conceito de cidade líquida do ex-vereador Paulo Cunha e Silva, cumpriu a ameaça e demitiu-se do Conselho Municipal de Cultura (CMC).

Em carta dirigida ao autarca Rui Moreira, divulgada esta quinta-feira, a escritora justificou a saída com diferenças de entendimento sobre o que é prioritário. "A decisão tem a ver com os acontecimentos recentes, com a questão da censura, com o facto de que o próprio conselho parece não ter julgado prioritário reunir-se por uma coisa destas. Não estou lá a fazer nada porque o que a mim parece essencial, não parece essencial ao Conselho. Há aqui uma dessemelhança de conceções do mundo", explicou à agência Lusa.

Rui Moreira lamenta a saída da dramaturga - "Vai fazer-nos falta", reconhece na carta de resposta a que o JN teve acesso -, e diz ter "pena" que a autora nunca lhe tenha "escrito ou telefonado" a pedir qualquer agendamento do CMC. "A Regina foi sempre muito interventiva nas sessões em que participou e sabe bem que nunca, por um momento que fosse, lhe limitei a liberdade. Nunca a censurei, nunca a condicionei!", lê-se na missiva. "Nunca calei ninguém."

De resto, o presidente da Câmara, que acumula o cargo com o de vereador da cultura desde 2015, desde a morte de Paulo Cunha e Silva, recorda que foi dele a ideia de convidar Regina Guimarães para o referido Conselho. Convidou-a, justifica, porque ela "tem uma opinião e tem um passado. Tem uma experiência e uma visão crítica que são úteis à cidade". Portanto, acrescenta, "bastaria isso para responder à sua alegação: a de que há uma tentativa de submissão à "cultura municipal". Não creio que a Regina ache, por um momento, que a escolha que fiz, e que aceitou, se inscrevesse numa política de dirigismo".

Também por isso, continua, estranha a classificação que a dramaturga usa para o CMC, que rotula agora como sendo uma "deplorável fantochada". "O Conselho Municipal é aquilo que os seus membros são. Colectivamente. Chamar-lhe fantochada é, desculpe, um acto censório. Contém uma semente de superioridade moral que não lhe conheço, nem reconheço."

Reiterando que "deu ordens" para que o texto escrito por Regina Guimarães para integrar a folha de sala do espetáculo "Turismo" de Tiago Correia fosse divulgado - o que não aconteceu, porque Tiago Guedes, diretor do TMP, teve um entendimento diferente, do qual entretanto já se retratou -, Rui Moreira ressalva que "a escolha dos conteúdos é uma competência exclusiva dos directores artísticos". E sublinha: "Não é minha; não é sua Regina, nem é aleatória."

Numa altura em que o seu segundo mandato autárquico se aproxima da recta final, Rui Moreira assegura que não irá sentir-se "condicionado por uma narrativa" que, admite, "pode ter utilidade política mas não corresponde à realidade". O teatro, conclui, "é sempre político mas não é da política".

"À política, pelo menos aquela que defendo e em que acredito e milito, compete garantir o equilíbrio sempre ténue entre a liberdade individual e colectiva e a integridade e a coerência da criação artística."

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