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Saiba tudo o que vai querer ler em 2021

Saiba tudo o que vai querer ler em 2021

Recuperar da queda abrupta de 20% é o grande objetivo das editoras portuguesas no novo ano. As reedições e os consagrados representam a grande maioria das apostas, mas não faltam, apesar de tudo, surpresas ao virar das páginas.

A devastação causada por 2020 deixou marcas no seio das livrarias e das editoras portuguesas. Enquanto, por toda a Europa, vários países viram o mercado editorial robustecer (com o confinamento forçado, os leitores abasteceram-se de novidades), por cá aconteceu o contrário. O volume de negócios recuou uns impressionantes 20%, anulando por larga margem o tímido aumento de 3% registado no ano anterior. Como na década anterior as vendas foram recuando ano após ano, é preciso recuarmos praticamente até ao início do milénio (!) para encontrarmos números semelhantes aos atuais.

Esta evidente fragilidade não depaupera apenas os cofres das empresas do setor. Antes de todos, o leitor sai penalizado pelo estreitamento da diversidade, porque as editoras tendem a apostar sobretudo em nomes seguros, para prejuízo de novos autores, por exemplo.

Em função desse conservadorismo, os investimentos deixam pouca margem para opções "fora da caixa" e tendem a privilegiar livros que, à partida, dão um retorno seguro. É o caso das reedições. Estão anunciadas às dezenas e tanto abarcam livros de autores nacionais como estrangeiros.

O ano de Orwell

Entre as mais notórias reedições previstas encontramos preciosidades como "Doutor Fausto" (Thomas Mann), "As partículas elementares" (Michel Houellebecq), "O jogador" e "Recordações da casa dos mortos" (Fiódor Dostoievski), "Mrs. Dalloway" (Virginia Woolf), "O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde e outros contos" (Robert Louis Stevenson), "Aforismos" (Agustina Bessa-Luís), "Fogos" (Marguerite Yourcenar), "A guerra do mundo" (Niall Ferguson), "Rio profundo" (Shusaku Endo) ou "Aprender a rezar na era da técnica" (Gonçalo M. Tavares).

Há reedições que nos prometem revelar novas dimensões de obras por demais conhecidas. É o que se passa com "Fahrenheit 451", a novela distópica de Ray Bradbury que Tim Hamilton adaptou a novela gráfica. Ainda de Bradbury, realce para a nova edição de "As crónicas marcianas", livro há muito indisponível.

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Como se previa, a entrada da obra de George Orwell no domínio público não passou despercebida às editoras portuguesas. Só em janeiro chegam às livrarias novas edições de "1984" com a chancela da Clube do Autor, D. Quixote e Relógio D"Água, a primeira das quais foi editada inadvertidamente no início do ano passado (quando o livro estava ainda sujeito a obrigações legais) e entretanto retirada do mercado, devido a uma providência cautelar interposta pela editora Antígona. Destaque ainda para uma versão de "A quinta dos animais" em romance gráfico (adaptado e ilustrado por Odyr), uma edição cartonada e ilustrada do mesmo livro (a cargo de Ralph Steadman) e, sobretudo, um volume de "Ensaios", inéditos em Portugal, que as Edições 70 publicam logo a abrir o ano. Organizado por Jacinta Maria Matos, o livro deixa bem evidentes algumas das características incontornáveis do escritor inglês falecido há 70 anos, como a informalidade, a perspicácia e a curiosidade intelectual, que o fazia interessar-se pela dimensão filosófica como pela quotidiana.

De Coetzee a Barnes

Na ficção estrangeira, 2021 marca o reencontro com nomes tão consagrados como a Nobel da Literatura Olga Tokarczuk ("Casa de dia, casa de noite"), Ken Follett ("O preço do dinheiro"), J. M. Coetzee ("A morte de Jesus"), Arturo Pérez-Reverte ("Cães maus não dançam"), Ali Smith ("Verão"), Cynan Jones ("Estilicídio"), Stephen King ("A dança da morte") ou Peter Handke ("A noite do Morava"). Depois de ter publicado "Averno" e "Íris selvagem", a Relógio D'Água prossegue o plano de publicação da obra completa da poeta norte-americana Louise Glück, "Meadowlands" e "Vita nova" são os próximos títulos, logo a abrir o ano.

Com o soberbo "Rapariga, mulher, outra", laureado com o Booker Prize, a britânica Bernardine Evaristo protagonizou um dos livros mais aclamados dos últimos tempos. Com "Blonde roots", livro publicado originalmente em 2009, aborda de forma satírica o conceito de escravidão transatlântica, colocando os africanos como senhores dos escravos europeus.

A Quetzal tem no novo livro de Julian Barnes, "O homem de casaco vermelho", um dos pontos altos do seu calendário de publicação. O romance é apresentado como um livro de viagem e, ao mesmo tempo, uma deliciosa sátira social, cultural e política do final do século XIX e início do século XX. Entre os protagonistas da trama encontramos personagens bem reais como o príncipe Edmond de Polignac, o conde Robert de Montesquieu e o plebeu Samuel Pozzi.

Na Saída de Emergência, as atenções dividem-se entre os novos livros de Laurie R. King ("O sacrifício da rainha"), V. S. Alexander ("A filha do irlandês) e "A livraria dos finais felizes" (Jenny Colgan) e "O Clube Jane Austen" (Natalie Jenner), apostas da chancela Chá das Cinco.

Nem só de reencontros se fará o novo ano. Uma das principais apostas da Dom Quixote é "Luto", do guatemalteco Eduardo Halfon. Em França, o público e a crítica renderam-se a este livro sobre a importância da família, da memória e da perda.

Conhecida dos leitores nacionais é já a irlandesa Maggie O'Farrell. Galardoado com o Women's Prize or Fiction, "Hamnet" inspira-se na morte, aos 11 anos, do filho de William Shakespeare.

Do mais popular autor de espionagem do nosso tempo, John Le Carré, falecido na reta final de 2020, chega "Chamada para o morto", o livro que assinalou a sua estreia na publicação, em 1961, e apresenta o seu carismático personagem George Smiley. A edição é valorizada com um prefácio de Le Carré que assinala o sexagésimo aniversário do livro.

Na Presença, o mês de abril será marcado por dois dos principais lançamentos do primeiro semestre - "Uma grande história de amor", que assinala o regresso ao romance da italiana Susanna Tamaro, e "O rapaz do bosque", romance de Harlan Coben que coloca no centro da história um homem com passado misterioso que tem como missão encontrar uma adolescente desaparecida.

Novidades em português

A dinâmica que encontramos na ficção estrangeira é extensiva ao segmento nacional. Afonso Cruz e Gonçalo M. Tavares são dois dos autores com livros novos já em fevereiro, dos quais ainda se desconhece o título.

Sabe-se apenas que o livro de Tavares contará com desenhos de Julião Sarmento. Também ainda sem título conhecido estão os novos romances de Hugo Gonçalves, João Tordo e Alexandra Lucas Coelho.

Entre as restantes novidades encontramos "Da meia-noite às seis" (Patrícia Reis), "Quarentena, uma história de amor" (José Gardeazabal), "Notas de vida e de morte" (Djaimilia Pereira de Almeida), "Viagem ao país do futuro" (Isabel Lucas), "O deus das moscas tem fome" (Luís Corte-Real) e "Olho da rua" (Dulce Garcia). Ainda em língua portuguesa, a brasileira Tatiana Salem Levy publica "Vista chinesa" e o angolano Júlio de Almeida regressa ao romance com "Incesto real".

Na não-ficção, avolumam-se as novidades, mas alguns dos principais destaques recaem sobre "Como evitar um desastre climático", livro em que Bill Gates estuda as causas e os efeitos das alterações climáticas, e "Joana Vasconcelos ou o reencantamento da arte", um ensaio de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy que analisa a obra da artista portuguesa à luz de uma crítica do consumismo e da modernidade.

Expectativa é o que rodeia também o novo livro do investigador e sociólogo João Pedro George. "O império às costas: retornados e pós-colonialismo" é o título deste ensaio em que se escrutina o Portugal pós-colonial numa abordagem descrita como inovadora.

Para quem se interessa por assuntos de economia, o ano vai ser fértil em novidades. "A descoberta dos preços", de Paul Milgrom (Prémio Nobel da Economia 2020), "As consequências do capitalismo", de Noam Chomsky, e "Discutir com zombies", de Paul Krugman, afiguram-se como obras incontornáveis.

Em "As lentas lições do corpo", o psicólogo e professor universitário Luís Fernandes - conhecido também como João Habitualmente - disserta sobre a relação entre a mente e o corpo, a partir do seu próprio exemplo: depois de perder a visão, tirou o curso de massagem "e fez nascer Lopes Massagista, permitindo-se voltar a ver parte do mundo através das mãos".

Segmento muito ativo nos últimos anos, as biografias voltam a estar na mira das editoras portuguesas. Uma das primeiras a chegar às livrarias promete desvendar os segredos do novo presidente dos Estados Unidos.

Em "Joe Biden, do homem ao presidente", Evan Osnos, repórter da "The New Yorker, traça um retrato inesperado do próximo ocupante da Casa Branca. Também na chancela Actual, Dan Morain conta a história de vida de Kamala Harris, vice-presidente e futura presidenciável, no livro "Uma vida americana".

Em março, com a chancela da Penguin, há uma novidade de peso neste género: "A incrível história de António Salazar". O historiador italiano Marco Ferrarie debruçou-se sobre os pormenores ocultos do líder da mais longa ditadura europeia, com particular ênfase nos seus derradeiros anos, após o acidente que quase o vitimou.

Depois de Agustina Bessa-Luís e Manoel de Oliveira, a coleção de biografias de grandes vultos da cultura portuguesa publicada pela Contraponto vai ter novidades este ano. Uma das próximas obras deverá ser a biografia de José Cardoso Pires, projeto a que Bruno Vieira Amaral se tem vindo a dedicar nos últimos três anos. Outro dos volumes previstos é o que será dedicado a Manuel António Pina, escrito pelo seu amigo Álvaro Magalhães.

Na poesia, sobressaem os novos livros de Maria Teresa Horta ("Paixão"), João Miguel Fernandes Jorge ("Rodeado de ilha") e Joaquim Manuel Manuel Magalhães ("Canoagem"), enquanto no género infantil Adélia Carvalho regressa com "Quando crescer quero ser criança".

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