Cinema

Samuel Barbosa, realizador: "Paulo Rocha era um autor livre"

Samuel Barbosa, realizador: "Paulo Rocha era um autor livre"

Em "A távola de Rocha", Samuel Barbosa evoca o percurso de Paulo Rocha, com quem trabalhou. O filme está em exibição no Nimas, em Lisboa, e no Trindade, no Porto.

Samuel Barbosa trabalhou em vários filmes de Paulo Rocha e presta-lhe tributo no documentário "A távola de Rocha". Exibido em Locarno, a obra está agora nas salas. Uma oportunidade de ver várias filmes de família do realizador portuense quando era ainda criança, de assistir a algumas das suas entrevistas ou de ver onde viveu no Japão. Uma homenagem sentida a um dos grandes autores do cinema português.

Lembra-se da primeira vez que encontrou Paulo Rocha?

Eu conheci o Paulo Rocha durante a rodagem do filme "Vanitas". Tinha sido contratado pela produção para ser assistente de produção, e entre as várias tarefas cabia-me conduzir o realizador. Fui do Porto a Lisboa para ir buscar o Paulo e quando toquei à campainha ele convidou-me para entrar, Lembro-me que me perguntou se eu conhecia o João Pedro Bénard, respondi que sim. Nesse momento disse-me que o João Pedro era um ótimo condutor, porque lembrava-se sempre de todos os caminhos. O Paulo era assim, gostava da proximidade com as pessoas, por isso convidou-me para a sua casa e gostava de nos mostrar e explicar os melhores modelos a seguir em diferentes domínios.

O que sentiu nessa altura?

Eu, que ia nervoso por conhecer este realizador tão importante, senti-me muito bem com a receção que tive, porque não detetei o distanciamento que imaginei que ia sentir. O Paulo não tinha comportamentos de vedetismo. Ao pensar nisto agora, apercebo-me que ali estava o primeiro sinal de que o Paulo não era como outros realizadores, tinha o seu próprio modo de ser.

Que tipo de colaboração foram tendo ao longo dos anos?

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Depois de terminada a rodagem do "Vanitas" trabalhei em televisão em Portugal e no Brasil e também estudei em França. O Paulo ligava-me de quando em vez para conversarmos. Tínhamos em comum um passado ligado a Ovar, ambos tínhamos família originária da região e era onde costumávamos passar férias. Era frequente encontrarmo-nos para almoçar no Furadouro e nesses encontros o Paulo contava-me histórias da sua família e de coisas que tinha visto ou vivenciado nas temporadas que aí passava.

O Samuel voltou a trabalhar no último filme dele.

É certo que provínhamos de contextos familiares muito distintos e tínhamos uma grande diferença de idades, mas sempre senti uma certa familiaridade naquilo que me contava e, sem que me desse conta, estávamos a preparar aquele que viria a ser o seu último filme, "Se eu fosse ladrão... roubava". Visitámos alguns lugares que viriam a ser décor do filme, bem como alguns dos seus familiares e amigos que contaram histórias que inspiraram parte do argumento do filme. Foi um processo que demorou alguns anos, fundamental para a autenticidade do filme. Toda a experiência foi, para mim, uma grande aprendizagem.

Como é que teve a ideia de fazer este documentário?

Após a finalização do "Se eu fosse ladrão... roubava", o Paulo queria juntar cinco minutos ao filme todos os anos, enquanto fosse vivo, e o filme iria assim reinventar-se todos os anos. Esta ideia primitiva no cinema não foi possível de cumprir devido ao crescente agravar dos problemas de saúde do Paulo. Em alternativa, e na tentativa de o manter motivado com o cinema, propus-lhe fazer um documentário sobre ele, com depoimentos seus. A saúde do Paulo também não permitiu que se fizesse o documentário que eu havia imaginado, mas tinha-se instalado a vontade de criar uma obra sobre este realizador de quem se fala muito a propósito dos seu dois primeiros filmes, "Os verdes anos" e "Mudar de vida", mas que tem uma obra muito maior.

Qual é o principal legado da obra de Paulo Rocha?

Nos filmes percebemos que o Paulo era um autor livre. Livre das convenções ou modas vigentes. De filme para filme apercebemo-nos que Paulo Rocha é um realizador das vanguardas e moderno, que não se acomodava a sucessos passados, mas vivia entusiasmado com a possibilidade de contribuir com formas fílmicas experimentais diferentes a cada obra.

De todos os filmes de Paulo Rocha, qual o seu preferido e porquê?

Esta é a pergunta mais difícil de responder, porque sendo os filmes do Paulo Rocha tão diferentes, tenho alternado a minha preferência ao longo do tempo e consoante os meus estádos emocionais e de espírito. Já me aconteceu eleger um filme como sendo o melhor e poucas horas depois achar que afinal era outro. Mas há um que recordo frequentemente pela forma como ele me foi dado a conhecer. Foi num desses encontros que fazíamos no Furadouro para almoçarmos e conversarmos. Nesse dia, o Paulo contou-me que havia encontrado a doutora Maria Barroso em Lisboa e pediu-lhe que esta o ajudasse a encontrar um filme seu, "Máscara de aço contra abismo azul", porque não o via há muitos anos e não tinha forma de o ver em casa.

Não é realmente uma resposta óbvia. Como o descobriu então?

A doutora Maria Barroso pediu uma cópia em VHS à RTP, salvo erro, e o Paulo tinha trazido a cassete para vermos depois do almoço. Foi aí que fui verdadeiramente introduzido no universo fílmico do Paulo Rocha. Ele falava muito durante as projeções dos seus filmes, mesmo quando estas aconteciam em sala pública com espectadores, e nesse dia, ao mesmo tempo que víamos o filme, ele falou-me primeiro do homem que foi Amadeo de Souza-Cardoso, e depois da importância da sua obra e finalmente do modo como o filme o retrata.

O que mudou, então, na sua perceção da obra de Paulo Rocha?

Foi a partir desse momento que me interessei mais para conhecer os restantes trabalhos. Senti que aquela diferença de olhar era mais entusiasmante do que a repetição de processos que certas teorias académicas propõem. O "Mascara de aço contra abismo azul" é um dos filmes que mais gosto do Paulo.

O seu filme estreou-se em Locarno. Que reações teve? E nas restantes projeções?

Em Locarno perguntaram-me, por exemplo, sobre a razão para a pouca visibilidade dos filmes de Paulo Rocha. Não sendo esta uma pergunta de resposta única, parece-me que há uma explicação possível. O facto de Paulo Rocha se ter produzido a si próprio permitiu-lhe a liberdade de criação de que precisava para fazer os filmes que queria, mas simultaneamente esta opção prejudicou a promoção junto dos distribuidores. O processo de venda de um filme é muito complicado e não deve ser feito pela pessoa implicada emocionalmente no processo.

E cá em Portugal, agora que chegou às salas?

Temos tido sorte, o filme tem sido bem recebido pelos lugares onde é projetado, e os debates tendem a ser bastante ricos. Nas apresentações em que estive presente apercebi-me que "A távola de Rocha" serve tanto o espectador que conhece a obra do Paulo Rocha como aqueles que não viram os filmes. Neste último caso é gratificante perceber que o "Távola" pode contribuir para a descoberta da obra ou parte dela. Para isso contribui em definitivo a pertinência e atualidade dos seus filmes, que pelo caráter inventivo que apresentam eram, à época em que foram produzidos, registos à frente do seu tempo.

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