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Sem-abrigo formam Orquestra Som da Rua, no Porto

Sem-abrigo formam Orquestra Som da Rua, no Porto

Não têm casa, trabalho, apoio da família. Amor, carinho, companhia. Se essa é a definição para os sem-abrigo, então é de sem-abrigo que aqui falamos. De forma especial, porque merecem: são um grupo que, não tarda muito, vai actuar na Casa da Música, no Porto.

Como se todos esses problemas não lhes chegassem, ainda têm, na sua maioria, complicações psíquicas devidas a patologias ou ao consumo de substâncias psicoactivas. No entanto, há momentos em que são felizes, em que fazem o que gostam. Isso acontece-lhes, por exemplo, nos ensaios da Orquestra Som da Rua, o colectivo que até em Russo sabe cantar, coisa que, convenhamos, não é para todos.

Termos como "spassibo" (que significa "obrigado") ou "pravda" ("verdade") fazem parte de uma das canções que compõem o repertório deste grupo, nascido por iniciativa do Serviço Educativo da Casa da Música, em estreita colaboração com as instituições de apoio social SAOM-Serviço de Assistência Organizações de Maria, Centro Social Paroquial Nossa Senhora da Vitória, Associação dos Albergues Nocturnos do Porto e Clínica do Outeiro.

Desde Outubro, o grupo ensaia nas instalações da SAOM sob orientação de Jorge Prendas, que os conhece a todos pelo nome. E ainda são algumas dezenas. Um destes dias, o JN ouvi-os cantar e tocar. Sem partituras, sem divisões por naipes, todos dão o melhor porque estão ali à procura de algo. O refrão de uma cantiga resume tudo: "Caminharei contra a solidão". Outra letra clama: "Desejo de viver".

Tudo isto poderá ser ouvido em Julho, na Casa da Música, no âmbito do espectáculo Sonópolis. Joana Vilar, assistente social na SAOM, acredita que o facto de participarem na iniciativa "é um grande entusiasmo, é uma valorização que estas pessoas necessitavam". Jorge Prendas, por seu lado, deixa bem expresso um desejo: "Que daqui a 20 anos a orquestra continue a existir e seja uma prova de que a música colabora na inserção social das pessoas".

A Ana e o gaiato

"Procuro estas coisas para não estar triste", diz-nos Ana, 77 anos, muitos deles passados sentada a uma máquina de malhas. Armindo, que ainda mantém o ar de gaiato que lhe ficou de 20 anos passados na instituição do Padre Américo, em Paço de Sousa (Penafiel), foi para a orquestra porque gosta de música.

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E Mamadú? Além de natural da Guiné-Bissau "de alma, sangue e coração", garante ser "músico de nascença". Como se exibisse o estatuto de patriarca desta pequena família, sai-lhe da boca a sabedoria dos simples: "Todos nós temos algo para receber e algo para dar".

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