O Jogo ao Vivo

Livros

"Sem livros, somos prisioneiros da barbárie e da estupidez"

"Sem livros, somos prisioneiros da barbárie e da estupidez"

A lealdade animal serviu de inspiração ao novo livro de Arturo Pérez-Reverte, "Cães maus não dançam" (ASA). Em entrevista ao "Jornal de Notícias", o romancista critica de forma contundente a vaga de politicamente correto que varre o Mundo, comparando-a à ação destruidora dos talibãs.

Por entre observações mordazes ao caráter dos homens, o autor de alguns dos mais marcantes romances espanhóis das últimas décadas escreveu um policial que procura fazer justiça ao papel dos cães. "São honrados, ao contrário do que acontece muitas vezes com os donos", acusa. As críticas ao politicamente correto são uma constante no discurso de um autor que, prestes a completar 70 anos, se afirma mais livre do que nunca.


Afinal, o que temos nós a aprender com os cães na convivência entre semelhantes?
A palavra 'lealdade' é fundamental. A vida deu-me muitos ensinamentos, mas o que considero fundamental enquanto ser humano é o da lealdade. E nos cães encontro essa virtude com muito mais frequência do que acontece com os humanos.

Associamos os cães sobretudo à fidelidade.
Vejo-os como sinónimos. Um cão tem uma capacidade de sacrifício sem igual. É capaz de seguir o seu dono até à morte, atravessando quilómetros sem fim, sob chuva ou neve, para ir ter com o seu dono. O cão é uma lealdade em busca de um amo. Por isso é tão terrível vermos um cão, habituado a viver durante anos com uma família que também é sua, ser abandonado por uns filhos da puta numa auto-estrada ou num campo qualquer. Sou um tipo duro. Já passei por muito, mas comovo-me sempre que imagino a tragédia interior de um cão que se vê abandonado por aqueles que julgava serem os seus amos.

As fronteiras entre o mundo animal e o dito humano ou civilizado são mais ténues do que poderíamos pensar?
Os cães têm condutas de comportamento. Obedecem a códigos. São honrados, ao contrário do que acontece muitas vezes com os donos, que os maltratam sem razão. Os cães, por sua vez, não matam por prazer. Matam por comida, por instinto de defesa ou por se sentirem agredidos. É por isso que raras vezes atacam um animal que já está vencido. No entanto, eu não humanizo os cães. A minha novela é uma metáfora. Não coloco os cães, ou qualquer outro animal, na mesma categoria dos seres humanos. Mas podemos aprender imenso com eles. São sinónimo de companhia, de valores.

Podemos ler este romance como uma novela cervantina. Nesse sentido, é uma homenagem a Cervantes?
Sim, é verdade. Não é em vão que a epígrafe é do "Colóquio de cães", livro de Cervantes que li muito jovem e foi a base desta história. Mas gosto de ver este livro como resultado de muitas outras influências. É também um canto de amor aos cães, um elogio à amizade e também uma dura crítica ao ser humano, pela forma como tantas vezes maltratam os animais. Por isso, quando leio ou ouço falar sobre matilhas de cães que atacam rebanhos, por exemplo, vejo esses atos como manifestações de justiça.

A figura do herói é sempre muito importante nos seus romances. Negro entra na galeria dos personagens que mais o marcaram?
Sim, o Negro podia ser o herói de outros livros que escrevi. Tal como outras personagens que entram nos meus livros, é um velho lutador, aturdido pela vida, que não tem fé em mais nada que não seja a lealdade. Quando descobre que dois amigos seus estão desaparecidos, resolve, num impulso heróico, ir em seu auxílio. Se fosse humano, dificilmente agiria desse modo.

PUB

Os anti-heróis são muitas vezes mais heróicos do que aqueles que são os heróis ou se assumem como tal?
Não gosto da palavra anti-herói. Vejo-o como um cobarde, o oposto de herói. Estes podem ser luminosos ou obscuros. O Negro pertence a esta última estirpe. É um herói cansado, cheio de memórias, com sangue cravado nas garras.

Sente que coloca neles mais características suas do que gostaria?
Tudo o que um escritor coloca nos livros ou é seu ou é roubado. Eu não sou nenhum dos meus personagens. Seria triste e erróneo se assim fosse. Mas para fazê-los viver partilho algumas das minhas visões do Mundo. Eles não são como eu, mas olham como eu

Um policial canino não seria o género mais imediato que poderíamos achar que fosse escrever. Ao fim de 35 anos de livros, gosta de manter ainda intacta a capacidade de surpresa?
Um romancista que perdeu a capacidade de surpreender o leitor, que se resigna a ser ele mesmo, é um romancista morto. Mas alguém que se sente vivo, que ri, ama e odeia, recusando uma torre de marfim, tem a obrigação de confrontar o leitor com novas maneiras de ver a realidade.

Sentiu-se ainda mais livre do que é hábito ao escrever este livro, pelo facto de ser protagonizado por animais e, como tal, não estar tão sujeito ao escrutínio cada vez mais apertado que existe hoje por parte da opinião pública?
Pelo contrário. Achei que era um livro mais perigoso, porque existe muita gente estúpida, influenciada pelo politicamente correto, que poderia fazer uma leitura absolutamente humana desta história. Por isso, não foi um subterfúgio, mas antes um desafio. Os meus leitores conhecem-me muito bem. Sabem o que esperar dos meus livros, pelo que posso dar-me ao luxo desse risco. Eles dão-me essa liberdade.

Estamos mais intolerantes do que nunca?
Nos três mil anos que contamos de memória escrita, sempre houve intolerância. Inquisições e totalitarismos ideológicos ou morais. Há uma pulsão repressora muito presente na espécie humana. Seja a Grécia de Péricles, a Itália do Renascimento ou Portugal do século XVI, há um lado de perversão que encarna em diferentes momentos históricos. É sempre o mesmo tipo de indivíduo que faz de inquisidor. Sabe é adaptar-se aos tempos.

Nesta era da desinformação, com um forte peso das 'fake news', sente-se aliviado por já não exercer jornalismo?
Agora não seria bom jornalista e repórter. Os meus costumes não seriam compatíveis com o modo de se fazer jornalismo.

Se ainda trabalhasse no jornalismo, o que faria para evitar ser consumido pelas limitações e constrangimentos da profissão?
A única solução é ler. Quando vamos a uma biblioteca e lemos Dante, Homero, Camões, Montaigne ou Eça de Queirós, encontramos as vitaminas e a força moral para fazermos frente à ignorância, à estupidez, à incultura ou ao populismo. O melhor que o jornalista tem a fazer é refugiar-se na biblioteca. Um jornalista que não lê, está perdido. É uma tragédia, porque fica submetido a tendências e correntes perversas, capazes de o destruírem profissional e moralmente. Sem livros somos prisioneiros da estupidez e da barbárie

Que outras ameaças vê no horizonte imediato?
O que o politicamente correto faz é a destruição da cultura. É comparável à destruição das estátuas feitas pelos talibãs. Não é progresso algum, mas sim o regresso à barbárie. Destruir o passado porque não coincide com o presente é um regresso à obscuridade. Há que educar as novas gerações para entenderem o passado no seu contexto e dessa forma compreenderem melhor o presente.

Em momentos de sobressalto ou de crise, como os que atualmente se vivem no mundo inteiro, acha que o que sobressai mais é a lei da sobrevivência a todo o custo ou, apesar de tudo, uma maior humanidade?
As análises sociológicas não me interessam. Sou só um tipo que escrevo romances. Limito-me a viver, ler e escrever. Sinto, na qualidade de testemunha, que estamos a chegar ao final de um período e a iniciar uma outra, cujos contornos plenos ainda desconhecemos. Temos que avançar com serenidade, mas imbuídos de uma cultura que nos ajuda a compreender as mudanças.

É bem conhecida a visão sombria que tem dos homens e da humanidade. O que se tem passado no mundo de há um ano a esta parte só vem dar-lhe razão?
Não sou pessimista, sou realista. O que se passa é que conheço bem a História.

Qual o lugar do livro nesta mudança?
O livro continuará a desempenhar um papel útil qualquer que seja o cenário futuro. Quanto mais mudanças houver, mais necessários serão os livros. Se os estúpidos recusam esse papel, pior para eles. Mas essa não é a minha função: conto histórias e assisto ao final de um mundo.

Num mundo que parece saído de um livro de ficção, qual o papel dos ficcionistas?
Os escritores não têm nenhuma obrigação moral. Há autores que escrevem sobre sexo, História, o futuro, distopias, utopias.... O seu papel é contar histórias. Ele é um ficcionista, não um moralista. Não quero mudar o Mundo. Apenas o narro como o vejo. O que a ficção tem de bom é que podemos ser o que quisermos, anarquista, fascista, comunista, misógino. Somos livres de sermos o que quisermos. Não há uma regra, um cânone.

Assusta-o envelhecer, mais ainda do que morrer?
Ler, navegar e ler são - por esta ordem - atividades que me dão mais prazer, Sem elas, a vida não faz sentido.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG