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Concerto

Sendo assim, o Porto rende-se a Sam The Kid

Sendo assim, o Porto rende-se a Sam The Kid

Coliseu encheu na noite de sexta-feira para fazer o "rapper" de Chelas sentir-se em casa, num espetáculo que entra para a história do Hip Hop português.

Era um momento raro que ali se aguardava. De um lado, milhares de pessoas ansiosas para ouvir um dos nomes incontornáveis do "Hip Hop tuga", que já não atuava a solo há mais de 10 anos. Do outro, um palco cheio e imponente, com uma orquestra de 24 elementos no centro, a banda Orelha Negra à frente, o DJ Cruzfader ao lado. O Coliseu do Porto esgotou para receber, na sexta-feira à noite, o "rapper" Sam The Kid. Mas foi o seu pai, Napoleão Mira, a dar início à cerimónia, com um poema recitado ao som da orquestra. As rimas receberam a primeira ovação do público, mas eram as do filho Samuel que geravam a inquietação na sala.

Sam respondeu com "A partir de agora", do álbum "Pratica(mente)" (2006), e depois com "Decisões" e "PSP", do "Sobre(tudo)" (2002), para delírio dos fãs. Mas foi com a entrada de NBC, para acompanhar na mítica canção "Juventude é mentalidade", também do disco de 2006, que a plateia realmente se envolveu naquela mixórdia de vozes e instrumentos. E foi nessa altura que o artista olhou para o público. "Está muita gente", disse ele, pedindo "intimidade" e levando os fãs "ao quarto onde escrevia". Íntimo é o termo certo para descrever o momento de "Sangue", do álbum de 2002, dedicado ao avô, que fez umas rimas para aquela música. "Ouve lá ó Samuel, tu metes-me em cada alhada... vamos lá ver como é que consigo fugir desta enrascada", ouve-se na voz do avô, enquanto na tela no fundo do palco passam imagens dos dois.

Além dos efeitos visuais, com as luzes e o ecrã gigante, destacam-se os instrumentais, que fogem a tudo o que é habitual no Hip Hop. Ali não são só os "beats" do DJ, há a orquestra, há a banda, as "back vocals" de David Cruz e Amaura. Uma simbiose que cria um efeito bonito a encher não só o palco mas também os ouvidos do público. Sam foi então "À procura da perfeita repetição" (2006), antes de chamar Xeg e Sanryse a palco para uma viagem até ao primeiro disco, "Entre(tanto)", de 1999. Fiel a si mesmo, Samuel subiu a palco vestido de calças de fato de treino, t-shirt e boné, todo de preto, e foi assim que tratou de "O recado" (2002). A plateia não esqueceu o clássico e acompanhou a letra, gritando em uníssono "tá-se bem". "O Porto consegue gritar mais", provocou Sam, e a sala respondeu à altura: "TÁ-SE BEM". A recordação de velhos êxitos deixou o "rapper" de 40 anos nostálgico. "O miúdo está orgulhoso destas rimas".

Seguiu-se um momento emocionante de homenagem ao amigo Beto Di Ghetto, falecido em 2017, com um "medley" ao mesmo tempo que passam imagens dos dois na tela. "Façam barulho", pediu Sam. E foi barulho que se ouviu quando a seguir entrou em palco o "rapper" gaiense Mundo Segundo, que "jogava em casa". "Juntamos Gaia e Chelas", disse Samuel, enquanto Mundo recordava com "orgulho" ter sido "o primeiro gajo a trazer o Sam ao Porto". Depois das músicas "Gaia Chelas" e "Tu não sabes", singles da dupla, já não havia dúvidas: "Estamos a fazer história todos juntos". Com o público em êxtase, o concerto parecia estar perto de atingir o clímax quando se ouviram mais dois clássicos, "Não percebes" (2002) e "Retrospectiva de um Amor Profundo" (2006). Os braços esticados no ar, a dançar para cima e para baixo, enquanto os fãs acompanhavam o artista rima após rima.

O ambiente arrefeceu para um momento de instrumentais com os Orelha Negra e um b-boy a dançar em palco. Mas voltou a aquecer com uma das maiores ovações da noite para a entrada de Carlão, o eterno "Pacman" dos Da Weasel, e SP, para cantar "O Crime do Padre Amaro", música do filme homónimo de 2005. Carlão saiu sob fortes aplausos, mas SP ficou para "Negociantes" (2006), numa homenagem a Snake, outro grande amigo de Sam que faleceu em 2010. O refrão, com o vozeirão de SP a encher a sala, foi um dos mais entoados pelo público. "Agora vou fazer algo mais íntimo, mais profundo", anunciou Samuel, antes de recitar as rimas de "Hereditário" (2006), uma das obras-primas do artista. A plateia ficou hipnotizada a ouvir e só voltou a acordar quando o "rapper" perguntou: "Estão a curtir a cena? Estão a curtir a noite?". Os fãs responderam bem alto e pediam mais.

Aproximava-se o fim do concerto e ouviu-se a inevitável "16/12/95", mais um clássico da obra de Sam The Kid. "O nome dela é Sofia...", e o público sabe, a letra é cantada em uníssono. É um dos momentos da noite. Mas o melhor estava por vir. Samuel volta a chamar Mundo Segundo ao palco para o acompanhar em "Poetas de Karaoke" (2006) e o Coliseu vem abaixo assim que se fazem ouvir os primeiros acordes. É, sem dúvida, a maior ovação da noite, provando que a música continua a ser o hino maior da carreira do artista e um dos melhores do Hip Hop português. "Vivi ao máximo este momento aqui convosco, sei que nunca vou esquecer. Obrigado!", disse Samuel. Os fãs respondem com gritos de "SAM! SAM! SAM!".

O concerto podia acabar ali, mas faltava uma música, talvez a mais esperada da noite. "Sendo Assim", do disco "Mechelas" (2018), fechou o espetáculo como um "encore" disfarçado. Em vez de sair do palco para depois voltar sob pedido da plateia, Sam senta-se na cadeira de secretária, como se estivesse no quarto, e solta as rimas da última canção que escreveu. "Sendo assim, a cena sai sem pressões". E saiu. Se pressão havia por dar pela primeira vez um concerto em nome próprio perante um Coliseu esgotado, não se notou. "Obrigado Porto, foi uma honra", disse Samuel. E o Porto, rendido, só conseguia gritar "Sam The Kid!".

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