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Silly Boy Blue: a nova pop que saiu da intimidade para o arame

Silly Boy Blue: a nova pop que saiu da intimidade para o arame

Projeto pop do Porto lança disco de estreia e revela-se este sábado à noite com espetáculo ao vivo na sala Passos Manuel.

Silly Boy Blue, o projeto de homem-banda de Miguel Machado Vaz, beatlemaníaco confesso e acólito anímico de Bowie, isto é, que foi forjado no entusiasmo eclesiástico daquele pop rock, parece um projeto deslocado do tempo - porque o seu autor portuense, que acabou de ser pai, tem 43 anos e foi declarado Novo Talento FNAC.

"Eu vim do nada", diz Miguel Machado Vaz ao JN, "sou engenheiro químico de formação e na vida real faço gestão de uma equipa de software, coisas muito pouco românticas. Devia preocupar-me com outras coisas "mais adultas"? Talvez, mas isto, a música, e isto nasceu em mim, dá-me prazer e alguma coisa há de acontecer, ou melhor, já está a acontecer".

O acontecimento é "Man on wire" (edição FNAC 2019), álbum de oito temas que marca a estreia na publicação de discos de Silly Boy Blue, um disco pop folk emitido a partir da intimidade e dos murmúrios do seu quarto na metrópole do Porto. A estreia ao vivo, com banda, tem lugar esta noite, 9 de novembro, às 23 horas, no cinema-danceteria Passos Manuel, no Porto.

O autor tem várias coisas a explicar: o arame tenso no título do seu disco, o enigmático nome da banda e, entre outros alegóricos segredos, a importância de "Wish you were here", o disco mental de rock progressivo dos Pink Floyd lançado um ano antes de Miguel Machado Vaz nascer.

Um artista é sempre um homem no arame

Primeiro o nome da banda: "É uma óbvia homenagem a um artista estratosférico, o David Bowie. É uma canção dele de 1967, do seu disco de estreia, antes de Bowie ser Bowie, isto é, antes de se ter transformado numa aranha de marte e com isso ter mudado a música popular para sempre. "Silly Boy Blue" fala de reencarnação e de revolta. Pareceu-me ser um belo nome para uma banda".

Depois o nome do disco, que é outro risco, "Man on wire". O artista explica-se: "É isso mesmo, um homem no arame, é como eu me sinto, demasiado exposto, quase nu, mas disposto a provocar uma superação. É outra homenagem, agora a um funambulista, Philippe Petit, o francês que em 1971 atravessou, com pasmo e em cima de um arame, as duas torres góticas da catedral de Notre Dame, em Paris, e, mais alto ainda, mais incrível ainda, que em 1974 cruzou o altíssimo vazio, outra vez só suspenso pela morte num arame, entre as duas torres gémeas do World Trade Center, em Nova Iorque, e que nunca mais ninguém ousou atravessar porque as torres, como todos vimos cheios de horror, vieram abaixo nos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001".

E, no meio disto, o que fazem os britânicos Pink Floyd e esse disco de derrisão psíquica e rock psicadélico intelectual que é "Wish you were here"? "Bom, esse foi o primeiro disco que possui. Foi comprado numa FNAC de Paris quando tinha 10 ou 11 anos. E hoje, quando já ninguém tem discos, já ninguém compra discos sequer, hoje possuímos ficheiros numa nuvem do Spotify, a nossa discoteca é etérea, hoje ainda tenho esse disco porque ele me prova neste mundo desmaterializado e digital, que houve vida a contar noutro tempo e noutros lugares".

Ele é como tu ou como eu

Com outras influências musicais demarcadas - "cresci com um irmão mais velho no punk, entre Sex Pistols, os Clash e os Ramones, cresci obviamente contra o sistema ; depois dancei a música disco de 1980, e nunca mais de dançou assim como se dançava no pós-punk" -, Miguel Machado Vaz insiste numa certa candura quase desusada: "Subir a um palco, como vai suceder agora no Passos Manuel, é como ir a teste na escola quando tens seis anos, tem essa importância, que é toda e nenhuma, simultaneamente". Entre outros avulsos, além de Bowie e dos Beatles, o compositor portuense disca ainda M. Ward e Howe Gelb, dois graves trovadores agudos na predilecção pelo diarismo da actualidade sentimental.

Hoje em palco, os Silly Boy Blue serão Miguel Machado Vaz (voz, guitarra, harmónica), mais Ricardo Vale, João Vaz e Telmo Miles, que se distribuem entre baixos, baterias e as serpentes eléctricas de um órgão Wurlitzer. Além dos oito temas de "Man on wire" e de "meia dúzia de músicas novas que hão de dar o segundo disco, vamos tocar uma música muito pouco conhecida dos Beatles, "Nowhere man", é tão pouco conhecida que até parece uma música do Bob Dylan". A letra é bastante reveladora da condição do artista, deste e de qualquer um, concorda Silly Boy Blue. Diz assim o primeiro par de estrofes da canção: "Ele é um homem de lugar nenhum, sentado na sua terra sem lugar, fazendo todos os seus planos para ninguém. Ele não tem um ponto de vista, não sabe para onde vai, ele não é mesmo como tu e como eu?".