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"Sinto vergonha pelo que se está a passar no Curdistão"

"Sinto vergonha pelo que se está a passar no Curdistão"

Eva Husson filma história de guerrilheiras curdas em "As Filhas do Sol"

Algures no Curdistão, uma jovem advogada visita a família. Num ataque violento de extremistas, perde o marido e é feita prisioneira, juntamente com o filho e milhares de outras mulheres e crianças. Uns meses depois de conseguir fugir, torna-se chefe de um batalhão de mulheres que tem como objetivo recuperar a cidade onde foi capturada e salvar o filho. Ao seu lado, uma repórter de guerra veterana segue o dia a dia do batalhão durante os três dias do ataque... É esta a história de "As Filhas do Sol", estreado no Festival de Cannes, onde o JN falou com a realizadora. O filme já está em exibição nas salas.

Que tipo de investigação efetuou?

Fui ao Curdistão e falei com todas as mulheres que pude. Presas, antigas presas, mulheres guerrilheiras. Falei também com os homens que conseguiram retirar as mulheres de Mossul. Fiz toda a pesquisa que pude.

Como é que transformou essa investigação numa história?

Foi difícil. Demorou muito tempo a fazer. Felizmente tenho uma produtora que é muito boa na fase de desenvolvimento, trabalhámos em equipa. Durante ano e meio íamos trocando versões do guião. Chegámos a cerca de quarenta versões do guião. O mais complicado foi quando os financiadores perguntavam se eu era capaz de fazer um filme de guerra? Alguma vez iam perguntar isso a um homem?

Apesar da enorme violência do que estas mulheres sofrem, há um grande pudor na forma como a mostra.

Como mulher sou muito sensível à forma como a violência é mostrada no ecrã. Fico sempre muito perturbada. Uma das primeiras decisões que tomei foi que a violência tinha de ser mostrada ao mínimo. Não queria deixar ninguém de fora, o que aconteceria se a violência fosse muito gráfica. Se mostrasse as coisas como são, seria insuportável. Acredite, deixei muita coisa de fora, porque a violência é inimaginável.

A personagem da fotógrafa de guerra é uma espécie de representação de si mesma?

Não de mim em particular. Mas posso dizer que é uma representação do mundo ocidental. Mas como é uma personagem que já viu muita coisa já não é ingénua, é alguém já com alguma experiência do terreno e que sente enorme simpatia por aquelas outras mulheres.

Nesse caso, o ocidente é apenas uma testemunha do que se está a passar...

O que é um problema, um grande problema. Sinto vergonha pelo que se está a passar. Devemos assumir a responsabilidade por muita coisa em que podíamos ajudar. O que o povo curdo está a fazer é extraordinário.

Pensa que nas guerras, em geral, a violência contra as mulheres é sempre muito menos descrita?

É uma questão muito importante. As mulheres não têm sido tão representadas no cinema como os homens, nestes mais de cem anos de cinema. Há todo um lado do mundo que não está representado. É por isso que já há reações enormes contra o filme.

Pode falar um pouco sobre o processo de casting?

Queria ter a certeza que não iria haver problemas de legitimidade entre as atrizes. Detesto quando se quer representar uma nação ou uma cultura e se escolhem atores e atrizes bem diferentes. Apesar dos poucos meios, fizemos voar pessoas de vários países, como a Turquia, que eram curdas. Uma das deixou o país quando tinha três anos, o pai foi morto e ela transporta isso no seu corpo. Acho que esse esforço deu resultado.

Algumas das personagens são mães...

Faz parte da nossa história enquanto mulheres o escolhermos quando queremos ser mães. Mas o que se passou foi que vi fotos de mulheres guerrilheiras a amamentar os seus bebés. Eram imagens tão fortes. O processo de maternidade é também bastante físico. Como mulher quis também mostrar esse diálogo constante com os nossos corpos que nós mulheres temos.

Como é que foi coreografar as cenas de ação?

Nos filmes que vejo as cenas de ação normalmente aborrecem-me. E por vezes duram vinte minutos. Por isso vi com cuidado os únicos dois filmes de guerra de que gosto muito, "Apocalypse Now" e "A Barreira Invisível". Em ambos os casos as cenas de ação têm um sentido narrativo e estão sempre perto das suas personagens. E não precisamos de mais nada, nem de grandes efeitos.

Ver mulheres curdas guerrilheiras parece-nos surpreendente...

A sociedade curda é muito patriarcal, é muito difícil para as mulheres. Mas na guerrilha, as mulheres são consideradas iguais aos homens. Para muitas destas jovens a opção é ficarem em casa nos próximos vinte ou trinta anos ou conquistar a sua liberdade, mesmo que o preço seja alto. Mas a liberdade que lhes é dada é tão poderosa que lhes dá energia e coragem.

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