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Super Rock: o esquisito segundo dia foi da francofonia

Super Rock: o esquisito segundo dia foi da francofonia

Meco perdeu público com o DJ Kaytranada numa noite em que actuaram cinco-bandas-cinco francesas, uma coisa nunca antes vista por cá. Festival tem excesso de synth-pop? Só quando o synth-pop é mau.

A imagem mais feliz do dia, o 2.º do Super Bock Super Rock agora regressado ao prado aquentado do Meco, não se repetiu. Mas foi uma bela estampa de fim de tarde: Charlie Sleen, o revoltoso vocalista de 20 anos da banda rock do sul de Londres Shame, a nadar de costas num "crowdsurfing" solar levado pelos braços empinados do público a vibrar -e isto enquanto continuava a cantar o refrão de "Gold hole" que repete seis vezes uma ordem invertida: "shake me up" (sacode-me, estremece-me). Foi um momento de comunhão com raiva rock pós-adolescente e também não mais se replicou.

Foi um segundo dia esquisito que abriu e seguiu com rock: além dos Shame e dos seus hinos pós-punk de desgosto - a melhor expressão de agradecimento ouvida entre todos os artistas até aqui foi a do jovem Sleen, desarmante como um tiro na língua: "obri-fuckin-gado" -, houve, tudo isto no Palco LG, o rock recalescente dos Fugly (eles são do Porto e o seu nome é a contração de um insulto: "fucking ugly"), os riffs enervados da Twist Connection, quarteto de Coimbra que tem um baterista rockabilly que toca de pé, e ainda os abrasivos Galgo, uma pequena revelação rock saída debaixo das pedras psicadélicas de Oeiras.

A melhor Charlotte e a pior Christine

Mas à noite, deposto o rei-sol, tudo mudou, eclipsou-se o rock e entrou com fanfarrada anunciada a brigada da francofonia que venera o synth-pop, o género artificioso mais visitado por este festival - e foram nada menos do que cinco-bandas-cinco todas francesas, o que há de ser um recorde por cá.

A melhor, sem consenso, foi Charloltte Gainsbourg, atriz animosa e audaz nas mãos desfaçadas de Von Trier, e que aqui como rocker é uma inebriada fascinante de timidez; a pior, com toda a conformidade, foi o electro-pop de plástico com coreografias de "Fame" sem fulgor que é Christine and The Queens, que até terá alguns "beats" pegajosos de graça, mas é de uma adolescência tal que em retrospectiva faz dos The 1975, a banda com a mais baixa idade mental do festival, parecer um conjunto de sábios e sóbrios adultos.

Phoenix (menos seria mais) e o invento FKJ

Mais ou menos indiferente e com pouquíssimo público na tenda Somersby ficou o hip hop de Roméo Elvis, que é belga mas fala a língua dos Galos, e que tocou à mesma hora dos Phoenix no Palco Super Rock. Ora Phoenix acabou por ser uma coisa um bocadinho maçuda e maçante, ainda que tenha começado muito bem com um desfile de ótimos singles altíssonos: "If i ever feel better", Lisztomania", "Too young", "Lasso" ou "J boy" que é uma canção cheia de calorias e com teclados que são verdadeiras serpentinas vivas a rabear. Deviam ter tocado menos meia hora, pelo menos, e deixar o público em desejo - que é sempre a melhor forma de nos deixar.

Surpreendente foi descobrir o que faz FKJ, "non de plume" de Vincent Fenton, um multi-instrumentista e homem-banda que levantou sozinho uma festa de french-house muito concorrida no Palco EDP. E o que ele faz é isto: canta e toca três teclados, três guitarras, um baixo, um saxofone e ainda ordena uma beatbox. Como? Não simultaneamente, é evidente: constrói em tempo real loops vivos que depois dispõe em camadas manipuladas com grande sobriedade e uma profundez sensual.

O que é Kaytranada?

O grande cabeça de cartaz do 2.º dia era afinal só um DJ, Kaytranada, 27 anos, um produtor haitiano do Canadá que Coachella promoveu no seu sistema de fama inflacionada estrelar. É sempre um desgosto ver um DJ sozinho num palco despido e este cheirava a festa Urban Beach por todos os poros.

Tendo tocado no dia seguinte no mesmo palco de Lana Del Rey [sentido suspiro], Kayt, como ele se apresenta, só atraiu o equivalente a 1/3 dos espectadores da diva cinemascope [sentido suspiro agora mais fundo]. Havia ainda assim muita gente, numa larga maioria de jovens mulheres cheias de glitter e demais purpurinas, a dançar a sua frivolidade.

E outra vez Charlotte

Contexto cinematográfico: em "Melancholia", o drama apocalíptico de 2011 de Lars von Trier, Charlotte Gainsbourg é uma mulher desesperada que luta para arrancar a sua irmã dos espasmos da doença mental. A sua performance é crua, devastadora, ousada e sentimos todos a avançar sobre ela como um veneno a escuridão. Fez ainda mais três filmes com o excelente e demente dinamarquês, cada um com mais negrume que o outro: os dois tomos de "Ninfomaníca", em 2013, o ano em que se suicidou a meia-irmã da atriz, a fotógrafa Kate Barry, e o "Anti-Cristo", em 2009, um filme que diz a um casal em crise que só o caos sabe e pode governar.

Como rocker ao vivo, Charlotte não é diferente, apesar de ter estado rodeada de luz branca nuns sofisticados portais móveis de néon a rodear toda a banda: parece ao mesmo tempo incrivelmente íntima e fantasticamente super dimensionada, tudo isto num papel de impecável timidez - "à propos": ela estava linda, botas pretas curtas, jeans justos e uma t-shirt branca, a simplicidade é, de facto, um luxo - em que ela se mete debaixo de ondas orquestrais e sintetizadores pungentes.

Dois exemplos da sua paleta sonora: em "I'm a lie" o seu quinteto combina um gancho de sintetizador arrancado ao Halloween com versos em francês sobre o angustiante efeito fisiológico do desejo; em "Deadly valentine", um épico à Daft Punk, Charlotte distende votos de casamento numa performance vocal semi-sussurrada e enervante, entre cordas arrebatadoras que exageram o drama das núpcias dementes, num tema eletrizante para dançar. Foi a favorita de uma minoria, fazem-se votos que volte depressa a cantar por cá. Já agora: por pouco não lhe cantámos os parabéns: Charlotte faz amanhã, domingo 21 de julho, 48 anos.