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"Tentei fazer uma acumulação de pequenos detalhes neste filme"

"Tentei fazer uma acumulação de pequenos detalhes neste filme"

O realizador Christophe Barratier fala-nos da sua longa-metragem "O Meu Verão em Provença", baseada num dos livros de Marcel Pagnol sobre a sua infância naquela região de França. É um mergulho no universo de um autor que se funde com o do próprio cineasta.

Estreou nos cinemas "O Meu Verão na Provença", adaptando um dos vários livros que Marcel Pagnol escreveu sobre a sua infância. A ação decorre na região de Marselha, em julho de 1905. Quase adolescente Marcel Pagnol embarca nas suas últimas férias de verão antes de entrar para o ensino secundário e volta, por fim, às suas montanhas na Provença. O que começa como um verão de aventuras de miúdos transforma-se no seu primeiro amor, e leva ao desenterrar de antigos segredos. Christophe Barratier, realizador do filme de culto "Os Coristas", embarca no universo pessoal de Pagnol e explica-se ao JN.

De toda a obra de Marcel Pagnol, de onde veio o interesse por este livro em especial?

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Os relatos de infância do Marcel Pagnol são muito conhecidos, e não só em França. Basta lembrar-nos de "A Glória do Meu Pai", quando o Marcel Pagnol tinha 8 anos e os seus pais compram pela primeira vez uma casa na região. "Marcel dans les Collines" é já um universo muito diferente. "Le Chateau de Ma Mére" é a continuação.

O seu filme adapta o "Le Temps des Secrets"...

É onde o jovem Marcel vai deixar o seu pai, que era professor primário, para entrar no liceu. Tem 11 anos e descobre que o mundo da infância o está a deixar. É a idade em que começamos a conhecer as primeiras emoções amorosas. E na qual descobrimos que nem sempre vamos seguir as recomendações dos pais. Foi isso que me interessou nesta obra de Pagnol.

Recentemente houve uma outra adaptação do livro, feita para a televisão.

Não funcionou muito bem. Não deixou marcas visíveis no espírito das pessoas. Pelo contrário, todos se lembram dos filmes do Yves Robert. Muita gente não sabe, mas a minha avó era uma grande atriz de teatro e interpretou várias vezes textos de Pagnol no palco. Estava sempre a falar-me de Pagnol. Quando passava algum filme dele ninguém podia sair de casa, era quase como se houvesse um recolher obrigatório. O universo de Pagnol é-me muito familiar, fez parte de toda a minha infância.

Há então um lado nostálgico nesta sua adaptação.

Não é bem isso. Não sou de todo nostálgico do passado. Sou nostálgico do meu passado. Isso admito agora sem qualquer problema. O Pagnol falava muito da acumulação de pequenos detalhes, era isso que contava. E é o que tento fazer com este meu filme. São tantos pequenos detalhes que, no final, formam um todo.

O mundo de Pagnol vive-se naquela região perto de Marselha.

É um mundo muito diferente por exemplo do que vivem os parisienses. A obra de Pagnol vive-se num pequeno espaço de apenas alguns quilómetros quadrados. E tem uma cor muito especial, um ambiente muito particular, um calor que se sente na imagem.

Mas há uma universalidade no seu relato...

Por exemplo, quando mostrei "Os Coristas" um pouco por todo o lado, como em Portugal, descobri que nós, como vocês, sentíamos um pouco as mesmas coisas e da mesma maneira. Há muitas coisas que temos em comum. Sobretudo quando somos crianças. Charles Chaplin fazia rir o mundo inteiro.

A paisagem é também uma personagem do filme...

Infelizmente, ao ver fotografias da época de Pagnol e ao confrontá-las com o que vemos hoje, há muita coisa que mudou. Os incêndios do século XX devastaram muito aquela região, há muitas árvores que desapareceram. Figueiras e oliveiras desapareceram completamente. Mas continua a haver camponeses que vivem apenas a cinco quilómetros de Marselha e que nunca viram o mar.

Os dois atores jovens são magníficos...

Um é de Paris, o outro vive em Aubagne, a alguns quilómetros de Marselha, é mesmo de lá onde o filme se passa. Já fiz alguns filmes com crianças e sabia que era necessário despertar-lhe a paixão por fazer o filme, era preciso dar-lhes tempo. Ninguém é ainda ator, quando se é criança. Não se pode dirigir uma criança como se fosse um ator. Para começar, é necessário identificar a sua natureza. Se escolhermos mal, é o fim. Mas quando o descobrimos, passa a ser ele a dirigir-nos. É essa a magia.

Gostaram de se ver no ecrã?

É sempre um choque para as crianças, quando se vêem num filme. Nós, adultos, vamos mudando lentamente de aspeto. Mas quando se é criança, um ano ou dois, entre a rodagem e a estreia do filme, faz toda a diferença. Para eles, é como verem-se no passado.

A obra de Marcel Pagnol é estudada nas escolas francesas?

Infelizmente não. É mais um trabalho dos pais, o de transmitir aos seus filhos a obra de Pagnol. Na escola aprendem-se coisas mais académicas, como Voltaire, Victor Hugo ou Zola. Pagnol fala sobretudo das pequenas coisas e o seu estilo não é tanto universitário. É um estilista do quotidiano. Mas Pagnol é um nome que acaba sempre por vir ao de cima, sobretudo pela transmissão oral. Mais tarde ou mais cedo os jovens vão deparar-se com a obra de Pagnol.

Como é que equilibra a sua carreira entre o cinema e a música?

Tenho-me dedicado muito mais ao cinema, mas o confinamento fez-me pegar de novo num instrumento musical, a guitarra, que tem a sua técnica. Sempre tive mais consideração por um bom intérprete musical que por um cineasta. Para se tocar sempre a nota certa são precisos pelo menos quinze anos de estudo. Pelo contrário, toda a gente pode fazer um filme. Adoro o cinema, o cinema é a minha vida, mas tenho muito mais respeito pela música.

[Veja o trailer aqui:]

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