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The Libertines disciplinados perante plateia modesta no Alive

The Libertines disciplinados perante plateia modesta no Alive

Os britânicos The Libertines encerraram o palco principal da 8.ª edição do NOS Alive com competência e entusiasmo controlado. Em 2015, o festival regressa ao Passeio Marítimo de Algés nos dias 9, 10 e 11 de julho.

Os The Libertines foram o último cabeça-de-cartaz a ser revelado pela organização do Alive e uma escolha arrojada. Se em Inglaterra continuam a ser um fenómeno, como a imprensa britânica relata - o concerto que deram em Londres há seis dias incluiu mais de tres dezenas de feridos e interrupções por causa da desordem na plateia -, em Portugal nunca conseguiram conquistar uma base de fãs expressiva e o concerto desta noite reiterou essa evidência.

A miudagem que venerava Foster the People esfumou-se antes de os Libertines entrarem em palco, sobrando apenas estrangeiros empolgadíssimos com a oportunidade de ver Pete Doherty e Carl Barat e alguns milhares que não escondiam a curiosidade em assistir a um concerto protagonizado por Doherty.

As aventuras e desventuras do músico com os estupefacientes - que precipitaram o fim do projeto em 2004 - estão inscritas nos anais da história do rock e alimentam a imagem selvática que o público retém do grupo nos idos anos 2000. Agora que voltaram a reunir-se para pouco mais de uma dezena de concertos pela Europa a história é outra. Apresentam-se rapazes bem comportados, músicos competentes, com gozo evidente e química em palco, mas sem a chama que poderia ter roubado público às outras paragens.

Com apenas dois discos editados, e a promessa de um terceiro para 2015, encontraram em canções como "Don't Look Back into the Sun" e "What Became Of The Likely Lads" momentos de euforia nas filas da frente e nas clareiras praticamente vazias perto do palco, onde uma juventude inebriada se deixava conduzir pelo rock do grupo e pela cerveja - não necessariamente por esta ordem.

Ainda os Libertines caminhavam pelos trilhos do encore - e sim, Doherty fez o número vencedor de carregar a bandeira portuguesa às costas -, quando Chet Faker subiu ao palco Heineken, na ponta oposta do recinto. Se os Libertines tivessem visto tamanha enchente, apostamos que se teriam roído de inveja. A tenda era pequena para todos os que queriam escutar aquela voz soul embrulhada em fina malha eletrónica.

O músico e produtor australiano já tinha passado por Portugal no ano passado, para um concerto no Lux, e regressou para um palco maior e repleto de uma multidão que soprava as suas letras na perfeição. De "I'm Into You" e "Love and Feeling", do EP de estreia, Thinking in Textures (2012), à mais recento "To Me", do primeiro disco, Built on Glass (2014), tudo era devoção a Chet Faker. Resta esperar que volte, o quando antes, para um concerto em nome próprio.

A noite do terceiro e último dia do Alive foi feita de estreias, com os Bastille e Foster The People a conquistaram o público jovem que se encontrava no recinto. São nomes recentes no panorama musical, bandas da moda que chegam com ímpeto conquistador e um punhado de canções orelhudas. Os britânicos Bastille vieram apresentar o seu disco de estreia, "Bad Blood" (2013), um produto pop rock de consumo imediato mas de eficácia garantida junto do plateia. Dan Smith é o homem ao comando do projeto responsável por "Pompeii", uma das canções que mais tem rodado nas rádios nos últimos tempos.

"Overjoyed", single de estreia do quarteto, adoça a multidão e "Blame" atencipa um novo disco, num concerto onde houve espaço para algumas surpresas como uma versão de "No Scrubs", das TLC, ou de "Rhythm of the Night", dos Corona.

Os californianos Foster the People apanharam a onda e desfiaram alguns dos seus sucessos para uma multidão - mais reduzida do que a das noites anteriores - empenhada em fazê-los sentirem-se em casa. "Wasted" e "Houdini", do primeiro disco, "Torches" (2011), encantaram os presentes, que saltitavam um pouco por todo o recinto com o pop rock recheado de efeitos do grupo. Calções curtos, muito curtos, cabelos compridos e peles já muito bronzeadas compunham a moldura humana que se estendia em frente ao palco. "Pumped Up Kicks" ficou reservada para o final, para gáudio os fãs, que debandaram assim que o concerto terminou.

Todos nós, terráqueos que caminhamos com os pés assentes na terra, temos necessidade de sentir a cabeça suspensa no céu - a aprazível ilusão de expandir e dilatar o nosso campo sensorial. É de gente como a dos Unknown Mortal Orchestra que precisamos. São uma espécie de guias para a rota sideral.

Foi um concerto tremendo no palco Heineken. Eles dominam o assunto: derramam psicadelismo em narcotismo blues, chafurdam rock'n'roll em pandemónio elétrico, aniquilam as fórmulas óbvias da música a metro e raptam-nos para uma magnífica viagem abstrata. Foi preciso uns tipos voarem mais de 20 mil quilómetros desde o lado oposto do planeta (são neo-zelandeses) para nos mostrarem o caminho para o céu.

O terceiro e último dia de NOS Alive arrancou em português com os You Can't Win, Charlie Brown e os Black Mamba, que tinham à sua espera uma plateia mais tímida que a do dia anterior, varrida pela ventania que este sábado se fazia sentir no recinto. Os You Can't Win , Charlie Brown trouxeram as canções do novo disco "Diffraction / Refraction", mas não esqueceram aquelas que os deram a conhecer. Já os Black Mamba gozaram de uma plateia mais composta, que se ia juntando ao palco principal ao cair do dia.

O entusiasmo do vocalista, Pedro Tanaka, que comunicava com o público ora em português ora em inglês, manteve a plateia atenta a este debute no Alive. "Wonder Why" teve Áurea como convidada especial, num dueto que conquistou muitos aplausos. Quando os últimos acordes ressoavam no recinto, avionetas em voo rasante faziam acrobacias no céu azul que iluminava o Passeio Marítimo de Algés.

No Clubbing, a tarde começou com outro tom. Um coletivo de djs com camisinhas às flores, todos embriagados às cinco da tarde e apostados em disseminar alguma da pior pop eletrónica dos anos 90? Tudo isto reúne atributos para ser um desastre mas a verdade é que aconteceu o inverso: a passagem do Gin Party Soundsystem pelo palco NOS Clubbing foi um dos momentos mais vibrantes desta edição do Alive.

Desregrados e extravagantes, conseguiram levantar uma tenda inteira e semear sorrisos. Houve bisnagas de água, arremessos de flores, corpos a nadar na multidão e mensagens destas no ecrã gigante: "Nunca me ri com o Nilton". A dada altura até fizeram um comboio humano, serpenteante pela populaça. Desengatilharam granadas de confetis e despediram-se deste contagiante exercício ao som de "This Charming Man" dos eternos Smiths. Se isto é assim às cinco da tarde, promete ser ainda maior num horário mais tardio - a conferir num futuro breve, para bem da insanidade mental do país.

Em conferência de imprensa, Álvaro Covões, diretor da Everything is New, promotora do festival, anunciou que o Alive estará de volta ao Passeio Marítimo de Algés nos dias 9, 10 e 11 de julho de 2015. Segundo a organização, ao longo dos três dias de festival terão passado pelo recinto mais de 150 mil pessoas, número que supera a marca do ano passado.