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Tiago Guedes: "Quis falar sobre a violência e como se vai perpetuando"

Tiago Guedes: "Quis falar sobre a violência e como se vai perpetuando"

O realizador portuense Tiago Guedes fala-nos da sua mais recente longa-metragem "Restos do Vento", já em exibição nas salas, que realizou e cujo argumento escreveu com o encenador e dramaturgo Tiago Rodrigues, novo diretor do Festival de Avignon.

Estreou em Cannes, numa Sessão Especial, levando pela primeira vez em 16 anos o cinema português à seleção oficial do festival. Chama-se "Restos do Vento", já está em exibição nos cinemas e mostra como um trauma do passado está sempre à espreita para condicionar o nosso presente, por vezes de forma trágica. O filme é interpretado, entre outros, por Albano Jerónimo, Nuno Lopes, Isabel Abreu, Gonçalo Waddington e Maria João Pinho, tem realização de Tiago Guedes. O projeto é anterior a "A Herdade" e "Tristeza e Alegria na Vida das Girafas" e foi escrito a meias com Tiago Rodrigues, novo diretor do Festival de Avignon, uma das mais importantes manifestações teatrais do mundo. O realizador falou do filme ao JN.

Este filme é um projeto já antigo. Como é que se mantém viva a chama durante tantos anos?

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É uma boa pergunta. Quando somos obrigados a mergulhar de novo num projeto este vai sofrer alguns reajustes, para o trazer para temáticas mais atuais dentro de nós. Mas este projeto, apesar de ter demorado um bocado a fazer, não mudou assim tanto. É sempre uma forma de integrar o material com o nosso eu atual, com o nosso presente.

O projeto é mais pessoal para o Tiago Guedes ou para o Tiago Rodrigues?

É mais para mim. No sentido em que a ideia e o tema foram lançados por mim ao Tiago Rodrigues. Foi um repto, fazermos isto em conjunto. Depois, o argumento em si acaba por ficar também de ambos. Mas sim, o motor de arranque, o ponto de partida, é meu.

De onde veio então esse ponto de partida?

De uma vontade de falar sobre a violência e a forma como se vai perpetuando. E vem de um exemplo real, de eu ter convivido com uma pessoa que também foi vítima de violência, já jovem adulto. Não tem nada a ver com a história do filme, mas a personagem em si e a forma como ficou ostracizada pela sociedade, a maneira como era delicado, educado e bastante naif, foram um ponto de partida para falar sobre o assunto.

É também um filme sobre os meandros da memória, da impossibilidade de nos livrarmos de certos traumas...

Sim, e a forma como isso nos condiciona, depois de termos uma perceção mais clara. O facto de ficarmos presos a culpas e medos. Isso tudo interfere no nosso discernimento.

Há um lado eminentemente português, nestes sentimentos que se jogam no filme?

Ao localizá-lo no interior de Portugal, e no país, especificamente, sinto que sim. No entanto, o tipo de assunto que está na base do filme é bastante universal. Infelizmente, o tipo de violência, os rituais e a forma como estas coisas vão passando de geração em geração, as mentalidades que se mantêm sem mudar, sem evoluir, são bastante universais.

O filme estreia no início das aulas nas universidades, com as cidades recheadas de jovens praxados, muitas vezes de forma absurdamente humilhante. O filme tem alguma relação com este fenómeno?

Para mim, sim. As praxes são um exemplo muito forte daquele assunto de que eu queria falar. A prepotência que existe muitas vezes dos mais fortes perante os mais frágeis e da necessidade do grupo humilhar o indivíduo. Isso sempre me fez muita confusão. E as praxes sempre me fizeram muita confusão por isso mesmo. O que temos no filme acaba por ser um outro ritual de iniciação, mas as praxes também o são.

A paisagem é também uma personagem do filme. Porquê aquele local em especial?

Foi uma busca bastante intensa. Queria evitar a típica aldeia do interior, ou postalinho ou demasiado emblemática de uma certa região. Acabámos por ir parar à aldeia de Meimão, em Penamacor, que reunia todas as condições que eu procurava. E fomos extremamente bem recebidos pelos locais.

O filme é também um enorme elogio aos atores e atrizes portugueses. Estão ali reunidos alguns dos nossos melhores talentos.

Eu tenho essa sorte de poder contar com eles. A grande maioria são já parceiros de outras aventuras, já trabalhámos em outros projetos. E são pessoas de que eu gosto muito. Muitos deles já estavam mesmo no arranque, na escrita. Já estavam pensados à cabeça. Sim, sinto-me sempre muito privilegiado, tenho um gosto muito grande pelo trabalho dos atores.

Visualmente o filme é também muito forte, mas conta com um diretor de fotografia que não é português. Como é que o integrou nestes ambientes tão portugueses?

O Mark Bliss é alguém com quem eu já trabalhei em várias publicidades. É alguém que vem também do documentário. Pareceu-me alguém com a sensibilidade certa para aquilo que eu estava à procura neste projeto. Sabia que se ia integrar bem no universo que estávamos a querer criar.

Ele trouxe alguma coisa em especial ao próprio projeto, além do seu trabalho na imagem?

Numa fase de pesquisa, quando estávamos a falar muito nos rituais de iniciação, sendo ele da República Checa, foi muito interessante ele dar-me a conhecer esses rituais que também se passam no país dele. O que fizemos foi criar uma fusão entre vários rituais.

O filme estreou em Cannes e já passou em outros festivais. Que ecos nos traz agora que o filme chega às nossas salas?

Têm sido bons. E também na ante-estreia cá, na primeira vez que mostrámos o filme a uma sala cheia de pessoas que não têm de ler legendas, a experiência do filme fica diferente. Tem sido bastante interessante sentir que o filme mexe com as pessoas. Para alguns não é de fácil digestão, mas é um filme que as pessoas levam com elas. Nesse aspeto acho que e um filme que ultrapassa fronteiras.

Encerrado este capítulo, o que podemos esperar a seguir?

Estou a preparar uma série para a RTP2, a partir de uns contos do Cesare Pavese. É algo de bastante diferente, mas que me entusiasma muito, porque há um trabalho muito grande com atores. É um formato diferente, é um amor ao texto e aos atores. Mas ainda estou na fase de perceber como é que vou pegar naquilo. Vou filmar só no fim do ano, a série é para ser vista no próximo ano.

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