Leiria

Tolentino de Mendonça. Cidades do futuro serão lugares de encontro entre diversidades

Tolentino de Mendonça. Cidades do futuro serão lugares de encontro entre diversidades

Ao longo de 40 minutos, na sexta-feira, fez-se silêncio no Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria, para ouvir o cardeal José Tolentino de Mendonça, falar sobre o futuro das cidades. O teólogo viajou pelo passado, para projetar os tempos que aí vêm, em que as cidades serão um lugar de encontro entre diversidades, e não ilhas, onde estamos de costas voltadas uns para os outros.

"As cidades do futuro precisam de descobrir o bem comum, como sua raiz fundamental", afirmou Tolentino de Mendonça. "O bem comum é uma condição preliminar para o progresso económico, social ou cultural de uma cidade, a partir do respeito pela dignidade da pessoa humana, e pelo reconhecimento dos seus direitos e deveres da coletividade."

O teólogo sublinhou, por isso, que só com o fim dos "interesses particulares" e dos "egoísmos corporativos" é possível construir paz e justiça. E promover as dimensões essenciais da existência humana: alimentação, habitação, trabalho, educação, acesso à cultura, transportes, cuidados de saúde, livre circulação da informação e liberdade religiosa.

"Redescobrir o bem comum é pensar as cidades como um projeto que diz respeito a todos e faz de todos protagonistas da experiência social, configurada necessariamente como uma experiência de hospitalidade e de colaboração", sublinhou. A este propósito, citou o Papa Francisco, para referir que nos sentimos mais sozinhos do que nunca, num mundo massificado, que privilegia os interesses individuais e debilita a dimensão comunitária.

Passar do "eu" ao "nós"

Para o arquivista e bibliotecário da Santa Sé, redescobrir a comunidade é outro dos desafios que se coloca às cidades do futuro. "É na comunidade que a História começa e se relança. Quando do "eu" somos capazes de passar ao "nós"", explicou. Referiu ainda que assistimos à valorização crescente da categoria de identidade, que surgiu por iniciativa de determinados grupos sociais.

"Em muitos casos, a reivindicação identitária tem contribuído para eliminar situações históricas de discriminação e de injustiça, retirando da invisibilidade tantas formas de sofrimento, violência e exclusão, que persistem, e gerado uma maior consciencialização coletiva", assegurou Tolentino de Mendonça.

"Ou a cidade se imagina como um espaço de hospitalidade, de integração social e cultural, lugar de encontro entre diversidades, que entram em contacto e dão vida a um processo contínuo de conhecimento e de diálogo ou a cidade tornar-se-á sempre mais um fator de insularização, de solidão e de descarte", avisou o teólogo. Nesse sentido, alertou ainda que a experiência virtual na web não substitui o diálogo em carne e osso.

Cultura é observatório do humano

Como terceiro desafio das cidades do futuro, o cardeal identificou a sustentabilidade cultural. Após ter explicado a importância crescente da cultura ao longo dos séculos, destacou o relatório da Unesco, de 2018, que incentiva a adoção de políticas públicas para a promoção da cultura nas estratégias de desenvolvimento sustentável e na promoção dos direitos humanos e das liberdades fundamentais. "A cultura sai, assim, de uma função periférica e ornamental, para onde, por demasiado tempo, tem sido remetida."

Defensor da ideia de que "sem uma perceção cultural profunda, as cidades não avançam", o bibliotecário do Vaticano acrescentou que "a cultura é o grande observatório do humano". E justificou: "É o principal espelho das aspirações e dos conflitos de cada época. A chave necessária para a compreensão dos mais importantes movimentos históricos. A bússola, ou o GPS, para navegar no emaranhado do presente, e a primeira antena dos sinais do futuro".

Perante uma plateia atenta, Tolentino de Mendonça referiu também que caminhar ao encontro das cidades futuras será sempre caminhar ao encontro das pessoas. "A sociedade constitui um laboratório cultural, um ponto de encontro de estilos e de formas de existência, de línguas e de dialetos, de identidades e de transações, de modalidades de coabitação, de solidariedades e de sonhos", sustentou.

Ambiente e fraternidade

O orador do Congresso da Rede Cultura 2027, com o tema "O futuro da nossa cidade", apontou ainda como desafios das cidades redescobrir a sustentabilidade ecológica e redescobrir a fraternidade e a amizade social. "As sociedades avançadas geram uma inflação permanente de recursos, indiferentes aos desequilíbrios que causam e que ameaçam a sustentabilidade ambiental", lamentou.

"Vivemos acima das nossas posses, como se os recursos, a começar pelos naturais, fossem inesgotáveis", avisou o cardeal. "A pandemia devolve-nos a consciência do limite, ao mesmo tempo que nos obriga a refletir sobre as formas de habitar o mundo." Face a esta situação, disse ser "urgente proteger a nossa casa comum".

Tolentino de Mendonça considerou ainda que as sociedades só integraram os princípios da liberdade e da igualdade, e deixaram de fora a fraternidade. "De forma manifesta, as nossas sociedades mostram dificuldade em participar num projeto que diga respeito a todos. Não nos sentimos tripulação do mesmo barco e locatários da mesma casa, mas somos", sublinhou.

No final da intervenção, o teólogo explicou que escolheu como título "Ao encontro das cidades futuras" por ser um verso do poeta Carlos de Oliveira. "A construção de uma cidade coloca-nos perante o desafio de empurrar para a frente o nosso tempo, de o perspetivar e sonhar com outra liberdade, e outra carga de sonho e de futuro. Mesmo que isso implique sacrificarmo-nos por um ideal e que a nossa vida fique mais breve terá valido a pena."

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