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Tom Schilling: "Há tanto ódio a invadir as nossas vidas"

Tom Schilling: "Há tanto ódio a invadir as nossas vidas"

Ator alemão é o protagonista de "Fabian", já em exibição nas salas.

Já está nas salas "Fabian", o novo filme do veterano realizador alemão Dominik Graf, que esteve em competição na edição deste ano do Festival de Berlim. O filme adapta o livro autobiográfico de Erich Kastner, mais conhecido pelas aventuras juvenis, como o clássico "Emílio e os detetives", e passa-se na Berlim dos anos 1920, durante a República de Weimar, quando se sentiam as sementes negras do nazismo. Tom Schilling, o protagonista, falou ao JN.

Já conhecia o livro do Erich Kastner?

Não sabia da existência do livro mas percebi que era um dos livros favoritos para muita gente. O Kastner é mais conhecido pelos seus livros para crianças.

Que imagem é que tem deste período que o filme aborda?

Este período da República de Weimar, entre as duas guerras, já foi abordado em muitos filmes e é muito falado nas escolas. Estamos muito familiarizados com aqueles tempos, em termos políticos e sociais. Mas não foi só isso que tornou o filme interessante para mim.

O que o levou então a fazer o filme?

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Foi trabalhar com o Dominik Graf. Há 20 anos que o desejava mas nunca tinha acontecido. E sempre quis fazer uma história de amor melodramática. Que não fosse sentimental, mas terna e nos tocasse no coração. E é claro que ser passada numa época onde tudo estava a colapsar à volta das pessoas a torna ainda mais interessante.

O filme fala também sobre os compromissos que os atores têm de fazer ao longo da sua carreira. Foi também isso que o interessou?

Não tanto, porque eu nunca quis tornar-me ator. De certa forma quase que fui forçado a ser ator. Ainda estava no infantário quando me chamaram para ser ator infantil. Mais tarde, no liceu, um diretor de teatro chamou-me para uma peça. As coisas aconteceram assim, nunca forcei nada.

Mas identifica-se com o que se passa no filme?

Sim, mas é com a personagem feminina. Para uma mulher é sempre diferente, ainda é hoje em dia.

O filme tem uma enorme dinâmica, com imensos planos. Até que ponto foi difícil para si rodar este filme?

Foi muito fácil. O Dominik Graf é um dos meus realizadores favoritos. Ele faz o trabalho todo para nós, atores. Gosto bastante de trabalhar com realizadores concentrados no trabalho, que sejam rápidos e que deem muita atenção aos atores. É por isso que os atores gostam tanto dele - são a sua principal prioridade. É alguém tão apaixonado pelo trabalho que quer estar sempre a filmar e perto dos atores.

Não é sempre o caso então?

Só se torna complicado quando há muito stresse na rodagem, quando há pessoas que não estão concentradas no que estão a fazer e é preciso repetir uma cena vezes sem conta. Isso faz com que seja difícil para um ator ser verdadeiro. Felizmente não foi o caso aqui. Foi tudo muito fácil. Foi mesmo muito libertador, não ter de me preocupar com as luzes ou com marcas no chão.

Como é que se preparou para um papel que já estava no livro?

A preparação é sempre a mesma, embora cada filme necessite de algo diferente. Há coisas físicas que temos de aprender, temos de nos colocar no espírito da personagem. Por exemplo, se interpreto um matemático, quero saber mais sobre matemática. Se interpreto um pintor, como já fiz, quero saber tudo sobre pintura.

Como foi então para este filme?

Quis saber mais sobre Erich Kastner, porque a personagem de Fabian está bem próxima da sua biografia. Li muitos dos seus poemas, que são mesmo muito bons. Mas para mim o mais importante era a intimidade do filme. Quis estar bastante perto dos outros atores antes de começarmos a filmar. Não parece trabalho, mas é trabalho. Por vezes temos logo uma cena de amor no primeiro dia e falta-nos essa intimidade.

O Dominik Graf disse-lhe para ler alguns livros, ou ver alguns filmes em particular, para se preparar?

Não muito, apesar de nos dizer para ver "Cabaret". Embora seja um grande realizador, não é alguém que nos esteja sempre a controlar. Confia imenso nos atores. Depois de decidir que um ator é o indicado para um determinado papel confia que tudo vai funcionar bem.

Durante a preparação com Dominik Graf fizeram algum paralelo entre aquele período e os dias de hoje, com tantos grupos neonazis a aparecerem por toda a Europa?

É claro que há uma conexão. A discussão política tem-se tornado muito áspera e radical. Como se toda a sociedade fosse forçada a tomar partido. Talvez seja a pressão das redes sociais. Há tanto ódio a invadir as nossas vidas. É verdade que se parece muito com o que aconteceu durante a República de Weimar e que levou à Segunda Guerra Mundial.

Como é que classifica a atitude de Fabian face aos tempos que se viviam?

É uma personagem um pouco fatalista. Observa o mundo à sua volta mas parece ser-lhe indiferente. Ou melhor, interessa-se pelo mundo mas não quer tomar partido por este ou aquele lado. Não quer dizer a ninguém como deve viver a sua vida. Nem queria acreditar no amor, mas acidentalmente apaixona-se.

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