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Tremor: do jazz improvisado em Rabo de Peixe ao metal eletrónico de Nairobi

Tremor: do jazz improvisado em Rabo de Peixe ao metal eletrónico de Nairobi

Festival de Música em São Miguel arrancou terça-feira com a proposta emocional de Tristany e a visceralidade dos Duma. Há dezenas de concertos e atividades até domingo.

Dia gordo em Rabo de Peixe. A vila que acolhe a maior comunidade piscatória dos Açores foi palco de um dos concertos secretos do Tremor, festival de música que decorre na ilha de São Miguel até à madrugada do próximo domingo.

Chama-se Tremor na Estufa o segmento de programação que mais acentua a ligação entre música e território, um dos objetivos centrais do certame que se realiza desde 2014. A localização do concerto, e o artista que o protagoniza, são divulgados apenas no próprio dia - e o público poderá ter como destino um espaço urbano invulgar ou algum ponto natural, como grutas ou cascatas. Nesta quarta-feira, o segredo guardava a atuação do trompetista norte-americano Peter Evans em sessão de improviso com os alunos da Escola de Música de Rabo de Peixe. O local escolhido foi o Cine-teatro Miramar, em pleno centro da vila que chegou a ser considerada uma das mais pobres da Europa. Pobre materialmente, nunca no espírito, bastando ver a interação calorosa entre o público do festival e os locais. Daqueles rostos endurecidos e tisnados saíam apenas cortesias para os visitantes, que enchiam os cafés e associações para esgotar os stocks de minis. As crianças aproximavam-se com vontade de comunicar, e com algum esforço para decifrar aquele sotaque cerrado lá se ia percebendo os seus planos para o futuro: muitas delas tinham o Canadá no horizonte.

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Numa das ruas polvilhadas de casas coloridas, debruçadas sobre o Atlântico, encontra-se o Miramar, cuja sala foi diminuta para tanta afluência. Espalhado pelo chão e encostado às paredes, o público enleou-se nos motes que o trompetista lançava para os restantes instrumentos - contrabaixo, saxofone, bateria ou guitarra - num pequeno espetáculo onde se coseram peças de Ornette Coleman e John Coltrane. Figura central do jazz de vanguarda, Peter Evans mostrou-se agradado com a capacidade de resposta dos alunos de Rabo de Peixe.

"Headbangers" do Quénia

Linguagem bem distinta ouvira-se na noite de terça-feira, a primeira do festival. Em trânsito entre os EUA e França, o dueto queniano Duma pousou umas horas na ilha para um concerto trepidante na Garagem Antiga Varela, em Ponta Delgada. Debitando um cruzamento improvável entre noise, doom metal e tecno, os "escuridão" - significado da palavra "duma" na língua quicuio - viram-se a atuar numa espécie de arena, rodeada de público por todo o lado, e não se deixaram intimidar. Foi ao contrário: a voz de gárgula em dissipação de Martin Kanja e a eletrónica eivada de guitarras distorcidas e percussão tribal de Sam Karugu impressionaram os mais sensíveis e deixaram todos os outros a avaliar o estado dos tímpanos.

Horas mais tarde, em conversa com o JN, os dois músicos de Nairobi iam cravando cigarros enquanto contavam a sua história. Ficámos a saber que há uma cena fervilhante de metal no Quénia e noutros países africanos, como o Uganda, o Botsuana ou a África do Sul. Inúmeras bandas e uma enorme massa de militantes. "Fazemos metal com a nossa perspetiva, acrescentando camadas de música tradicional africana e muita eletrónica. Levo som pré-gravado para os concertos e depois introduzo solos de guitarra e efeitos de pedais, os temas tomam sempre direções diferentes", explica Sam, que lembrou ainda as peripécias que tiveram nos EUA por causa do nome; "Pensavam que estávamos a soldo dos russos [Duma designa a câmara baixa da Assembleia Federal da Rússia]."

A "sintranagem" de Tristany

Poucas horas antes, abrira oficialmente o Tremor no Coliseu Micaelense, a maior sala de espetáculos da Região Autónoma dos Açores, inaugurada em 1917. As honras couberam a Tristany, músico de Mem Martins que concorreu no último Festival da Canção com o tema "Dégrá. Dê", composto por DJ Marfox e interpretado em dueto com a cantora Pogo. Tristany chama à sua música "sintranagem", o que remete para a geografia que habita, a Linha de Sintra. E a sonoridade traduz-se em ambientes emocionais onde se descobrem vestígios de trap, jazz, fado e temperos africanos. Ficou lançado o festival que convida a explorar São Miguel ao som de propostas oriundas das mais variadas latitudes geográficas e musicais.

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