Arte do dia

Tudo está bem quando acaba mal

Tudo está bem quando acaba mal

Os ultrarromânticos e demais lamechas que nos perdoem, mas os finais felizes por obrigação podem ser tão nocivos para a saúde mental como a privação do sono ou os manuais que prometem falhar mas infelizmente voltam sempre. Advertência prévia: este artigo contém 'spoilers'.

"E viveram felizes para sempre".

Eis uma frase que não encontrarão decerto nos parágrafos seguintes, dedicados a obras de arte que trocam o conforto dos finais felizes pela incerteza (bem mais estimulante) que significa viver a vida em estado puro.

Bem vistas as coisas, a mera ideia de que alguém vive feliz para sempre tem tanto de ingénuo como de assustador, no que isso representaria de repetição exaustiva de instantes de felicidade, até ao ponto em que estes se transformariam em tortura.


Nenhuma jornada literária pode excluir "Romeu e Julieta", a imorredoura tragédia que Shakespeare levou quase quatro anos a escrever, inspirando-se num conto popular italiano. A história de amor impossível entre dois jovens pertencentes a famílias rivais contém, afinal, toda a carga sentimental que buscamos inutilmente em todos os quadrantes da nossa existência.

Longe de ser fatalista, a morte de Romeu e Julieta vem coroar o seu amor para toda a eternidade, libertando-o assim das vicissitudes naturais da nossa passagem terrena, que tanto poderiam incluir a infidelidade, a violência doméstica ou uma vida sexual pouco satisfatória.

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Em 1919, D. W. Griffith estreou aquele que é, muito provavelmente, o filme mais triste de sempre (não incluímos neste rol os filmes - comédias incluídas - que, por serem tão maus, fazem uma tristíssima figura...).

Protagonizado pela diva Lilian Gish e com uma soberba interpretação de Richard Barthelmess, "O lírio quebrado" ("Broken blossoms" no original) conta-nos a história de uma jovem atormentada por um pai alcoólico que encontra um breve consolo nos braços de um budista empenhado em espalhar o ideal da paz pelo mundo. Assim que se apercebe da fuga da filha, o progenitor parte à sua procura com claros intentos de vingança.

A história tem tudo para acabar mal e Griffith evita habilmente ceder à tentação lacrimejante de punir os maus, recompensando os justos. Não por quaisquer instintos cruéis, mas porque a arte não tem que ser sempre um conto de fadas.

Há títulos que, embora carreguem o peso de um final antecipadamente infeliz, transmitem mais esperança e lições de humanidade do que milhentas de obras supostamente otimistas.
Vejamos o caso de "O escafandro e a borboleta", livro escrito por Jean-Dominique Bauby que depois daria origem a um filme de êxito.

Editor de uma revista feminina de sucesso, Bauby era o que se convencionou chamar de um bom sacana. O estilo de vida mundano e a arrogância extrema que sempre nortearam os seus atos são estancados de forma bruta assim que sofre um acidente que o transforma quase em vegetal.

Encerrado no seu próprio corpo, entretanto convertido numa espécie de escafandro, o antigo jornalista encontra uma forma ardilosa de comunicar com o exterior, através do piscar de olhos. É dessa forma que dita as suas impressões do mundo à sua assistente e reflete sobre a vacuidade em que sempre viveu.

A alegria e a esperança sempre foram sentimentos ausentes nas canções de Elliot Smith, o trovador norte-americano que partiu demasiado cedo, aos 34 anos.

Em poucas canções, todavia, exibe um estado de laceração tão acentuado como em "The last hour", incluída no disco póstumo "From a basement on the hill", em que recorda uma relação traumática:


"Here's the army that you mowed to the ground
And the bodies you left lying around
Talking it out the last hour
I'm through trying now, it's a big relief
I'll be staying down
Where no one else gonna give me grief
Mess me around
Just make it over
Your opinion was the law of the land
A single thing that I could always understand
I lived it out from hour to hour
The only thing that never really changed
You ran me all around
And dragged me down
At the end of the day
Don't keep me around
Just make it over
I've been thinking of the things that I missed
Situations that I passed up for this
One-way love I took for ours
I'm through trying now, it's a big relief
I'll be staying down
I wasn't good at being a thief
More like a clown
Make it over"

Os finais infelizes não são um exclusivo das histórias de amor. Em livros com um cunho político ou ideológico muito acentuado, como é o caso de "1984", os desenlaces mais trágicos acentuam os propósitos do autor de consciencializar os leitores para os riscos e ameaças contidos na história.

O pesadelo e a opressão descritos com assombrosa nitidez por George Orwell dificilmente teriam tido o mesmo impacto se, no final, o Grande Irmão fosse afinal apenas um líder pacato com a estranha mania do 'voyeurismo'. E daí...

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