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Um Beck flamejante e a mestria rock dos Pavement na segunda noite do Nos Primavera Sound

Um Beck flamejante e a mestria rock dos Pavement na segunda noite do Nos Primavera Sound

Autor de "Mutations" percorreu cardápio de géneros musicais sem patinar, antes a levantar voo. E decanos do rock alternativo gozaram tanto no Porto que ficaram zonzos. Festival termina este sábado com Gorillaz, Interpol e Dinosaur JR.

Podia fazer-se o exercício de elencar os géneros musicais convocados por Beck. Sem ser exaustivo, está lá o rock, o rap, a folk, variadas eletrónicas, a bossa nova, o jazz, o country, o blues e um mapa etno-musical que vai da Ásia à América Latina. Podia depois afirmar-se que este músico gosta de exibir os seus truques e as suas citações. Que tudo não passa de um gesto gratuito e vaidoso. Uma grande caldeirada sem propósito.

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Depois revê-se a discografia, encostando a orelha com atenção a álbuns como "Mellow gold", "Odelay", "Mutations" ou "Guero", e uma a uma as canções vão dizendo que não podiam ter sido feitas de outra forma, que cada ingrediente tem uma função, cada referência um sentido. Estamos então preparados para um concerto de Beck, prontos para essa profusão de ideias que saem disparadas do palco. Some-se a isto as saudades que o músico tinha do Porto - não atuava por cá desde o Imperial Ao Vivo de 1997 - e a boa forma com que se apresentou - cabeleira loira, óculos escuros e fato branco - e começamos a ter um vislumbre do que se passou no espetáculo do Nos Primavera Sound. Só um cheirinho: a passagem deliciosa da versão melancólica de "Everybody"s got to learn sometime", dos The Korgis, para a euforia eletrónica de "E-Pro".

Para entreter o público entre Beck e Pavement, atuaram os 100 Gecs, norte-americanos engavetados na categoria do hyperpop. Trouxeram surrealismo cibernético capaz de ferir os tímpanos - eis o hyper. E uma talk box que os aproximava de Peter Frampton mesmo quando só diziam "boa noite". Entre a descarga ruidosa da maquinaria e uns interlúdios que podiam servir para genéricos de programas infantis passaram por "1000 Gecs", o álbum de estreia, e anteciparam o próximo lançamento, que sobe a parada para "10000 Gecs". Estarão já a congeminar o "Catrefada de Gecs".

Chegou então a velha escola do rock alternativo, a banda de Stephen Malkmus e Scott Kannberg, que hibernou 12 anos até reaparecer no último Primavera Sound de Barcelona. Sem repertório novo, revisitaram os clássicos de "Slanted and enchanted", "Wowee zowee" ou "Terror twilight". É banda de guitarristas de escol, capazes de alternar entre a carga pesada e a leveza, entre a languidez e a agressividade. Recuperaram a ironia e o sarcasmo que caracterizava as suas letras e deram uma aula de rock para aspirantes. Não estarão já no seu ponto de caramelo, porque pararam muito tempo ou talvez porque o Porto - "This town really grips, we spent here five amazing days" - os tenha entortado um pouco. Mas não estão ainda prontos para acabar no Museu de Cera. A água das pedras talvez resolva.

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