O Jogo ao Vivo

José António Pinto Ribeiro

"Um Deus terreno com a graça divina de nos tocar"

"Um Deus terreno com a graça divina de nos tocar"

José António Pinto Ribeiro fala da "inspiração ontológica e intuição revelatória" de Eduardo Lourenço. Antigo ministro da Cultura sobre o amigo: "Que pena que sendo divino não fosse eterno."

Depoimento oral de José António Pinto Ribeiro

"Eduardo Lourenço era um deus terreno. Ele estava tocado pela rara "Graça" superior/divina, de raros Mestres, de nos tornar melhores a cada vez que conversávamos com ele ou o ouvíamos falar, pelo desejo de saber que em nós despertava e nos define, esse apetite, essa líbido de conhecimento da verdade, de uma verdade que nunca podemos ter na mão e que é qualquer coisa que nos despe de todas as certezas. Fazia-nos cada vez mais corajosos, mais alegres, mais curiosos e mais lúcidos e sempre mais humanos.

Recorro a uma expressão de Ernest Hemingway, "courage is grace under pressure" ["Coragem é manter a graça quando se está sob pressão"].

Eduardo Lourenço ensinava com quem conversava, ou quem o ouvia ou o lia, "a coragem e a alegria do combate desigual" que o acesso a esse conhecimento relacional e heterodoxo sempre comporta. Saíamos sempre melhores de todos os encontros de todas as conversas, de todos os convívios com ele.

Tornava-nos mais humanos, mais conhecedores, mais lúcidos, num contágio e numa prática de redenção pela palavra. Era o que nos fazia quando o ouvíamos conversar. E isso é essencial nele: a palavra. Porque nos dizia coisas transformadoras.

Estou também a referir-me à sua "linguinha de prata", porque em cada ocasião ele sabia muito bem com quem estava a falar. Estou também a falar de ele ser habitado por uma extrema inquietação Intelectual e existencial, mas não parecer um ser dominado pela angústia existencial. Se o foi, terá sido só no final da vida da sua mulher, Annie Salomon, que morreu faz hoje exatamente sete anos, no dia 1 de dezembro de 2013.

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Não sei o que isto quer dizer. Talvez o Pessoa pudesse aqui e agora ajudar.

Quando estávamos perto dele, quando o ia buscar para ir a alguma sessão onde ia falar ou para irmos jantar ou para passarmos uns dias de férias, era sempre uma grande alegria o convívio que gerava ele, com a Clara Ferreira Alves, com a Lídia Jorge, com a Pilar del Rio, com a Anabela, com o José Carlos Vasconcelos e tantos outros.

Falando ele fazia de nós, de todos nós pessoas melhores, comunicava de uma maneira única e dizia coisas raras, singulares e lúcidas. Não me lembro dele estar zangado, ou negativo. Era sempre uma graça, uma graça que emanava dele e nos tocava. Falava com prazer da novidade, queria saber tudo o que estava à sua volta, estava sempre rodeado de jornais, perguntava, tinha uma imensa curiosidade. Uma curiosidade de criança, ele que dizia "que nunca tinha tido seis anos".

Uma vez, fomos lá a casa e a Anabela [Mota Ribeiro, mulher de José António Pinto Ribeiro, jornalista que entrevistou várias vezes Eduardo Lourenço e sua amiga] contava-lhe que nessa noite, por volta da meia noite, tinha de sair porque ia ver o Stevie Wonder ao Rock in Rio. "Quem é o Stevie Wonder?", perguntou ele. A Anabela mostrou-lhe músicas e vídeos, mostrou-lhe a importância seminal central em toda a música pop music contemporânea e no final ele disse: "Se não fosse tão tarde, quem ia consigo ao Rock in Rio hoje era eu".

Há poucos anos, perguntou se íamos a um concerto do Caetano Veloso e do Gilberto Gil. Sempre curioso, ele queria ir ver e não tinha bilhete. Foi connosco e ao ouvir o Gilberto cantar "Não tenho medo da morte / Mas sim medo de morrer", ele exclamou: "Mas isto é filosofia grega!"

Conheci-o, em 1966, ao ler no começo da faculdade o seu Livro de estreia "Heterodoxia I" e depois, com o Eduardo Prado Coelho, de quem fui muito amigo desde 68, nunca mais o perdi de vista, mesmo sem o conhecer pessoalmente, até à sua atividade política, nas campanhas Presidenciais de 85/86. Tornámo-nos amigos desde um jantar em casa da Clara Ferreira Alves. Fomos amigos próximos nos últimos 15 ou 16 anos.

Estive com ele numa sessão da Academia Francesa onde foi homenageado e distinguido pelo extraordinário ensaio que escreveu em francês sobre Montaigne. Cito esse texto, "La Vie Écrite" ("A Vida Escrita") porque, falando de Montaigne, me parece que Eduardo Lourenço fala de si mesmo [Nota: tradução livre para português feito pela jornalista que recolheu o depoimento]:

"Se Montaigne não sabia quem era e se, para sabê-lo, ele se pôs a escrever, então ele sabia que era. Poucos homens antes dele, e ainda menos depois dele, o souberam com tanta força. (...) Não tendo encontrado ninguém além de si mesmo no seu caminho, ele converteu o espanto sem fim deste encontro numa escrita.

Montaigne foi o mais só e o menos só dos homens. Sem o admitir a si mesmo, ele devolveu a injunção angustiante de São Paulo. (...) A invenção d" «O Ensaio» não é apenas um acontecimento de ordem literária, uma descoberta feliz entre outras, para colocar ao lado da «confissão», do «diário íntimo» ou das «cartas». Acertadamente, tomamos os Ensaios pelo lugar escrito, ou o diário a bordo de uma aventura mais incrível do que a de Colombo.

A descoberta do Homem como a sua própria América. Do desconhecido na ordem geográfica, teríamos chegado a um continente muito mais desconhecido, nós mesmos. (...) Uma por uma, sem que envolvamos mais do que a vontade de não sermos enganados por nós mesmos ou pelos outros, as «verdades», os acontecimentos, as sensações, as histórias devem ser reviradas e devolvidas, não sujeitas a uma «dúvida» obsessiva ou metódica, mas a uma escuta que as deixa, por assim dizer, falar por si próprias".

Isto parece-me uma reflexão sobre si mesmo. Também em Eduardo Lourenço há esta espécie de "escrevo, logo existo" - existo pela palavra escrita. E não é uma palavra escrita qualquer.

Num dos seus ensaios, Joseph Brodsky escreve sobre como a palavra é a sua própria revelação, a revelação da essência do que estamos a dizer; a coisa é escrita de uma maneira que se transforma num código de compreensão nova. Este dom, que Eduardo Lourenço tinha, não é transmissível. E com ele nós percebemos, sentimos, vivemos o que está a ser dito.

Há um texto de José Pedro Serra sobre Sophia de Mello Breyner, em que se refere à sua escrita como "ontologia da inspiração" na obra da poeta. Uso a mesma expressão para Eduardo Lourenço: as palavras exatas que ele escolhe têm essa função de desocultação do que não era visível e que só a partir dessa escrita, e graças à forma dessa, fica revelado. É uma inspiração ontológica e uma intuição revelatória. Essa é também a sua graça, desocultar o que só por aquelas palavras pode ser revelado, porque as nomeia chegando à sua essência.

A sua grande contribuição é essa, escrever sobre uma coisa de uma forma que nos permite aceder ao entendimento de nós mesmos. Antes de ele no-la dizer, nós não o percebemos. Não é a maneira como ele diz, não é a bela escrita, que ele também tem, é sim a escrita constitutiva de si mesma.

É por isso que essa escrita é constitutiva dessa revelação e ele, assim, nos revela o que somos e quem somos, revela-nos o País, a língua e a cultura que somos a nós mesmos. Grande perda, que saudade, que pena que sendo divino não fosse eterno.

(Depoimento recolhido por Helena Teixeira da Silva)

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