Literatura

Um livro habitado por muitos livros

Um livro habitado por muitos livros

O poder da literatura é o mote da nova obra de Afonso Cruz, dirigida aos grandes leitores. Não faltam autores célebres em "O vício dos livros", mas também incógnitos ou quase esquecidos. Os protagonistas, no entanto, são os livros e as histórias que os habitam.

De leitor para leitor. É neste registo informal, como se de uma conversa entre amigos se tratasse, que Afonso Cruz nos relata histórias de proveniências variadas que demonstram o que os bibliófilos há muito sabem: os livros não são meros "papéis pintados com tinta", como escreveu Pessoa, mas verdadeiros transmissores de vida e humanidade.

Ilustradas pelo próprio autor de "A boneca de Kokoschka", as histórias colocam em primeiro plano a figura do leitor. Longe do papel passivo que muitos lhe atribuem, ele é, na verdade, "o autor daquilo que lê", como escreveu Christian Bobin, já que "ler é uma maneira de nos escrevermos", como corrobora o próprio Afonso Cruz. Disso mesmo teve noção desde muito cedo o autor, que, quando era criança, optava sempre por ir para a escola de autocarro em vez do metro, porque assim "podia passar mais tempo a ler".

Nestas pequenas histórias biográficas ou autobiográficas cruzamo-nos amiúde com nomes familiares. Como Franz Kafka, que, certa vez, encontrou num parque uma criança desolada por ter perdido a sua boneca favorita. Para consolá-la, apesar do estado adoentando em que já se encontrava, resolveu escrever-lhe diariamente uma carta nas semanas seguintes, fingindo ser a boneca perdida e, deste modo, dar-lhe um destino que pudesse aliviar o sofrimento da pequena dona.

O poder das histórias atravessa muitas outras das narrativas incluídas no volume. Algumas das quais suscetíveis até de mudarem vidas. Que o diga Afonso Cruz, cujo livro "O pintor debaixo do lava-loiças" ajudou um jornalista colombiano - que, como grande apreciador desta obra, a recomendava a muita gente - a encontrar a sua futura esposa.

Mas os livros oferecem também a possibilidade da mudança, ao representarem "uma possibilidade de convalescência, de pacificação e entendimento, de aproximação social e reconstrução". Na martirizada Bagdade, notícia nos media ocidentais unicamente quando ocorrem atentados ou demais tragédias, a feira do livro local atrai em média mais visitantes do que na generalidade dos grandes certames do género em qualquer outra parte do mundo.

Como conta Afonso Cruz num dos capítulos, a literatura tem servido para "reverberar a vergonhosa desumanidade da guerra", expurgando medos e males com um apego incomum.

PUB

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG