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Um livro sobre o esvaziamento progressivo da memória

Um livro sobre o esvaziamento progressivo da memória

Ternura e mágoa perante a velhice e a doença de Alzheimer na nova edição de "Rugas", o primeiro livro de Paco Roca traduzido em português

Primeiro livro do autor espanhol Paco Roca editado em português, em 2013, "Rugas" é um daqueles títulos que devia estar sempre disponível, não só pela sua qualidade intrínseca, mas também pela perenidade do tema, pelo que se saúda a sua reedição com a chancela da Levoir.

A história, súmula de episódios reais, começa quando Emílio é colocado num lar pela família, devido ao inexorável avanço da doença de Alzheimer. Na linha clara característica de Roca, num registo entre o terno, o divertido e o revoltado, narra não só episódios caricatos daqueles que aos poucos vão perdendo a noção da realidade e vendo as suas memórias desvanecerem-se, mas também a forma rude e pouco humana como quem padece desta doença neurodegenerativa é tratado pela família e/ou nos lares que, tantas vezes, são frios e inóspitos, quase sempre impessoais, com o tempo preenchido com rotinas vazias, uma autêntica antecâmara da morte, onde não há direitos, apenas deveres.

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Se a leitura de "Rugas" acaba por provocar, pelo menos, sorrisos bem-dispostos, também causa alguns calafrios, se lidamos regularmente com situações do género ou se anteciparmos que um dia poderemos ser nós os protagonistas das doenças, cismas, falta de memória ou perda da noção do tempo, tudo sequelas do avanço do tempo, que passa por cada um de forma diferente. Por isso, no lar onde o filho depositou Emílio, ele vai conhecer Juan, ex-locutor de rádio que só repete o que os outros dizem; Sol, sempre à procura de um telefone para ligar à filha; Rosário, permanentemente em viagem no Expresso do Oriente; Dolores e Modesto, casal amoroso que tenta manter a relação e resistir ao inevitável; e Miguel, de uma alegria contagiante, de uma rebeldia militante, que tenta fazer da(quela) vida algo que (ainda) vale a pena.

Entre os quotidianos vazios, a repetição de situações, as perdas momentâneas de noção da realidade - que podem tornar tão dolorosos os períodos de lucidez -, o apagamento progressivo da memória ou o vazio de uma espera por um fim anunciado, Paco Roca, com uma imensa ternura - que toca mas também choca - vai mostrando a progressão da doença, cujo artifício gráfico das últimas páginas ou a própria capa retratam admiravelmente.

Rugas
Paco Roca
Levoir

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