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Um país embalado pelos seus mitos

Um país embalado pelos seus mitos

O passado e o presente estão em contacto permanente no livro "Viagem pelos sete pecados da colonização portuguesa", uma reportagem escrita pelo jornalista Henrik Brandão Jönsson que coloca em xeque alguns dos mitos mais persistentes do imaginário lusitano, a começar pela suposta brandura ultramarina.

Ao longo de mais de um ano, o jornalista sueco Henrik Brandão Jönsson viajou por sete países da lusofonia. Não para escrever mais um livro laudatório da gastronomia portuguesa, das deslumbrantes paisagens moçambicanas ou da calorosa vibração humana que o Brasil proporciona.

Correspondente no Brasil do jornal sueco "Dagens Nyheter", o repórter procurou inicialmente explorar as improváveis afinidades entre povos separados por muitos milhares de quilómetros, mas unidos pela estreita ligação histórica a um dos países menos desenvolvidos da Europa.

Ao mergulhar na realidade própria de Goa, Moçambique, Cabo Verde, Angola, Timor Leste, Brasil e Portugal, Brandão Jönsson fez um reajuste significativo no plano inicial, apercebendo-se de que em cada um dos países lusófonos sobressaía um determinado pecado mortal. É deste modo que discorre sobre a ira angolana, a soberba timorense ou a preguiça brasileira, mas relacionando-as sempre com o peso da herança colonial, cujos efeitos se prolongam até ao presente.

Sem mordaças ou formulações inquinadas, Jönsson opera uma leitura crítica do passado ultramarino, mas sobretudo coloca em causa a persistência de mitos. O mais duradouro de todos assegura que os portugueses eram colonos mais brandos do que os restantes, embora em nenhum outro momento da História como nos Descobrimentos a escravatura tenha assumido proporções tão avassaladoras (calcula-se que mais de 12 milhões de africanos tenham sido raptados e transportados para o Brasil, número 25 vezes superior ao que aconteceu nos Estados Unidos da América, por exemplo).

O capítulo decisivo do livro é porventura o último, dedicado a Portugal e à inveja. Por muitos danos que tal possa causar no suposto orgulho pátrio, é difícil não concordarmos com o retrato impiedoso de um país "encravado entre a mania das grandezas e os complexos de inferioridade" que insiste "em glorificar o seu passado colonial".

Uma atitude que ficou à vista de todos quando, em 2017, Marcelo Rebelo de Sousa visitou, no Senegal, um dos maiores entrepostos do tráfico de escravos no século XVII e, em vez de expressar um pedido de desculpas simbólico, como o fizeram os líderes de outros países, relembrou que Portugal foi a primeira potência colonial a abolir a escravatura.

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