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Um sítio muito mal frequentado

Um sítio muito mal frequentado

No seu novo livro, "Chatear o Camões", João Pedro George assina um retrato demolidor do meio cultural e da sua intrincada rede de interesse. Em mais de meio milhar de páginas, os males do setor (ou, pelo menos, alguns deles) são abordados de forma desassombrada.

O silêncio (quase) generalizado que tem rodeado o novo livro de João Pedro George é bem a prova do grau de incómodo que este "inquérito à vida cultural portuguesa" provocou junto dos visados. A língua portuguesa, na sua infinita variedade, plasmou, aliás, essa atitude tão dominante com uma série de expressões notáveis, das quais "assobiar para o lado" ou "fazer-se de morto" são apenas algumas das possibilidades.

Na prática, isso significa que, quando algo ou alguém se vê beliscado, opta por uma das seguintes atitudes: invoca uma cabala, acusando tudo o que mexe de uma conspiração contra a sua pessoa, ou "ignora o elefante na sala" (outra expressão deliciosa) à espera que mais ninguém repare. Já a atitude mais lúcida - ou seja, desmontar as acusações com provas irrefutáveis - raras vezes é utilizada. Talvez porque dê demasiado trabalho.

E, todavia, num país que estimulasse o debate crítico, a livre circulação de ideias contrárias, o combate no sentido mais intelectual do termo, o ensaio de George seria amplamente analisado. E até, quem sabe, rebatido, caso houvesse demonstrações sólidas de falhas, contradições ou equívocos nele contidos. Assim sendo, o ar de sobranceria dos mencionados figurões, ao remeterem-se a um constrangido silêncio, dá apenas azo a que se alimente todo o género de especulações com as suspeitas e dúvidas que encontramos no livro.

O que o autor de "Não é fácil dizer bem" faz neste exaustivo estudo não é coisa de somenos: com método e desassombro (e muita paciência também, reconheça-se), expõe a intrincada rede de favorecimentos e amiguismos de algumas castas que gravitam em torno da cultura, apoderando-se de verbas públicas que se limitam a girar "ad eternum" num circuito tão fechado quanto autista.

Como escreve João Pedro George, "a importância das redes de relações sociais" assume uma importância tal que "a qualidade do trabalho é apreciada em função desses sinais ou marcas de notoriedade do autor".

Há personagens particularmente visadas nestes textos (António Mega Ferreira, antes de mais, e também João Paulo Cotrim, João Soares ou Catarina Vaz Pinto). Contudo, bem mais útil do que apontar este ou aquele nome, é reconhecer a conivência de quem gere dinheiros públicos, ao alimentar clientelismos que tendem a perpetuar-se.

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