Artes plásticas

Uma "cartografia poética do corpo" para ver em Serralves

Uma "cartografia poética do corpo" para ver em Serralves

Vera Mota apresenta exposição em Serralves que "transita entre o desenho e a escultura". Inauguração é nesta sexta-feira.



A artista Vera Mota mostra a exposição "Sem corpo/Disembodied", a partir desta sexta-feira, no Museu de Serralves. É constituída por 17 "desenhos duplos" e uma "cabeça sem corpo". Estará em exposição até 14 de maio de 2023.

Inês Grosso, a curadora-chefe da Fundação de Serralves, considera os seus desenhos uma "cartografia poética do corpo humano".

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Filipa Loureiro, curadora da exposição, destaca o facto de vermos "no museu uma presença predominante da mulher", em que a artista se junta da "melhor maneira" a Cindy Sherman e Paula Rego.

De acordo com a curadora, foi uma exposição concebida no último ano e "transita entre o desenho e a escultura", considerando que estão expostos 17 desenhos e uma escultura designada "cabeça sem corpo".

A artista Vera Mota confessa ser "um grande prazer" apresentar esta exposição e que a mesma "foi saindo das mãos, da cabeça, tocando todos estes eixos de posição".

Está muito presente a reflexão sobre o corpo, mais especificamente entre as mãos e a cabeça. O título ("Sem corpo/Disembodied"), que apresenta a tradução em português, foi inicialmente pensado em inglês e remete para um processo de "desencarnar e desincorporar" do corpo, algo que sai do mesmo.

Um exercício do corpo e das mãos

Em visita ao espaço da mostra, é possível ver estes 17 desenhos em folha dupla, possibilitando interpretar dos dois lados. Os mesmos demonstram ser muito semelhantes entre si, contudo são acompanhados de uma progressão do trabalho das mãos da artista: "Embora eu tente replicar o mesmo gesto, há um embate permanente entre eu tentar ajustar o meu gesto àquilo que o material permite fazer", acrescenta Vera Mota.

Vera revela ter pintado com as mãos, evitando "o utensilio entre a mão e o suporte", diz. Em todos os desenhos, é possível entender que o que está a negro é a marca que a mão deixa e o que está à volta é uma espécie de mancha, que é vista como uma "consequência das características físicas do material, que ao ser absorvido pelo papel se vai expandido", acrescenta a artista.

Este material é a tinta de óleo, que trespassa a gordura para o papel e é uma das razões para Vera Mota ter utilizado folha dupla. Mas não foi só essa a razão. Ao continuarmos a percorrer a mostra, é possível vermos quatro dos desenhos expostos à luz, dando outra perceção do que se está a ver, assumindo automaticamente a relação com a transparência.

E qual o objetivo por detrás destes desenhos? "Há uma tentativa de condicionar o corpo, uma espécie de exercício muito repetitivo, tornar o corpo quase operário", refere a artista, ao mesmo tempo que destaca os materiais, que ganham quase vida própria e dizem como "devem ser usados" .

No ponto de vista do público, o mesmo poderá encontrar semelhanças com estruturas do próprio corpo, como a coluna vertebral e a traqueia, mas, ao mesmo tempo, também é possível aproximar de "estruturas da botânica, da astrologia, dos insetos, dos seres que vivem no fundo do mar", afirma Vera Mota.

A curadora acrescenta que a exposição convida à "interpelação do corpo" e confronta o espetador com as "escalas do desenho e também da escultura".

A "cabeça sem corpo"

Continuando a visita e percorrendo-se os desenhos, chega-se, por fim, à escultura de bronze, que a artista pretende que seja uma cabeça, mas já não tem a certeza se o é: "Desfigurámo-la e simplificámo-la de tal forma, que quase ela deixou de ser uma cabeça, mas mais um objeto".

A curadora, Filipa Loureiro, acrescenta que "estamos perante um monólito", que suscita várias interpretações. Pretendem que o espectador perceba o que a cabeça "convoca nos tempos presentes" e de que forma está relacionada com o corpo.

Esta relação com o corpo está presente no título da escultura: "Cabeça sem corpo". Vera Mota questiona: "Uma cabeça que não pertence a um corpo será ainda ela uma cabeça?". E esse o grande ponto de partida para toda a análise, considerando que poderá existir uma "cabeça da cabeceira, da cama, do corpo humano" e todas elas fazem parte de um corpo, em que costumam "estar no topo" do mesmo.

A que está exposta já não: "é uma cabeça decepada que não tem corpo e repousa sobre o chão", acrescenta a artista, que também destaca que o peso da escultura torna-se também por si importante, porque esmaga a cabeça contra o chão, não tendo o apoio do corpo.

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