Teatro

Uma nova geração toma conta dos palcos de Guimarães

Uma nova geração toma conta dos palcos de Guimarães

Os Festivais Gil Vicente, em Guimarães, arrancam com uma proposta para uma nova ordem mundial.

A 34ª edição do evento decorre a partir de quinta-feira, dia 2, e prolonga-se até 11 de junho. Em 2022, é reforçada a aposta em criadores mais jovens como Diogo Freitas, Sara Inês Gigante, Sofia Santos Silva, Victor Oliveira, Catarina Rôlo Salgeiro e Leonor Buescu. Paralelamente ao festival, decorrem workshops e jornadas de teatro procurando reforçar a ideia de "comunidade de criação" e a interação com o curso de Teatro da Universidade do Minho.

Esta reconfiguração dos Festivais Gil Vicente no sentido de mostrar novos talentos começou a tomar forma em 2021, na primeira edição depois da paragem forçada pela pandemia. "O objetivo é permitir que novas vozes possam emergir. Dar o palco a quem tem talento e tem dificuldade de o conquistar", avança Rui Torrinha, diretor artístico dos Festivais. Diogo Freitas (n. 1996), com "Tratado, a Constituição Universal", em estreia, tem honras de abertura, na quinta-feira, às 21h30, no Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor (CCVF). A peça questiona o estado da democracia e a sua relação com a tecnologia e com outros regimes políticos.

"Todos os elementos desta equipa nasceram nos anos noventa", esclarece Diogo Freitas, sobre este olhar. Trata-se do terceiro espetáculo do ciclo "A Democracia e os Filhos dos anos 90", segue-se a "Democracy as been detected" (2020) e a "Como Perder um País" (2021). No primeiro, uma forma de inteligência artificial toma conta do Parlamento, no segundo, há um "big brother" para os políticos poderem ser observados em ação pela população, antes de serem eleitos. "Mas os textos são independentes e vivem por si", explica Diogo Freitas. "Neste terceiro espetáculo, os países são abolidos e são criados Estados governados por diferentes sistemas políticos. A cada cinco anos há uma votação e as pessoas podem escolher em que sistema político querem viver", adianta jovem encenador famalicense. A nova ordem vai abolir as nacionalidades e as migrações, a família também passa a ser uma categoria obsoleta, mas, como em tudo o que é humano, geram-se tenções, quando o Grande Estado Conservador proíbe os seus cidadãos de comparecerem ao Dia Internacional do Voto.

Os Festivais prosseguem na sexta-feira, dia 3, com "Massa Mãe", de Sara Inês Gigante, também em estreia. A atora e encenadora, revê as tradições da aldeia da sua infância - Outeiro, em Viana do Castelo -, num conflito entre a sensação de pertença e o olhar crítico para uma cultura "patriarcal e com muitos traços machistas". Rui Torrinha diz sobre este espetáculo que pode "ajudar a definir a identidade minhota".

No domingo, dia 4, Victor Oliveira, um mestiço, nascido em Moçambique, que passou a adolescência em Portugal e que agora vive em Paris, apresenta Limbo. É uma reflexão intimista sobre o racismo, partindo da experiência do próprio autor.

A segunda semana

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Os Festivais Gil Vicente continuam na quinta-feira, dia 9, com "O Desprezo", do coletivo auéééu. Um trabalho inspirado pelos filmes "Le mépris" e "Weekend", de Jean-Luc Godard. É

um convite para pensar sobre o sentimento de desprezo e, eventualmente, sobre a caixa de pandora que essa incapacidade de reconhecer no outro um ser semelhante abre.

Na sexta-feira, dia 10, há oportunidade de conhecer o espetáculo vencedor da 4ª Bolsa Amélia Rey Colaço, "Another Rose", de Sofia Santos Silva, numa colaboração com Gulabi Gang, um grupo ativista sediado em Uttar Pradesh, no norte da Índia. Volta o tema da sociedade patriarcal e da violência sistémica sobre as mulheres. O espetáculo é um encontro à distância com estas mulheres que cantam os seus ideais de mudança e mostram os passos de uma irmandade que se unifica pela transformação.

"Ainda Marianas", de Catarina Rôlo Salgueiro e Leonor Buescu encerra os Festivais Gil Vicente 2022, no sábado, dia 11. O mote é o livro "Novas Cartas Portuguesas, publicado, em 1972, por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. É um chamamento para uma reflexão sobre a memória coletiva relativamente a uma obra fundadora do feminismo em Portugal, no momento em que faz 50 anos.

A acontecer para além dos palcos

Em paralelo à ação nos palcos, acontecem workshops e jornadas de teatro, "dedicados a jovens estudantes de teatro, reforçando um ecossistema de criação com o curso de Teatro da Universidade do Minho", sublinha Rui Torrinha. Entre 6 e 9 de junho, o Espaço Oficina continua a dar corpo a esta "missão", com o ciclo "Depois do Fim". Beatriz Batarda vai falar com jovens artistas sobre temas tão práticos como: abrir atividade junto da Autoridade Tributária, registar a propriedade intelectual, apresentação de projetos para coprodução ou o funcionamento das agências.

Os Festivais Gil Vicente decorrem entre as duas salas do CCVF, o Pequeno Auditório e o Grande Auditório (agora batizado, Auditório Francisca Abreu) e a Blak Box do Centro Internacional de Artes José de Guimarães. Os bilhetes para cada espetáculo custam 7,5 euros, 5 euros para menores de 30 anos, reformados, maiores de 65 anos e pessoas com deficiência e o seu acompanhante. Os possuidores do Cartão Quadrilátero só pagam 3,5 euros. Há passes para três espetáculos a 15 euros e o livre trânsito custa 30 euros.

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