Entrevista

Valter Hugo Mãe: "Não gostaria de viver um livro meu"

Valter Hugo Mãe: "Não gostaria de viver um livro meu"

O novo romance de Valter Hugo Mãe, "Homens imprudentemente poéticos", é lançado no domingo na Casa da Música e chega segunda-feira às livrarias.

Ambientado no Japão, o livro pode ser entendido como uma parábola sobre a vida e a forma como nos relacionamos com o outro. Fala sobre a inimizade de dois artesãos japoneses mas também fala de amor incondicional. Um livro atravessado por uma floresta suicida, pela miséria e por uma aldeia onde um quimono adeja ao vento.

Este romance pareceu-me um tanto sombrio. Concorda?

Não tenho essa ideia. Os meus livros são sombrios no sentido em que não sei escrever sem deitar mão da tragédia. Eu vejo este livro como meditado, aprofundado. É uma tragédia que parece que implode. Que vai promovendo uma explosão e que, o que acontece, é uma dinâmica contrária em que as personagens parecem progredir para se confinarem. O que elas fazem tem mais a ver com uma interioridade do que com uma expansão.

Neste "Homens imprudentemente poéticos" há cenas violentas. Um dos personagens fura os próprios olhos. Porquê o fascínio pelo extremo?

Sim. Há uma fisicalidade. Acho que tenho isso. Eu não posso ver sangue no meu quotidiano. Não gostaria de viver um livro meu. Mas, na ficção, tenho essa necessidade de tornar as coisas garridas. Até um pouco extremas, no sentido de criar uma demasia. As coisas pendem para um certo exagero. Como se utilizasse a caricatura. Vou acentuando traços, elementos.

Cada vez mais a sua forma de escrita surpreende. Há palavras que parecem deturpadas mas que funcionam como tal. Reinventa expressões...

É muito importante para mim o lado poético da linguagem. Escrever um romance como se pudesse, não exatamente ser um poema, mas manter a poeticidade em cada frase. Disciplinar cada frase para que ela me forneça a sua maior beleza, ainda que possa discursar sobre o grotesco, ou sobre a dificuldade, ou sobre o medo. Quero que o discurso seja feito na maior beleza possível.

O seu romance anterior tinha a Islândia como cenário. Neste é o Japão. Porquê esta escolha?

Esta era uma das hipóteses de há muito tempo. O Japão é o fascínio português de sempre. Desde há séculos que Portugal tem esse destino de se apaixonar pelos antípodas nipónicos. E eu sempre encarei a possibilidade de escrever um livro ambientado naquela ilha. Quando termino um determinado romance fico disponível para escolher o caminho do seguinte. E as hipóteses estão diante de mim, como procurando seduzir-me. Acho que tenho uma certa coleção de romances possíveis. E então, quando termino um, os romances possíveis comparecem à ideia e estão como que à espera de uma vez. De uma atenção. Depois da Islândia eu pensei que seguir para um universo tão distinto como o do Japão, e, ao mesmo tempo, manter-me numa ilha, era muito aliciante.

E foi?

Foi interessante viajar dos fiordes do oeste islandês para Quioto. Foi uma estranheza que me redobrou os sentidos. Porque dentro do texto, eu enquanto autor, passava como alguém de sentidos apurados. Como se, através das palavras, estivesse efetivamente observando um mundo distinto.

Fala numa floresta dos suicidas que, ao que sei, existe mesmo. O que o fascinou no tema para o introduzir no livro e fazer dele quase um assunto central?

A floresta existe no sopé do monte Fuji. A partir de meados do século XX tornou-se comum que as pessoas entrem na orla da floresta atando uns cordéis às árvores. Entram por um labirinto para meditarem acerca da decisão de morrerem. Muitos regressam, outros não. E aquele lugar acaba por ser conhecido pela floresta dos suicidas. No Japão, é claro que o suicídio não é incentivado, mas, historicamente, o suicídio tem uma componente honorável. É como se fosse uma questão de maturação de uma ideia. Um gesto maduro, ao contrário de um gesto de desespero como nós europeus o vemos.

Há algo fulcral no romance. Não é uma personagem mas tem impacto semelhante. Um quimono...

Exatamente. O quimono da senhora Fuyu. Isto acontece porque eu gosto muito de trabalhar as presenças ausentes. Gosto dessa dimensão algo fantasmagórica de algumas personagens, que são intuídas a partir de elementos, mais do que pela presença física ou pela ação delas mesmas. E a senhora Fuyu acaba por atravessar o romance inteiro, não porque participe nele, mas porque o seu quimono é pendurado todos os dias num certo espantalho para ficcionar a presença dela. A mim, enternece-me a ideia de que o seu marido viúvo, o oleiro Sabu, possa todos os dias escolher aquela pequena ilusão de que a sua esposa ainda o observa enquanto ele modela o barro ou cultiva flores.

O romance conta a história de dois vizinhos que se odeiam. Mas no final há um certo sentido de redenção. Está de acordo?

Creio que sim. Sinto isso. No meio daquela inimizade talvez eles aceitem um pouco o destino e aceitem o convívio. Talvez até pela contingência de serem vizinhos, talvez pela contingência de lhes calhar não conviver com mais ninguém. Gosto dessa ideia de as pessoas, ainda que antagónicas, acabem por conquistar a capacidade de convívio.

Está a fazer 20 anos de vida literária. O Valter desdobra-se um mil e uma coisas. É vocalista da banda Governo, escreve poesia, escreve para crianças, foi autor de fanzines, esteve ligado à edição. Este título "Homens imprudentemente poéticos" não é também um pouco o seu autorretrato?

Na verdade sou dramaticamente imprudente e com tendências poéticas. Acho que tenho pouca paciência para a limitação da vida. A vida limita-nos em muitos aspetos. Somos limitados por todos os motivos. Cada dia nos impõe a necessidade de uma conquista qualquer. Nem que seja motivação para nos levantarmos, para estarmos minimamente saudáveis da cabeça, para o encontro com os outros. E nada é adquirido. Tudo é de facto um pressuposto do esforço. E tenho isso muito claro para mim. Que a vida tem que ver com querer, com vontade e com essa motivação para sermos o que nos aprouver ser.

Nestes 20 anos como olha para tudo o que lhe foi acontecendo?

Estes 20 anos são uma surpresa como talvez a vida de toda a gente seja. Talvez nos encontremos sempre num lugar relativamente improvável. Somos versões improváveis do que éramos. Somos, a cada passo, a versão improvável de nós mesmos. E eu não esperaria ou não poderia preparar-me para o sentido em que as coisas acabaram por acontecer. Até porque, eventualmente, o que de fundamental acontece surge de forma espontânea. Subitamente, a vida parece que dá um passo por nós. E, por isso, o modo como vejo o tempo que decorre desde a apresentação do meu primeiro livro tem a ver sobretudo com a surpresa. Sinto-me surpreendido e admirado com quem posso ser hoje.

Como olha para estas homenagens que lhe fazem?

Devíamos celebrar os autores. Normalmente celebramos quando eles estão muito velhos ou morrem. Eu ainda sou mais ou menos jovem e nem sequer estou muito gordo. Estou só um bocadinho. Mas fico muito grato que exista quem possa querer celebrar este tempo, este percurso, celebrar estes livros. Fico muito grato que o público apareça, que o público acompanhe, leia os livros. Mas tenho pena que de facto se crie uma convicção de que a literatura não permite convívio. Não permite a proximidade. Como se os autores precisassem de ser manifestamente austeros, enclausurados, esquisitos socialmente. Penso que no fundo toda a gente é esquisita. Não conheço ninguém que seja propriamente mais normal do que eu, no sentido em que as pessoas que conheço são bem capazes de fazerem coisas ainda mais bizarras das que eu possa fazer. E eu, até por gratidão, tenho alguma propensão para o encontro com o público, para o encontro com as pessoas.

Isso reflete-se também na sua interação com redes sociais. Tem tempo para isso tudo?

Não tenho. Mas vou respondendo. Há sempre um momento de insónia ou de descontração em que penso ser oportuno dar alguma satisfação às pessoas que têm o cuidado de me seguir, que têm o cuidado de me perguntar algo. Isso significa que estão interessados em alguma coisa que tem a ver comigo. Em alguns momentos, o Facebook é muito especial. O que as pessoas me dizem, o que me contam, a reação que têm com os meus livros. Acho estranho que alguém que faça determinado tipo de trabalho, que inevitavelmente seja para um público, não queira saber qual o efeito que isso tem, não queira comentar. Acho até mal-educado. Por isso, quando alguém me aborda pela impressão que os meus livros lhe causaram, eu fico sobretudo grato. Todos sabemos o que implica pararmos a sobrevivência do dia-a-dia, conseguirmos gerir isso ao ponto de nos permitirmos reservar horas, às vezes por vários dias, para ler um livro. Por isso, alguém que o faça por um livro meu merece o meu respeito. E, de alguma forma, merece a minha atenção.

Tem lançado sobretudo romances. E a poesia em que pé é e que está?

A poesia está disseminada pelos romances. Foi confiscada por eles. Os romances são de tal maneira violentos na minha vida, tornaram-se tão importantes no meu quotidiano, que confiscaram a poesia. Por isso, ela existe, continua a fazer muito sentido na minha vida - talvez seja mesmo o eixo fundamental da minha consciência literária -, mas vai misturada com as personagens, com os enredos e com o aparato da ficção.

E como tem gerido, no meio disto tudo, a sua banda, a "Governo"?

A banda está muito "geringonçada". Foi o primeiro governo "geringonça" do país. Mas vai funcionando. Os meus colegas têm muita vontade de prosseguir. Estamos a alterar algumas canções para que sejam menos agudas, porque a minha voz está mais grave.

Mais "grave e sério", como no verso de Camões?

Mais grave e velho. Já não tenho a voz de rouxinol dos meus 19 anos. Mas estamos a fazer uns ensaios. Temos muitas canções novas. Dá-me sempre vontade de mudar as coisas todas, de fazer outras letras, porque fico muito farto das minhas. Gosto das canções mas não gosto de estar sempre a cantar a mesma coisa. Gostava de ter letras novas para cada dia, para cada ensaio. Seria interessante que alguém tivesse a paciência de escrever letras todos os dias.

O Valter é cada vez mais conhecido, aparece muito na comunicação social. O relacionamento nas Caxinas tem acompanhado esse mediatismo?

Nas Caxinas estou sossegado. As pessoas não me ligam nenhuma desde sempre. Acho que gostam de mim, mas gostam sem me ligarem nenhuma. Aliás, esta é uma das formas mais interessante de gostarmos de alguém, que é deixarmos a pessoa em paz. Ando para lá de um lado para o outro. Sinto-me tão invisível nas Caxinas que nem me penteio quando vou para a rua. Posso sair de pijama que ninguém vai reparar. E isso é muito confortável. Para alguém que pode ter alguma visibilidade, viver num lugar onde não sente o peso dos olhares, não sente o peso do juízo, não é policiado, é um privilégio. Então, eu adoro as Caxinas. Adoro o facto de não se importarem muito comigo.

Portanto, também nem repararam que agora usa barba?

Se calhar não repararam que sou eu. Devem pensar: "quem é este velhinho com uma barba grisalha, tão fofinho?" Devem achar que sou giro mas não percebem de facto que sou o Valter. Há pessoas que ainda não estão habituadas a este visual e que, quando as cumprimento, não me reconhecem. Tenho de lhes dizer quem sou.

Têm-lhe dito que a barba lhe fica bem?

Exatamente por isso. As pessoas estavam habituadas a que eu fosse feio. Não estão preparadas para a minha beleza de agora. Estou há dois anos e tal com esta barba e nunca mais a tiro. Foi a melhor coisa que me aconteceu. Se eu soubesse que ter barba criava esta imagem, teria barba desde os meus 16 anos. Tinha-me poupado a todos os traumas da adolescência. Tenho um ódio às 'gilettes' que me enganaram a vida toda. Pensava eu que estava a fazer uma grande coisa cortando a barba e, de repente, tenho assim uma certa síndrome de George Cloney. Sou aquele tipo de homem que em velho fica lindo. O que é bom. É ótimo. Mais vale ser lindo em velho do que nunca mais ser. Então, agora, eis que chegou a minha vez.

O visual deu-lhe outro estatuto, é isso?

Tem sido uma coisa incrível a reação das pessoas. Sinto inclusive algum efeito nas coisas mais pragmáticas. Por exemplo, entro numa loja e agora mostram-me as coisas boas. Antigamente qualquer zurrapa servia para me mostrarem. Hoje não. Mostram-me logo as coisas boas.

Falando em dinheiro. Vive-se bem da escrita?

Não. Mas eu tenho a sorte de viver e de não ser mau. Mas isso também acontece porque não me sujeitei a uma mudança drástica de hábitos. Não compro carros, por exemplo, não mudei de restaurantes. Os restaurantes onde vou são, provavelmente, os mesmos a que ia quando tinha 23 anos e os meus pais me davam 10 euros para gastar em quatro dias. Por isso, sou mais ou menos disciplinado. E um felizardo. Diria até que sou um privilegiado no sentido em que posso viver dos direitos de autor. Sei que num país pequeno como o nosso, em que fazer sucesso diz respeito a quantidades muito circunscritas, chegar-se um pouco ao estado em que estou é absolutamente gratificante.

20 ANOS DE EDIÇÕES

Para celebrar os 20 anos de livros de Valter Hugo Mãe, a Porto Editora preparou dois grandes eventos. As iniciativas, que duram todo o dia, acontecem no Porto e em Lisboa. Domingo, véspera da publicação do livro, a Casa da Música, no Porto, recebe o primeiro evento, que contará com a participação de figuras como Teresa Salgueiro, Ana Deus ou Adolfo Luxúria Canibal, para além de diversos académicos de diferentes proveniências e ainda de momentos dedicados às crianças. A 8 do mesmo mês, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, o evento, que tem contornos semelhantes aos da iniciativa do Porto, contará com nomes como Márcia, Ana Bacalhau ou Pedro Lamares.

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