Artes/Etc

Viajar no tempo do Mapa Emocional de Miraflor

Viajar no tempo do Mapa Emocional de Miraflor

Há cinco anos, um projeto cultural foi mudando de mansinho uma rua esquecida de Campanhã, no Porto. E, desde este fim de semana, é possível percorrer o Mapa Emocional dessa rua numa plataforma online construída pela voz e pela memória de quem lá vive.

É a rua de Miraflor e o projeto, que demorou nove meses a ver a luz, nasceu da vontade e da persistência de um casal que já faz parte do ADN da zona oriental da cidade: Manuela Matos Monteiro e João Lafuente, os fundadores das Galerias Mira.

Há cinco anos, instalaram-se num par de armazéns devolutos na Rua de Miraflor, assim chamada "por erro de escrivão", de acordo com Manuela. A responsável pelo projeto cultural Mira - agora, com três tentáculos: Espaço Mira, Mira Fórum e Mira Artes Performativas -, nota que este é apenas um pormenor do caráter singular desta rua. "Quando chegámos, era uma rua invisível", lembrou a galerista, na apresentação do Mapa Emocional.

Quando Manuela Matos Monteiro e João Lafuente vasculharam arquivos para saber mais sobre o passado da rua, verificaram que "não havia praticamente nada". Decidiram que a história de Miraflor tinha que ser posta na voz de quem melhor a conhecia - os moradores. "Primeiro, diziam-nos que não se lembravam de nada", recorda. Assim que a conversa começava, as memórias jorravam.

Ao longo de nove meses, recolheram testemunhos de 17 moradores, processo a que se juntou Nacho Muñoz, músico e artista sonoro galego que tinha já trabalhado num mapa emocional da sua cidade, Santiago de Compostela. Para contar a História e as histórias de Miraflor, o mapa foi dividido em três partes: antes, agora e por vir. "Não há saudosismo", mas há um passado rico para ouvir.

"O Soho do Porto"

Cristina Marinho herdou do pai a mercearia da rua e recorda que, quando era criança, aquela zona era cheia de movimento. Quando era altura de ir ali, havia a "maior alegria" lá em casa. "Era chique vir ao Freixo", diz. Já Américo Almeida Blanquet lembra os carros de bois da sua infância, que "carregavam os sacos de feijões vindos da estação". Os que caíam eram apanhados pelos meninos da rua.

O futuro é de esperança e de uma "expectativa que não pode ser defraudada", nota Manuela. No mapa, disponível numa plataforma online e através de uma aplicação, os moradores imaginam aquilo que Miraflor poderá vir a ser. André Henriques, designer e fotógrafo e um dos mais recentes habitantes da rua, diz que o bairro será um dia "o Soho do Porto", comparando o seu potencial aos centros culturais de outras cidades europeias. Rosa Meireles, dona da Adega A Viela, tem "uma fé viva de que vai ser" o centro da cidade.

O trabalho desenvolvido com o projeto não termina aqui, diz a responsável. A ideia é "continuar a recolha de depoimentos e alargar o mapa às áreas limítrofes", como o Freixo. Para já, ficam as "relações próximas e afetivas" aprofundadas por um trabalho que invoca a "ideia de pertença" e o bairrismo que habitam a zona oriental da cidade.

Outras Notícias