Cultura

Vida de paixão pelo vinil

Vida de paixão pelo vinil

A Fábrica Portuguesa de Discos da Rádio Triunfo, em S. Mamede de Infesta, foi a primeira do género a laborar em Portugal. Funcionou entre 1947 e 1986. O encarregado técnico de manutenção, Joaquim Alves de Sousa, esteve lá do primeiro ao último dia.

"Não conheço quem tenha vivido uma experiência semelhante. Assisti à construção da casa onde ficou a fábrica, em 1946 e, quase 60 anos mais tarde, estava lá quando procederam à sua demolição. Foi difícil assistir àquilo. Ninguém imagina o que sofri", comenta, emocionado, Joaquim Sousa.

A Segunda Guerra Mundial tinha terminado no ano anterior. Na altura, o empresário Rogério Leal, proprietário da editora discográfica Rádio Triunfo (em tempos, também, administrador da RTP), chegou à conclusão de que o país podia conceber os seus discos, deixando de estar dependente das importações.

Assim nasceria a Fábrica Portuguesa de Discos, que ficaria instalada em São Mamede de Infesta, na Travessa Central do Seixo, numa casa construída de raiz para o efeito.

"Foi comprada toda a maquinaria no estrangeiro e em pouco tempo estávamos a produzir os primeiros exemplares em 78 rotações", lembra Joaquim Sousa."História da Baratinha ", uma gravação brasileira, foi o disco que marcou o arranque da produção desta nova unidade.

Mas as rodelas em 78 rotações (composto de pó de ardósia, goma de laca e negro de fumo) tinham os dias contados com o advento do vinil. No início dos anos 50, depois de adquirir novas máquinas, a Fábrica Portuguesa de Discos começou a colocar no mercado os 45 rotações (o primeiro a sair tinha a voz de João Villaret) e pouco mais tarde os LP (long play). "Sabe que só dois ou três anos depois é que a Valentim de Carvalho começou também a produzir discos. Mas enviou técnicos à nossa fábrica para observar como é que tudo se procedia", lembra o encarregado.

Advento do CD pôs fim à fábrica

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Inicialmente, os discos que sairam da unidade matosinhense traziam canções de artistas portugueses. Mas em poucos anos ovinil surgia com músicos de praticamente todo o mundo, à venda nas principais lojas do país.

A década de 70 marcou o seu pico produtivo. "Tínhamos como meta chegar ao milhão de discos por ano e estivemos lá muito perto", garante Joaquim Sousa."Perdi a conta aos milhões que me passaram pelas mãos ao longo de tantos anos".

Em 1982, o proprietário e fundador Rogério Leal faleceu e a fábrica foi adquirida por Arnaldo Trindade e José Marques Serafim.Mas com a entrada da nova década, a venda massiva dos discos em vinil chegava ao fim, como reflexo do surgimento do pequeno compact disc, que oferecia boa qualidade de som para ser escutado em aparelhos de baixo custo e até no automóvel. Num espaço de um, dois anos, os exemplares em vinil foram pura e simplesmente varridos das prateleiras das lojas de discos para dar lugar aos CD.

Foi assim que, a 14 de Março de 1986, a Fábrica Portuguesa de Discos viu-se obrigada a encerrar as portas. Sem encomendas, a sua manutenção era insustentável. A casa onde funcionou ainda se manteve de pé até 2004, ano em que viria a ser demolida. Da sua existência ficam algumas fotografias e a memória de quem lá passou uma vida.

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