Cinema

Virginie Efira: "Não tenho consciência dos meus limites"

Virginie Efira: "Não tenho consciência dos meus limites"

"Sybil", já nas salas nacionais, revela-nos a nova musa do cinema francês, Virginie Efira

Em "Sybil", Virginie Efira é uma terapeuta que decide passar à escrita, mas acaba por se deixar envolver pelo caso de uma jovem atriz grávida do ator com quem contracena, dirigido por um realizadora histérica. Uma comédia dramática francesa, de Justine Triet, interpretada ainda por Adèle Exarchopoulos, Gaspard Ulliel, Sandra Huller e Niels Schneider, atual companheiro da atriz.

Na vida real, Efira é uma das musas atuais do cinema francês, em que trabalha desde que deixou o cargo de apresentadora de televisão na Bélgica natal. E está para breve o decerto escaldante "Benedetta", cuja pós-produção teve de ser adiada à espera da plena recuperação do seu realizador, Paul Verhoeven, e onde interpreta uma freira lésbica do século XVII.

Como é que se preparou para este papel, sendo Sybil uma mulher que passa por tantas experiências?

O mais importante foi ter confiança na realizadora e no seu olhar. Para algumas personagens, tenho uma ideia muito clara de quem são. Aqui não era possível, foi necessário experimentar coisas muito diversas. Não ter medo de fazer coisas que não parecessem coerentes. Era preciso alimentar-nos de muitas coisas, dar um salto no vazio e ver o que acontecia. Abandonar-me ao olhar da realizadora.

Pode falar do estádio atual da sua carreira?

Com o Paul Verhoeven tive um pequeno papel no "Ela" e agora, com o "Benedetta", foram três meses e meio de rodagem, com uma personagem verdadeiramente especial. Descobri o Paul Verhoeven com o "Instinto Fatal", e vi os filmes todos dele, mesmo os holandeses. Para mim o "Delícias Turcas" é uma obra-prima. Ao rodar com ele, senti mesmo fisicamente a sorte que tinha. Para quem, como eu, só propunham comédias românticas, percebi que envelhecer é difícil mas também pode ser maravilhoso. Este momento da minha vida e da minha carreira está a ser apaixonante.

Conhecendo o cinema de Paul Verhoeven, teve de fazer alguma cena mais ousada?

Sim, mas nada que não quisesse fazer, tratando-se do Paul Verhoeven. Se visse que era alguém sem inteligência e sem paixão pelo que faz, não o faria. Tenho uma responsabilidade, enquanto atriz, no que diz respeito às minhas escolhas, mas não tenho consciência dos meus limites. Nunca diria que não faria isto ou aquilo. Se tens confiança não balizas o terreno, a partir do momento em que estás de acordo com o que se conta.

Há alguma coisa que não faria num filme?

Interpretar uma personagem que seja moralmente duvidosa é muito interessante. Pelo contrário, quando o realizador se submete demasiado aos códigos da sociedade e é demasiado conformista, pergunto-me se tenho vontade de participar. Mas quando acreditamos nas personagens, temos de as interpretar com os sentimentos mas também com o corpo.

"Já preveni os meus pais das cenas que fiz no filme do Verhoeven"

Começou como apresentadora de televisão. Foi difícil levarem-na a sério?

Sempre quis ser comediante, mas quando entrei no conservatório tive medo. Ficava bloqueada, mesmo sendo o que sempre sonhei fazer. Passei pela televisão, mas não me queria transformar numa animadora frustrada. Depois é normal que tenha demorado algum tempo, de início propunham-me comédias, porque era conhecida graças à televisão. As coisas foram avançando lentamente. Mas quando animava um programa de televisão na Bélgica não podia imaginar que um dia teria um filme em Cannes.

Alguma vez teve na sua carreira uma realizadora tão histérica como a que vemos no filme?

A Justine, um pouco. O Paul, pelo contrário, é extremamente calmo. A Justine é fogo. Quando a conheci no "Na Cama Com Victoria" foi uma revelação para mim. Ela permite aos atores ter uma presença muito forte. Irem à procura de qualquer coisa.

Costuma vampirizar outras pessoas para alimentar as suas personagens?

Quando interpretamos um papel, é verdade que nos alimentamos de coisas que vemos nas outras pessoas e de coisas que nós próprios vivemos. A pessoa que mais vampirizo sou eu própria. No "Na Cama ComVictoria", vampirizei a Justine. Em Sybil são mais coisas de mim. Mas felizmente que não é a mesma coisa que a minha vida.

Quando interpreta com o seu companheiro na vida real isso torna o trabalho mais fácil ou mais difícil?

As duas coisas. Eu conheço-o mas tenho de pensar que não é ele, é outra pessoa. Há coisas que me embaraçam mais. Por exemplo, que os meus pais assistam à estreia dos meus filmes. Mas durante a rodagem somos poucos. É claro que nos servimos da nossa intimidade, mas o Niels dizia-me uma coisa que é muito justa: as cenas de sexo no cinema revelam mais da sexualidade do realizador que dos atores. E já preveni os meus pais das cenas que fiz no filme do Verhoeven.

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