Cinema

Vírus e pandemias: os filmes antes da realidade

Vírus e pandemias: os filmes antes da realidade

Se for à janela por estes dias, seja de dia ou de noite, é provável que se depare com o mesmo cenário com que as personagens centrais de "28 Dias Depois" (Danny Boyle, 2002) ou "Paris Qui Dort" (René Clair, 1924) se confrontaram no início de cada um destes filmes: uma cidade deserta, sem ninguém nas ruas.

E se no clássico francês a fantasia dominava, com a história de um cientista que criara um raio que conseguia pôr toda a gente a dormir, o filme britânico está mais perto da nossa realidade, com um grupo de homens a tentar sobreviver num Reino Unido devastado por um vírus incurável. A sequela, "28 Semanas Depois (Juan Carlos Fresnadillo, 2007) é mais inquietante, com o exército norte-americano a manter segura uma zona de Londres para que a população sobrevivente se possa reproduzir e repovoar o país!

Sendo verdade que não nos lembramos de uma situação como a que vivemos neste momento, de isolamento obrigatório para uma boa parte da população e um novo vírus ainda sem cura a devastar países tão perto de nós que desta vez não podemos fazer de conta que não sabemos, o cinema com a temática dos vírus e das pandemias enquadra-se na sua esmagadora maioria nos géneros de ficção científica e de terror. A Peste Negra, que esperava o cavaleiro vindo das Cruzadas interpretado pelo saudoso Max von Sydow, no clássico "O Sétimo Selo" (Ingmar Bergman, 1957) passou-se num tempo em que ainda não havia facebook, instagram ou televisões a emitir diretos 24 horas por dia.

Nessa lista quase interminável de filmes que pertencem a este género, o cinema de vírus e pandemias, há alguns cujo título não deixa margem para dúvida. Um deles é "Contágio" (Steven Soderbergh, 2011), onde tudo começa com a morte de uma mulher acabada de chegar de uma viagem de negócios em Hong Kong, devido a uma infeção letal causada por um vírus semelhante à gripe! Um dos filmes deste género alegadamente com maior rigor científico nas suas premissas, a semelhança da sua história com a que vivemos atualmente levou o filme a passar da posição 270 para o segundo lugar nos filmes mais vistos do catálogo da Warner Bros., apenas ultrapassado por Harry Potter.

Dentro dos títulos óbvios mas sem nunca terem estreado em Portugal, "Pandemic" (John Suits, 2016) põe em cena um vírus que afeta todo o planeta e infeta mais de metade da população mundial, pondo em risco a sobrevivência da humanidade. "Epidemic" (Lars von Trier, 1987), um dos primeiros filmes do autor dinamarquês, coloca-o lado a lado com o seu argumentista no processo de escrever um filme sobre o tema, numa altura em que uma verdadeira epidemia assola o mundo inteiro. E "Flu", do sul-coreano Kim Sung-su, parecia antecipar, em 2013, a trágica situação atual do país, com um terrível vírus a infetar a população de uma pequena localidade a apenas vinte quilómetros de Seul.

"Virus" há pelo menos dois e bem diferentes. Dirigido em 1999 por John Bruno e com Jamie Lee Curtis e Donald Sutherland, a produção de Hollywood passava-se numa nave espacial russa abandonada, onde chegava uma equipa de salvamento, que era considerada como vírus mortal pela espécie alienígena que lá se instalara. Por seu lado, o filme indiano de Aashiq Abu, realizado já em 2019, era uma visão realista do surto de vírus mortal que assolara a cidade de Kerala.

Quanto a "Quarentena" (John Erick Dowdle, 2008), coloca uma repórter televisiva e o seu operador de televisão no interior de um edifício em quarentena, depois do surto de um misterioso vírus que transforma os humanos em assassinos em busca de sangue. Três anos depois, "Quarentena 2: O Terminal", de John Pogue, passa-se no interior de um avião que tem de ficar em quarentena depois de aterrar, com um terrível vírus no seu interior.

Vírus da cegueira de Saramago chegou ao cinema

Muito provavelmente, em muitas casas portuguesas por estes dias se referiu o nome de "Ensaio Sobre a Cegueira", de José Saramago. O livro do nosso Nobel da Literatura devora-se desde o virar da primeira página, quando se dá o primeiro caso de infetado pelo contagioso vírus da cegueira. Não tão capital como o livro, o filme que Fernando Meirelles dirigiu em 2008, com Julianne Moore e Mark Ruffalo, é ainda assim uma adaptação muito decente e merece neste momento uma revisão.

Nesta breve resenha sobre os filmes de vírus, contágios, infeções e epidemias não podiam faltar alguns títulos de David Cronenberg, o mestre do chamado terror clínico, como "Os Parasitas da Morte" (1975) ou "Coma Profundo" (1977), o seu clássico onde deu protagonismo a Marilyn Chambers, uma das grandes rainhas do porno da época.

Dentro das obras mais conhecidas do grande público, podem destacar-se "Outbreak - Fora de Controlo" (Wolfgang Petersen, 1995), onde Dustin Hoffman, Rene Russo e Morgan Freeman lutam contra um vírus que infecta a Califórnia, trazido para a América por um macaco africano, ou "12 Macacos" (Terry Gilliam, 1995), com Bruce Willis como um prisioneiro enviado ao passado pata tentar descobrir a origem de um vírus que devastou a humanidade, e que era uma nova versão de uma curta-metragem de culto, "La Jetée" (Chris Maker, 1962).

Também tiveram sucesso "O Acontecimento" (M. Night Shyamalan, 2008), onde um casal e uma jovem tentam sobreviver a uma praga que transforma em suicidas os que são infetados, "A Cabana do Medo" (Eli Roth, 2002), que coloca um grupo de estudantes numa cabana, atacada por um horrendo vírus ou "Os Filhos do Homem" (Alfonso Cuaron, 2006), com a ação a decorrer em 2027, quando todas as mulheres se tornaram inférteis e um ativista (Clive Owen) ajuda a salvar uma mulher (Julianne Moore) milagrosamente grávida.

Julianne Moore é aliás uma das "rainhas" deste género - além de notável atriz tem uma fisionomia que se presta a estas personagens. É o que Todd Haynes viu no seu "Seguro" (1995), onde uma mulher dos subúrbios começa a desenvolver uma alergia a tudo o que a rodeia.

Os últimos homens na Terra

Também há epidemias de zombies e outros monstros à solta no cinema futurista do género: em "WWZ - Guerra Mundial" (Marc Forster, 2013) é Brad Pitt quem dá a volta ao mundo para exterminar a epidemia de zombies que ameaça a humanidade; "Eu Sou a Lenda" (Francis Lawrence, 2007) passa-se num mundo onde os homens se transformaram em monstros e Will Smith é um dos sobreviventes em quem se deposita a esperança de salvar os que ainda restam; toda a saga "Resident Evil", iniciada em 2002 com Milla Jovovich na protagonista e baseada no jogo de computador com o mesmo nome, é também uma variação deste género.

Mas há mais, e mais antigos, como "A Ameaça de Andrómeda" (Robert Wise, 1971), onde um grupo de cientistas tenta perceber como um estranho contágio matou os habitantes de uma pequena cidade, ou "Guerra ao Vírus da Loucura" (George A. Romero, 1973), sobre a luta dos militares para conter um vírus que leva à loucura e à morte e que se declarou numa pequena cidade da Pennsylvania.

São também clássicos dois filmes de que se espera a realidade não venha desta vez a copiar a ficção. "O Último Homem na Terra" (Ubaldo Ragona e Sidney Salkow, 1964) tem Vincent Price como o caçador de vampiros que é o último sobrevivente da raça humana, capaz de destruir os mortos-vivos. Precisamente com o mesmo título em Portugal, mas mais conhecido pelo original "The Omega Man", o filme que Boris Sagal retirou em 1971 do romance de Richard Matheson tem Charlton Heston como o último sobrevivente à face da Terra, tentando ainda descobrir a cura para a praga que destruiu toda a humanidade.

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