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#bem-vindos

Prevê-se que o pico do regresso em férias de emigrantes seja atingido neste fim de semana. Já se veem por aí carros com matrículas estrangeiras, o que aponta para o que as previsões indicam: serão mais os que voltam por um agosto em casa, depois de dois anos de ausência forçada. Filha de emigrantes e com família que procurou lá fora o pão que por cá não havia, sinto-me com à-vontade para falar de cuidados. O acidente que matou dois filhos de um emigrante em França às portas da terra, Fafe, ocorrido em Zamora, dá a certeza de que ter pressa de chegar não vale a pena. O pai está ferido e internado. Os filhos vão a enterrar. Para os que por aí já andam e para os que vêm cá matar saudades peço atenção na estrada. A euforia, o cansaço, o desconhecimento da via rodoviária e uma certa exibição deixam sempre más notícias. Sejam bem-vindos, companheiros. E boas férias com vida boa.

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#tranças

A atriz Rita Pereira posou para uma rede social com a cabeça cheia de tranças. Abriu a polémica. Houve quem a acusasse de apropriação cultural: o tipo de tranças é usado por africanos e há quem afiance que quando os africanos as usam são vítimas de racismo. Então, se a atriz decidiu usá-las também corria esse risco? Não. Porque ela é branca. Logo, ela é que é racista e, além disso, está a apropriar-se de algo que culturalmente não lhe pertence. A visada, que tem um companheiro de origem africana, respondeu que se tratou "de admiração cultural" e o certo é que acabou com o penteado da discórdia. Espero que agora não se lembre de se vestir como os marroquinos ou indianos, não dance merengue, não pinte as mãos como as noivas árabes nem se atreva a vestir um burquíni. Se o fizer, está a apropriar-se do tempo de quem nada tem para fazer a não ser criar ódios.

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#luto

Quando vi uma mulher de 93 anos, de uma localidade derretida pelo fogo em Ourém, a contar que tinha sido levada descalça de casa - fazia uma sesta na hora do fogo - dei por mim a perguntar por que razão a vida castiga tanto pessoas que carregam uma história. Depois, soube que essa mulher perdeu casa, uma cabrita, um galo e duas galinhas, "roupa boa", um televisor, um frigorífico. Ou seja, perdeu tudo. O olhar dela deu-me arrepios. Pareceu-me que, embora viva, estava morta por dentro. Ficar sem nada é terrível em qualquer idade. Não imagino o que será aos 93 anos. Agora, que acabo estas linhas, ouço falar na morte de um piloto, 30 anos, que ajudava num incêndio em Torre de Moncorvo. O seu caixão foi o pequeno anfíbio que pilotava e que se despenhou, não o fogo. Mas o fogo foi o que o levou à morte. Trágica. E pensava eu que o negro das terras seria o único luto que faríamos este ano.

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#semvida

Nunca me calarão contra a violência doméstica. Nem contra a morte que dela resulta. Saber que entre janeiro e junho deste ano morreram em Portugal 16 mulheres vítimas de violência doméstica, tantas como em 2021, é aterrador. Como aterrador é fazer cálculos e saber que só no mês passado foram mortas seis mulheres, o que significa que em cada cinco dias houve um crime dessa natureza. O retrato dos assassinos é quase sempre comum: ex-maridos ou ex-companheiros. As vítimas também têm pontos iguais porque viviam ou tinham vivido uma relação onde a violência era constante. E sempre que uma mulher morre desta forma ignóbil perdemos pontos como comunidade. Continua enraizada a posição de não nos metermos na vida dos outros. Pois não. Na vida que é boa. Naquela que tem gritos e sons de socorro, temos de nos meter. Porque não acontece só aos outros.

Opinião

#apagados

Valentina, Joana, Vanessa, Daniel, Henrique e Raphael, Leonor, Henrique Barata, Maria João, André Fernandes, David, Carlos, Tiago, Ruben e David, Samira e Viviane. Estes são nomes de crianças mortas por mães ou por pais. De forma hedionda. As notícias que facilmente se encontram na net são acompanhadas por fotografias nas quais todas surgem com sorrisos ou ar sereno. Como se quisessem apagar os relatos de violência de que foram vítimas. A elas, junta-se o sorriso de Jéssica, três anos, morta à pancada, drogada para não gritar, abandonada até morrer. Jéssica não foi morta pelos pais. Mas não lhes retira culpa, quanto mais não seja moral, por uma morte tão cruel. Jéssica já não mora em Setúbal. Jaz numa campa desde ontem. Jéssica terá sido assassinada por alguém que não tinha o seu sangue. Porquê? Nenhuma resposta será aceitável. Faça-se justiça. Por todos os sorrisos apagados.

Praça da Liberdade

#medoemar

O mar estava picado, não fosse hora de mudar a maré. O casal, com um menino de uns quatro anitos, falava alto, numa conversa aos picos como as ondas. Dividiam palavras como "parva", "estúpido", "palerma" e "sonsa" numa discussão sem nexo. De repente, o homem agarrou no puto, correu com ele até ao mar e, rindo alto, mergulhou-o uma, duas, ene vezes. A criança gritava e pedia clemência, com o olhar, à mãe que ficara na areia e também ria, até gritar para o homem parar. Ele parou. O menino chorava e tremia de frio, apesar de embrulhado numa toalha. O homem berrou: "És um medricas, moço. Não sais ao teu pai". "Medricas não és. Só palerma", atalhou a mulher. Ele contrapôs, sempre a falar alto: "O meu pai tirou-me o medo com mergulhos no mar". Fez-se silêncio. Só o menino, em soluços, murmurava: "Mar não, mar não".

Opinião

#que...

À hora em que escrevo estas palavras acabo de editar o texto que fala de um bebé que morreu na Urgência do Hospital das Caldas da Rainha. Dizem que a falta de um dos três obstetras escalados poderia ter feito a diferença. Não sei. O que leio é que a Urgência de Obstetrícia tinha as portas fechadas a uma mulher grávida, com dores e que chegou a ser preparada para ser transferida para outro hospital. E que a cesariana feita, perante a reversão do seu estado, não foi suficiente para salvar uma criança. Leio que vão ser feitos inquéritos. Que a mulher está estável. Que o Ministério alega que há "constrangimentos" hospitalares difíceis de suprir. Que o sistema está doente. Que faltam médicos. Que os hospitais estão em rotura. Que há muita gente a recorrer às urgências. Que... tantos "que", senhores, quando apenas um tem de ter resposta: que caos é este?

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#big

Entrei no café quando o televisor tinha o som absurdamente alto. Dois homens discutiam. Um falava em caca (traduzi), outro chamava-lhe boi. Reconheci o programa e os protagonistas da contenda. Um é o ator Nuno Homem de Sá e o outro um antigo futebolista que agora fala de famosos chamado Gonçalo Quinaz. Nas mesas, havia quem desse gargalhadas. E quem abanasse a cabeça num gesto de reprovação. O televisor emitia os gritos de colegas no programa, o "Big Brother", galinha dos ovos de ouro da TVI. Os homens da discórdia dividiam apoios no café. Reparei em três crianças sentadas junto a adultos. Só uma olhava para a cena. Ao lado, uma mulher afiançava: "Dava-lhe no focinho". A criança riu. "Os bois têm focinho?", perguntou. Como ninguém respondeu, levará, com certeza, a pergunta para a escola. É a chamada "big" educação.