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Valongo: como o São João acabou com a Urgência

Valongo: como o São João acabou com a Urgência

É talvez inédito que por força de uma exigência de um grande hospital o seu vizinho mais pequeno veja fechar o serviço mais importante. A forma como o Hospital de São João incluiu o fecho da Urgência de Valongo na agenda das exigência apresentadas ao ministro da Saúde terminou com um assunto que durava há anos. O Governo cedeu e ainda por cima não fica com o ónus da decisão.

Do ponto de vista prático, as populações ficam revoltadas. Ainda assim, Valongo nem consegue avaliar a sorte de ter o São João a 15 minutos - por comparação com centenas de milhares de portugueses no interior do país que nem centros de saúde condignos têm. Além disso Valongo passará a ter uma unidade de hemodiálise e consultas de várias especialidades, algo nada despiciendo para quem tem de usar cuidados de saúde quotidianamente.

A queixa das populações tem por detrás um outro problema: a saturação da Urgência do São João. É muitas vezes caótica e desumana no tempo de espera.

[perguntas]

[1] Por que tiveram sucesso as exigencias do Hospitsl de São João junto do Governo?

[2] O encerramento da Urgência em Valongo corresponde a um bom princípio de centralização de serviços em grandes hospitais com mais valências?

[respostas]

Manuel Antunes, cirurgião toráxico e professor da Universidade de Coimbra

[1]Independentemente da justiça das exigências do S. João, acaba por parecer que "quem não chora não mama"; e isto não é maneira de estabelecer a justiça. O problema não é apenas do S.João, os outros também os têm. Vamos ver se vão ser tratados do mesmo modo...

[2] Não conheço o caso mas, de uma forma geral, estou de acordo com o princípio, ainda que os princípios não deverão ser rígidos mas aplicados com justiça e equidade. A concentração de experiência é um fator importantíssimo.

Mauricio Barbosa, bastonário da Ordem dos Farmacêuticos e prof. da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto

Por razões pessoais não foi possível contar com as respostas de Maurício Barbosa nesta edição.

Nuno Sousa, diretor do curso de Medicina da Universidade do Minho

[1]Porque as exigências faziam (e fazem) sentido.

~O ajuste criterioso da rede de prestação cuidados de saúde faz todo o sentido e garante a melhor prestação dos mesmos às populações. Ou seja, sempre que a distribuição se baseie em critérios de qualidade dos cuidados de saúde é bem-vinda ainda que implique uma deslocação maior das populações servidas.

Paulo Mendo, antigo ministro da Saúde

[1] A defesa de uma séria autonomia institucional, o rigor da gestão, os bons resultados face aos objetivos acordados, a dedicação dos profissionais, são os melhores argumentos e razões para as suas reivindicações serem estimulantes e devam ser recompensadas.

[2] Não há bons princípios de centralização de serviços que não sejam os da localização dos serviços nas áreas de melhor funcionamento e utilidade. Não há nenhum hipotético e falso princípio teórico "centralizador".

António Ferreira, presidente do Conselho de Administração do Hospital de S. João

[1] e [2] Dada a natureza das minhas funções não me parece correto responder a questões diretamente relacionadas com o Centro Hospitalar de São João.

Purificação Tavares, médica geneticista, CEO CGC Genetics

[1] O diálogo reduz o ruído do desacordo, e traz soluções em benefício de todos.

[2]As situações de urgência requerem valências próprias de hospitais centrais. Ter muitos "serviços de urgência" não é sinónimo de melhor atendimento ou resolução das situações.

Miguel Guimarães, Presidente da Conselho Regional Norte da Ordem dos Médicos

[1]Porque foram apresentadas de forma inteligente num período de maior fragilidade política do Ministério da Saúde.

[2] O encerramento é aceitável, na medida em que a população de Valongo está a 10 minutos de uma urgência polivalente. Deve, no entanto, ser acompanhado de um reforço dos cuidados de saúde primários, em meios técnicos e humanos.

Isabel Vaz, presidente da Comissão Executiva da Espírito Santo Saúde

Não foi possível contar com o contributo de Isabel Vaz nesta edição.

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