
Foram conhecidos esta terça-feira (18 novembro) os vencedores da 4ª edição do programa que está a promover a transformação do Serviço Nacional de Saúde (SNS) através da qualidade dos cuidados prestados ao doente e eficiência na utilização de recursos públicos. São quatro projetos e outras tantas equipas focadas no conceito de saúde baseada em valor.
Corpo do artigo
A cerimónia de atribuição das Bolsas Mais Valor em Saúde - Vidas que Valem decorreu na Ordem dos Farmacêuticos, em Lisboa, promovida pela biofarmacêutica Gilead Sciences, Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH) e pelas consultoras Exigo e Vision for Value. Estas duas empresas são as responsáveis por implementar, junto dos projetos vencedores, os prémios de 50 mil euros de cada Bolsa convertidos em consultoria e formação especializada.
Antes da entrega das Bolsas, figuras de relevo no setor como a Diretora-Geral da Saúde (DGS) e os responsáveis máximos da APAH e da Abraço participaram na Mesa Redonda "Da Metodologia ao Doente" discutindo, apesar de visões diferenciadas, a implementação do conceito de Value Based Healthcare. Os três intervenientes destacaram em uníssono a necessidade de medir resultados.
O presidente dos Administradores Hospitalares, Xavier Barreto, defendeu que a falta de indicadores, especialmente na experiência do doente, impede a avaliação concreta do uso dos recursos. "Se não estamos a medir resultados, não sabemos o que está bem ou mal e quando isso não acontece, não temos a certeza de estar a gastar bem o dinheiro".
Cristina Sousa, presidente da Abraço, destacou o que considera ser o papel crucial das ONG"S neste contexto porque mantêm contacto direto com os doentes e ajudam a preencher lacunas do SNS. "Continuamos muito fechados naquilo que é o meio hospitalar. Existem indicadores que são sociais e que muito dificilmente conseguirão ser medidos dentro de um hospital ou num centro de saúde se não tiverem o contributo de uma ONG".
Rita Sá Machado, por outro lado e apesar de apoiar os conceitos discutidos, descartou o envolvimento da Direção-Geral da Saúde ao afirmar ser necessário "uma entidade que olhe para política de qualidade na saúde". Neste ponto Xavier Barreto entende que, à semelhança de outros países, deveria ser uma estrutura como a Direção Executiva do SNS a encarregar-se e a efetuar a transformação.
Fragilidades do SNS
Presidente do júri do programa "Mais Valor em Saúde" desde a primeira edição, Maria de Belém Roseira disse, antes de saudar os projetos vencedores, ser fundamental adotar uma abordagem estratégica e de longo prazo no SNS. "Os projetos que agora conhecemos e a quem damos visibilidade são essenciais para demonstrar às tutelas a necessidade de planos concretos que realmente façam acontecer mudanças significativas", afirmou.
A antiga ministra da saúde não deixou também de alertar para o atraso português na transformação digital, lembrando que "continuamos a fazer aquilo que já está feito". Maria Belém evocou a digitalização como instrumento crucial para medir resultados e integrar diferentes fontes de informação, como dados de saúde, sociais e ambientais, permitindo construir uma visão completa e mais eficiente da saúde da população. No discurso fez ainda duras críticas ao ruído mediático que descredibiliza o SNS, sublinhando a importância de reconhecer e valorizar os esforços dos profissionais e dos projetos que existem para melhorar o sistema. "É um milagre que os profissionais de saúde ainda acreditem no SNS", disse convictamente. Por fim, destacou o mérito dos participantes que se candidataram às bolsas, considerando-os autênticos vencedores, por se dedicarem a servir e a tornar o SNS melhor e mais sustentável.
A iniciativa "Mais Valor em Saúde - Vidas que Valem" já investiu 800 mil euros em consultoria especializada nas quatro edições realizadas. Este ano foram premiados quatro projetos recebendo cada um o valor de 50 mil euros.

Mais Valor em Insuficiência Cardíaca (IC) | ULS da Região de Aveiro
A coordenadora da unidade de insuficiência cardíaca do Hospital de Aveiro, não podia estar mais feliz depois de descer do palco onde acabara de receber a Bolsa Mais Valor em Saúde. Joana Neves, afirma que a insuficiência cardíaca representa uma das principais causas de hospitalização em Portugal, especialmente na população envelhecida e com múltiplas comorbilidades. "A abordagem tradicional tem demonstrado pouco impacto nos reinternamentos e custos evitáveis e na qualidade de vida dos doentes. O nosso objetivo maior é afastar os doentes dos serviços de urgência, das agudizações, dos internamentos e estabelecer um cuidado de proximidade, criando-lhes canais de comunicações diretos com a equipa multidisciplinar do hospital".
Percurso Otimizado do Doente com Esclerose Múltipla | ULS Santo António
Na Unidade Local de Saúde de Santo António, no Porto, foi premiado um projeto afeto à Esclerose Múltipla. "É das doenças neurológicas mais incapacitantes, mas também onde tem havido mais inovação e novas terapêuticas", começa por explicar Ernestina Santos. A neurologista do Hospital de Santo António tem a expectativa de conseguir mais eficácia no trabalho da equipa que coordena. "O nosso projeto pretende encurtar os tempos, desde o diagnóstico até ao início das terapêuticas, para ter impacto e evitar os danos de incapacidade nos doentes". Otimizar esse percurso, prestar cuidados baseados em valor e avaliar o trabalho de equipa "pelos olhos do doente" são os grandes alvos a atingir.
TAVI+ Alta Precoce e Sustentabilidade em Estenose Aórtica | ULS de São José
Quem sofre de Estenose Aórtica tem problemas ao nível da passagem do sangue do coração para o corpo, obrigando o músculo a trabalhar mais, sobrecarregando-o. O projeto TAVI+, coordenado por Inês Rodrigues do Hospital de Santa Marta, responde ao aumento contínuo de doentes que necessitam de substituir a válvula aórtica e procura melhorar a organização e a sustentabilidade do tratamento. Segundo a cardiologista, os processos estão implementados desde fevereiro e os primeiros resultados "têm sido muito satisfatórios. Temos conseguido reduzir o tempo de lista de espera e já conseguimos reduzir em muito os doentes tratados de forma urgente".
Autogestão e Monitorização da Reabilitação Respiratória | ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro
A iliteracia digital não assusta os elementos que estão a colocar em prática este projeto em Vila Real e que recorre a meios digitais para monitorizar doentes de reabilitação respiratória (RR). Sérgio Vaz explica que haverá sempre uma consulta prévia e formação do doente ou dos familiares. O enfermeiro confirma que em casos de Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica, a RR constitui-se como tratamento não farmacológico comprovado na redução de sintomas, aumento da capacidade de exercício e aumento da qualidade de vida. Contudo, após conclusão do programa de 12 meses em meio hospitalar, observa-se que os doentes cessam essa prática. O REABDigital vem dar continuidade ao programa podendo o utente fazer os exercícios em casa. A ideia é reduzir consultas não programadas, recurso aos serviços de urgência, hospitalizações por exacerbação e a redução dos custos para a instituição e doentes.
Os representantes dos quatro projetos vencedores declararam em comum que a distinção de que foram alvo significa o reconhecimento do trabalho desenvolvido até agora e um estímulo para continuarem a melhorar a resposta clínica. Saiba mais sobre a iniciativa "Mais Valor em Saúde - Vidas que Valem", aqui.

