
22 artistas de 13 países participam na Mula
Foto: Direitos Reservados
Mula, de Cristina Planas Leitão e Luísa Saraiva, oferece, no equinócio, 36 horas de cultura gratuita, em espaços independentes da cidade do Porto baseados num conceito de convivialidade, com a dança contemporânea como ponto de partida.
Há um novo acontecimento a ocupar o mapa cultural do Porto e promete fazê-lo sem pedir licença. Chama-se Mula e apresenta-se como um encontro intensivo de artes performativas que decorre do entardecer de 20 de março até à madrugada de 22, acompanhando simbolicamente a travessia do equinócio da primavera. Durante 36 horas consecutivas, a cidade transforma-se num território de experimentação onde a dança é o ponto de partida para cruzamentos com outras linguagens e comunidades.
A iniciativa nasce pela mão de Cristina Planas Leitão (ex-diretora do Teatro Municipal do Porto) e Luísa Saraiva, que defendem um modelo assente na autonomia, na colaboração e na proximidade. Mais do que um festival convencional, a Mula propõe um formato híbrido que junta apresentações, práticas coletivas e momentos de convívio, ocupando vários espaços independentes do Porto, entre eles Sismógrafo, Mala Voadora, Rampa, Teatro do Ferro, Passos Manuel e Hotelier. Ao todo, estão previstos 16 momentos distintos, todos de acesso gratuito, reforçando a ideia de cultura como bem comum. A iniciativa é possível, como explica ao JN, Cristina Planas Leitão através do "apoio a projetos da Direção Geral das Artes (45 mil euros) e do programa Criatório (15 mil euros), além dos espaços parceiros que cedem não só o seu espaço bem como as equipas". Luísa Saraiva explica que "houve muitos desafios ao criar algo do zero, mas encontramos muita solidariedade da parte dos espaços".
A programação reúne 22 artistas oriundos de 13 países, num alinhamento que cruza diferentes gerações e geografias. A sessão inaugural pertence a Catarina Miranda, que apresenta uma instalação em vídeo construída a partir do diálogo com peças do Museu do Romântico, num encontro entre património e criação contemporânea. Ao longo do fim de semana, sucedem-se estreias nacionais que exploram o corpo enquanto espaço político e sensorial.
A coreógrafa sueco-chilena Ofelia Jarl Ortega transporta o público para uma pista de dança imaginada como microcosmo social, onde identidades e ficções se misturam. Sancha Meca Castro, em colaboração com Inês Malheiro, investiga os limites entre controlo e vulnerabilidade, propondo o colapso como gesto inaugural de libertação. Já Liina Magnea constrói uma performance em permanente mutação, onde referências cinematográficas e cultura digital dialogam com música e movimento. Ewa Dziarnowska apresenta uma criação de longa duração que questiona as dinâmicas de desejo e exposição, convocando o público para uma experiência de proximidade e resistência.
No formato de intervenções-relâmpago, surgem duas encomendas originais: Ana Rita Xavier e Piny apresentam novas criações pensadas especificamente para esta edição. Também Sepideh Khodarahmi e a dupla Dori Nigro & Paulo Pinto trazem trabalhos recentes, que oscilam entre a provocação e a evocação de rituais ancestrais, explorando memórias corporais e tensões contemporâneas.
Workshops e gastronomia
A proposta estende-se para lá do palco. António Ónio orienta um workshop de exploração somática centrado em processos de libertação e transformação física. Há ainda sessões de leitura de textos que convocam futuros possíveis, conduzidas por artistas e investigadoras convidadas, bem como momentos de consulta simbólica através de práticas como o tarot e a astrologia. A música ocupa a noite com um concerto que cruza espiritualidade e ruído experimental, seguido de uma programação clubbing no Passos Manuel, sob curadoria de Lendl Barcelos, reunindo nomes emergentes e figuras já reconhecidas da cena local.
A comida integra igualmente o programa como gesto de hospitalidade. Paula Lopes, Vasco Coelho Santos e Rigel Lazo concebem propostas simples e pensadas para partilha, acompanhando o ritmo contínuo do encontro. Comer, aqui, é entendido como parte da experiência artística e da construção de comunidade. "A convivialidade é muito importante na convivência artística e como esta é uma edição zero vamos testar muitas ideias", conta Luísa Saraiva.
A escolha do nome Mula evoca resistência, cruzamento e capacidade de transporte - uma metáfora para um projeto que se quer coletivo e enraizado. Inspirada em referências simbólicas ligadas ao ciclo solar, a estrutura temporal do evento acompanha a passagem da luz para a noite e o regresso à aurora, criando um intervalo propício à escuta, à imaginação e ao encontro.
Embora a entrada nas atividades seja livre, o público é convidado a contribuir com donativos destinados a apoiar os espaços independentes envolvidos e organizações solidárias da região centro afetadas pelo mau tempo. Algumas atividades específicas, como as sessões oraculares, o clube noturno e as propostas gastronómicas, têm bilhete próprio.
Com esta primeira edição, a Mula afirma-se como um novo polo de energia cultural na cidade, defendendo modelos de produção menos burocráticos e mais afetivos. Durante um fim de semana inteiro, o Porto torna-se palco de um laboratório vivo onde o corpo, a arte e a comunidade se encontram em estado de vigília. Como explica Cristina Planas Leitão "a nossa lotação é reduzida por isso admitimos, que não vamos fazer concorrência a ninguém. Além do mais estas são práticas comuns noutras disciplinas como a música ou as artes plásticas", conta.

