Opinião

Mariana Mortágua

Valeu a pena o inquérito às rendas elétricas?

A Comissão de Inquérito às rendas excessivas pagas às empresas de eletricidade ouviu dezenas de pessoas, antigos responsáveis de governos, representantes de empresas e figuras como Luís Amado, que incarnam ambas as condições. Foi trabalho precioso porque pela primeira vez o Parlamento aprofundou uma matéria sempre considerada demasiado técnica para um escrutínio político rigoroso. Resultado: ficámos com uma das faturas mais elevadas da Europa, um país recordista de pobreza energética, que muita gente pobre tem pago com a vida no pino do verão e no pico do inverno.

A sua Opinião

Já teve dificuldade em abastecer o seu carro?

Máquinas inteligentes, mas também mais éticas

A ética é considerada o ramo da Filosofia que reflete sobre os comportamentos humanos (as suas causas, os seus sucessos ou os seus erros) de um ponto de vista moral.Esta avaliação, que implica ainda a liberdade das pessoas para escolherem os atos que praticam, faz da ética uma qualidade exclusivamente humana. É por isso paradoxal falar de uma ética das máquinas. Porém, à medlocando cada vez mais decisões nas mãos de máquinas, esta é uma disciplina necessária. Relativamente a um artigo de Núria Bigas Fortmatjé sobre o tema e publicado pela Universitat Oberta de Catalunya, o professor de Filosofia do Direito da UOC, David Martínez, assinalava que “não só é aconselhável, como até indispensável que os algoritmos incluam parâmetros éticos”. Um dos exemplos clássicos utilizados para defender a necessidade de que, no futuro, a inteligência artificial tenha uma base moral é o dos automóveis autónomos. Embora haja relatórios que garantam que as viaturas sem condutor acabem por ser mais seguras do que as atuais, é certo que terão de tomar decisões em que estarão em jogo vidas humanas. Uma vez que a ética é uma característica da ida que vamos conossa espécie, só nós podemos tentar transmiti-la às máquinas. É neste sentido que surgem ideias como as do projeto Máquina Moral, implementado pelo MIT, no qual, através de um jogo online, estão a ser recolhidos dados para ver como reagimos perante diferentes cenários com possíveis vítimas num acidente rodoviário.Francesca Rossi, diretora de Ética na Inteligência Artificial da IBM, acredita que, embora tenham sido alcançados grandes progressos, ainda temos de ser pacientes: “As pessoas têm de perceber que a IA existe há 70 anos, mas que ainda está em desenvolvimento. Temos muitos desafios pela frente e muitas coisas que não sabemos fazer.” A maior capacidade das máquinas para processar informação, juntamente com a imensa quantidade de dados que geramos no nosso dia-a-dia, faz com que os algoritmos sejam cada vez mais exatos, mas isso não significa que sejam também mais éticos, uma vez que só aprendem o que lhes é ensinado. Há alguns anos, uma máquina de inteligência artificial programada pela Microsoft começou a demonstrar comportamentos racistas, homófobos e antissemitas depois de passar apenas um dia no Twitter. E num estudo publicado em 2017, a revista “Science” garantia que muitas máquinas de inteligência artificial se tornavam machistas quando aprendiam a comunicar por palavras, devido ao facto deste preconceito estar implícito em muitos idiomas.Enfrentar o risco de que os modelos de aprendizagem baseados em comportamentos humanos em grande escala reproduzam estereótipos e preconceitos existentes na população é uma das tarefas ds Francesca Rossi. “Só será possível entender os problemas e resolvê-los com uma abordagem multidisciplinar e envolvendo todos”, garante Rossi. Uma tarefa na qual devem estar envolvidos, em conjunto, empresas tecnológicas, governos e instituições como as Nações Unidas, uma vez que avançamos para um futuro no qual as máquinas terão cada vez mais importância nas suas relações com os humanos.Entrevista e edição: Noelia Núñez, David GiraldoTexto: José L. Álvarez Cedena

A adolescente capaz de conectar o seu cérebro a um computador

O delicioso livro de Roald Dahl, “Matilda”, é uma ode à curiosidade infinita que todos temos na infância – e este é o segredo. Dahl lança aqui as suas farpas sempre certeiras e irónicas aos adultos, que castram tanto esta ânsia de conhecimento que acabam por tornar as crianças iguais a eles, ou seja, fazem com que parem de inventar, de criar, de questionar o que as rodeia, até que se tornam seres planos e conformados. Na sua história, Dahl dota Matilda de poderes extraordinários, como mover objetos com a mente, com os quais castiga os adultos medíocres que a rodeiam. A sua telecinesia é vingativa e brincalhona. Porém, mover objetos com a mente – uma antiga aspiração esotérica e ainda no âmbito da ficção científica à data da publicação do livro, em 1988 – é hoje (quase) uma realidade. Uma das pessoas que mais aposta em fazer desta uma tecnologia tangível é pouco mais velha do que a própria Matilda. Aos 16 anos, Ananya Chadha descreve-se a si mesma, na sua página na Internet, como “uma rapariga de Toronto que acredita que o único caminho para criar um futuro melhor para a Humanidade é aumentar a nossa própria inteligência. É por isso que estou tão interessada e empenhada na área das interfaces cérebro-computador”.A descrição de Chadha dificilmente encaixa na da adolescente que é, porque a adolescência, supostamente, é dominada pelas hormonas, desprezando tudo o que interfira com a hipótese de ter uma conta no Instagram com o maior número possível de seguidores. Mas, claramente, Ananya não é uma rapariga comum, como se comprova pelo facto de ser uma especialista na tecnologia Blockchain ou pela sua colaboração regular com empresas como a Microsoft. Uma das áreas que mais lhe interessa é, precisamente, a da possibilidade de controlar objetos – robôs ou computadores – com o nosso cérebro: “O problema é que o hardware que temos é muito mau, pelo que é difícil captar boas ondas cerebrais”. Chadha trabalha com interfaces que ela própria criou, que depois liga ao cérebro através de elétrodos para mover pequenos robôs. O motivo que a levou a escolher uma tecnologia que promete ser disruptiva é o facto de se tratar de uma área com enormes potencialidades de desenvolvimento no prazo de 20 anos “e ter todo o futuro pela frente”. Chadha acredita que as suas investigações podem ter uma grande repercussão no âmbito da Saúde, daí as suas últimas invenções estarem direcionadas para a construção de próteses que, uma vez ligadas ao cérebro, permitem ao doente movimentar, por exemplo, um braço protésico como se fosse o seu próprio.Esta possibilidade de comunicarmos com as máquinas (e até entre nós) diretamente através do cérebro abre também a porta a possíveis acessos indevidos aos pensamentos ou a informações de outra pessoa. Por isso, Chadha, em vez de se preocupar, como a maioria dos jovens da sua idade, em qual será a próxima série de sucesso da Netflix, questiona-se sobre a possibilidade de alguém poder controlar as nossas emoções através da tecnologia e, mais importante, se todos estes avanços vertiginosos nos fazem realmente felizes. Mas, por mais extraordinárias que sejam as suas competências, Ananya Chadha é uma adolescente que se identifica com a sua geração, e acha que, graças à Internet, que permite o livre acesso à informação e a ligação entre milhões de pessoas, os jovens estão mais do que nunca preparados para mudar o mundo.Entrevista e edição:  Azahara Mígel, Cristina LópezTexto: José L. Álvarez Cedena