Fernando Santos

"Não tenho muito mais tempo para preparar um Campeonato da Europa"

"Não tenho muito mais tempo para preparar um Campeonato da Europa"

O selecionador nacional Fernando Santos falou, esta segunda-feira, sobre o pouco tempo que terá para preparar o Campeonato Europeu, em entrevista à RTP, na Casa dos Atletas, na Cidade do Futebol.

O técnico começou por explicar como foi o processo de escolha dos 23 jogadores para os compromissos de Portugal frente à Croácia (5 de setembro, às 19.45 horas, no Estádio do Dragão) e à Suécia (fora, a 8 de setembro), no panorama atual do futebol europeu após a paragem devido à pandemia de covid-19.

"Depois de tanto tempo sem contacto com os jogadores este era o critério de seleção possível. Não foi como uma equipa que apesar de algumas paragens foi tendo algum contacto. No pouco tempo que temos, temos de preparar logo dois jogos. Após o regresso a seguir à pandemia vi dois ou três jogos e parei de ver não porque não goste de futebol, mas porque na análise do selecionador temos de ter a capacidade de perceber o que os jogadores estão a realizar e podemos ver um jogo em que os jogadores não estão como achávamos, mas perante aquele cenário também não era fácil. Fazer este juízo de valor era algo que não podíamos ter como segundo critério, portanto, para a convocatória escolhemos o único critério: o da qualidade", justificou Fernando Santos.

E prosseguiu: "Não temos os jogadores há não sei quanto tempo e há um leque de jogadores que na realidade até trabalham connosco há dois ou três anos, conhecem muito bem aquilo que são as nossas ideias, a nossa filosofia para o jogo, o que queremos para o jogo e foi essa decisão que tomámos".

A chamada de Cristiano Ronaldo para a Liga das Nações, após ter sido poupado na qualificação anterior também foi abordada pelo selecionador português. "Há muito tempo que não estamos juntos, o que é mais uma razão para que o Cristiano esteja connosco, depois não há uma mudança em nada, há disponibilidade física e mental. Nenhum selecionador sabe bem como estão os jogadores, uns poucos jogaram mais, outros estão de férias há mais tempo, outros já estão a trabalhar. São cartas fechadas e vamos tentar preparar-nos o melhor possível", referiu.

"Não tenho muito mais tempo para preparar um Campeonato da Europa. Vou ter estes jogos agora, depois vou ter outro jogo em março. Portanto, estes jogos agora vão relembrar aos jogadores aquilo que nós queremos. Numa próxima convocatória, se calhar vou alargar um bocadinho o leque e trago 26 ou 27, porque os meus jogadores, nessa fase da época, não podem jogar três jogos consecutivos. Conheço muitos jogadores, outros quero vê-los. E esta foi a opção", salientou Fernando Santos.

PUB

E se a pandemia não tivesse parado o futebol e tivesse havido Europeu, estaria Portugal a festejar o segundo título? Fernando Santos não tem dúvidas. "Eu acredito que sim. Desde 2010, tirando a Espanha, que ganhou duas vezes, quem ganhou mais duas vezes grandes competições? Portugal!", atirou o selecionador nacional.

"A realidade prova isso, que temos esse objetivo, queremos ganhar e lutamos por isso. Mas sabemos que uma Alemanha, França, Itália, Espanha são equipas tão poderosas ou mais do que nós", justificou o treinador.

"Este momento por que estamos a passar é algo que nos vai marcar definitivamente como pessoas. Até da nossa família ficamos separados, a dizer adeus à distância, a ver-nos à distância. Isso aconteceu-me a mim, inclusive perdi a minha mãe, foi uma coisa horrível, porque é desumano, ainda para mais num momento em que estávamos em emergência. Mas depois tive outros aspetos pelos quais todos passaram, porque isto foi transversal à sociedade, não aconteceu só a um, aconteceu a todos. Com mais ou menos dinheiro, com emprego ou sem emprego. Fomos todos iguais. Ter o neto à janela e tocar à campainha para dizer adeus. Todas estas coisas nos vão marcando e fazem de nós mais sensíveis", anotou Fernando Santos.

Sobre o regresso do público aos estádios, o selecionador defende que "critérios tem de haver". "A sociedade e o Mundo vão ter de andar para a frente, sob pena de as coisas serem muito piores daqui a um ano. Se me perguntar se sou favorável a colocar um estádio cheio de gente a ver um jogo de futebol? Não sou!", disse o técnico nacional, continuando: "Faço parte daquele grupo mais moderado. Há o grupo que acha que tudo pode acontecer e que podemos ir para férias e festas com 10 mil ou 20 mil pessoas, tudo de qualquer maneira e que não vai acontecer nada, até ao dia em que acontecer alguma coisa na nossa família. Depois já não há. Por isso digo que é possível em estádios com 40, 50 ou 60 mil pessoas criar-se um critério para ter cinco ou 10 mil".

"Agora que faz falta o espetáculo com público, seguramente. Tenho visto os jogos agora e não é a mesma coisa, o jogo é um bocadinho sensaborão, mesmo para as equipas. No momento em que precisas de reagir não tens lá ninguém que te incentive a fazê-lo. O futebol tem de abrir como a sociedade, mas com essa segurança. Não sou daqueles que pensa que isto pode abrir de qualquer maneira, porque pode criar um problema grave, mas também não sou daqueles que acham que não podem ir a um hospital ou a uma consulta porque podem ser apanhados pela covid ou que não podem sair de casa. Em segurança devíamos voltar ao estádio", complementou.

Quando terminar o contrato que o vincula à Federação Portuguesa de Futebol, Fernando Santos terá 69 anos, mas não pensa em reformar-se nessa altura. "Há uns anos disse que me reformava aos 60, já lá vão mais cinco e ainda estou aqui. Já pensei muitas vezes nessas questões de quando me vou reformar, mas cada vez menos me vejo a fazer isso. Se fosse uma questão de ganhar tinha saído em 2016, neste momento vou estar até 2024. Depois disto vou ver o que fazer, já pensei em regressar a um clube, de treinar e ensinar, que foi algo que sempre gostei, de tentar melhorar equipas e jogadores e na seleção não tenho tempo para fazer isso. O tempo o dirá", considerou.

No entanto, até 2024 espera contar com a ajuda de Cristiano Ronaldo. "Vai depender muito da parte mental. Pelo que vejo dele, ele estará lá, pois tem um espírito bem aberto. Mas quatro anos na vida é muito tempo", finalizou.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG