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A desilusão que une Juventus, Atlético e Sporting

A desilusão que une Juventus, Atlético e Sporting

Com a primeira metade da época 2019/2020 a terminar (e 2019 também), é tempo de balanços e neste ninguém gostaria de estar: quais são as equipas que mais dececionaram na Europa até ao momento, tendo em conta as expetativas de superação e glória no início da temporada?

Durante a pré-época 2019/2020, houve transferências de peso no mercado, com jovens promessas a juntarem-se a nomes sonantes nas capas de jornais, e projetos que deixaram os adeptos entusiasmados e expectantes. É o caso da transferência de João Félix para o Atlético de Madrid, as adições ao plantel da Juventus de Cristiano Ronaldo ou a esperança para o Sporting de Marcel Keizer. A verdade é que estes casos enumerados (e mais alguns) não corresponderam às expectativas iniciais, não só por causa do investimento e esperança nos reforços, mas também por serem equipas habituadas a altos voos. Pior ainda quando estes fatores se unem.

Em Portugal, a desilusão até ao momento não é um caso estranho dos últimos anos, visto que não seria a primeira vez que o Sporting estaria numa lista destas por esta altura do ano. A realidade é que os leões atravessam um momento de instabilidade que já vem de épocas passadas. Marcel Keizer era o treinador que podia mudar o rumo do clube. Aterrou em Lisboa com ideias revolucionárias, evoluídas e apresentava uma identidade distinta para a realidade do futebol português. O Sporting conquistou uma série de vitórias seguidas e com boa qualidade de jogo, havia aposta em jovens, os adeptos estavam entusiasmados e apelidavam o futebol da equipa de "Keizerball". De um momento para o outro, tudo mudou e houve uma quebra de resultados. Apesar de a ambição do título ter sido eliminada a meio da época passada, o clube ainda terminou a Liga com bons resultados e alcançou uma proeza que não alcançava há uma década: vencer dois títulos na mesma temporada (Taça da Liga e Taça de Portugal).

Arrancou a presente temporada e Keizer teve a pré-época para consolidar ideias e reforçar setores do plantel. Graças a dois resultados negativos no campeonato, depois da humilhação na Supertaça Cândido de Oliveira contra o Benfica, na derrota por cinco bolas a zero, foi despedido do comando dos leões. Eis que surgiu o interino Leonel Pontes para aguentar a situação, o que não deu resultado, visto que arrecadou três derrotas e um empate nos quatro jogos orientados. O escolhido para comandar as tropas leoninas foi Jorge Silas, ex-treinador do Belenenses SAD.

Apesar da eliminação em casa do Alverca para a Taça de Portugal, Silas conseguiu resultados positivos e até ao momento venceu os quatro jogos realizados na Liga Europa. No entanto, já caiu no campeonato por duas vezes fora de casa, uma em Tondela e outra em Barcelos. A corrida pelo título é muito difícil, tendo em conta a distância de pontos para Benfica e F. C. Porto. A turma de Alvalade encontra-se em 4.º lugar com 23 pontos e a 13 de distância do 1.º lugar.

O objetivo passa agora por vencer a Taça da Liga, ainda que esteja dependente de outro resultado para seguir em frente, e por realizar uma campanha com sucesso na Liga Europa. Recorde-se que Silas tem ainda pouco tempo à frente da equipa, para a moldar à sua imagem.

Os adeptos queixam-se da falta de aposta na formação, do desaproveitamento de jogadores emprestados e a render em outros clubes, como Daniel Bragança ou Matheus Pereira, da política de contratações (exemplos de Gonzalo Plata, Rafael Camacho e Fernando Santos, nenhum deles opção regular) e por não haver alternativa para o avançado Luiz Phellype, visto que Pedro Mendes, dos sub-23, nem sequer está inscrito na Liga.

Passando as fronteiras do futebol nacional, no que toca às outras ligas europeias, a equipa em que este parâmetro salta mais à vista é a Juventus. A equipa de Turim foi orientada por Massimiliano Allegri desde 2014 até ao final da temporada transata e nesse período venceu a Serie A todos os anos, além das quatro Taças e duas Supertaças. Cristiano Ronaldo rumou à Juventus no ano passado e foi considerado o jogador do ano em Itália, depois de vencer o scudetto. Apesar desta conquista, a época foi considerada um fiasco devido à eliminação na Liga dos Campeões e na Taça de Itália, ambos nos quartos-de-final.

O eleito para substituir Allegri foi Maurizio Sarri. Os bianconeri confiaram no antigo treinador da Nápoles e do Chelsea, onde venceu a Liga Europa na última época, para potencializar esta equipa e obter o sucesso europeu. Além da vasta quantidade e qualidade presente no plantel, a Juventus ainda contratou um dos jovens mais promissores da atualidade, e Golden Boy de 2018, Matthijs de Ligt, assim como os médios Adrien Rabiot e Aaron Ramsey, ambos em grande forma nos clubes onde atuavam, Paris Saint-Germain e Arsenal, respetivamente. As outras contratações foram o promissor defesa Merih Demiral e o lateral-direito Danilo (ex- F.C. Porto). As expectativas estavam elevadíssimas para aquela que seria a segunda temporada de Ronaldo no clube, com um treinador novo e recente vencedor de um título europeu, e um plantel repleto de opções para todas as posições, principalmente no meio-campo.

A realidade é que em anos anteriores a "Vecchia Signora" já levava uma série de pontos de avanço por esta altura do campeonato. Este ano, é a 2.ª classificada, tendo sido recentemente ultrapassada pelo Inter de Milão, que apresenta um belo conjunto liderado pelo experiente técnico Antonio Conte e com a ambição de lutar pelo título até à última jornada. A verdade é que a Juventus, em 15 jogos, tem onze vitórias, três empates e uma derrota. Mesmo que a estatística não o demonstre de forma cabal, a Juve está nesta lista porque a equipa não tem convencido e teria de fazer melhor. A queda para o segundo lugar da liga italiana é prova disso, bem como o facto de a maior parte das vitórias ser pela margem mínima e com muito sofrimento pelo meio.

Na Liga dos Campeões, a Juventus já se classificou em primeiro lugar do grupo com quatro vitórias e um empate em casa do Atlético de Madrid, cumprindo o caminho para o objetivo principal: a vitória da prova. A questão aqui é que a Juventus podia e devia mostrar mais, de acordo com o investimento realizado e a expectativa depositada na equipa. Chega quase a ser uma obrigação a melhoria nas exibições e os adeptos queixam-se das decisões tomadas por Sarri.

O técnico italiano nem sempre aposta em Paulo Dybala, visto como um ultraje para alguns adeptos da equipa italiana, que acarinham o argentino, há cinco épocas no clube. A massa associativa não compreende também o porquê de tantos médios na equipa, quando há poucos que conseguem tirar o rendimento esperado, bem como o esquema tático imposto pelo técnico. Sarri é um treinador que coloca um meio-campo muito defensivo e a equipa raramente tem jogadores criativos e desequilibradores, o que é essencial para um clube com uma máquina de fazer golos como Ronaldo. Nota-se uma diferença na forma exibicional do craque português, que parece sentir-se um pouco desorientado dentro de campo, facto que pode explicar os apenas oito golos em 17 jogos esta época.

A equipa que possivelmente mais atenção tinha centradas é a que desilude mais e nem por acaso é do mesmo grupo da Liga dos Campeões que a Juventus. O Atlético de Madrid fez uma grande renovação no plantel este ano, devido ao investimento realizado no mercado, sem grande rombo nas contas, devido à venda do antigo estádio, Vicente Calderón, e à transferência de Griezmann para o Barcelona, por uma quantia a rondar os 120 milhões de euros. Com o dinheiro da venda do francês, compraram João Félix, que explodiu na última época ao serviço do Benfica. Além do Golden Boy de 2019, os colchoneros compraram o lateral direito KieranTrippier ao Tottenham, a dupla de centrais MarioHermoso, proveniente do Espanyol, e Felipe, antigo jogador do F.C. Porto, e o lateral esquerdo, ex-Athletico Paranaense, RenanLodi. Para o meio-campo garantiram HéctorHerrera a custo zero, depois de terminar o vínculo contratual com o F.C. Porto, e o médio do Real Madrid MarcosLlorente, por perto de 40 milhões de euros.

Ao acompanhar todas estas contratações, compreende-se o entusiasmo depositado nos colchoneros para a presente época, com o sonho do campeonato e da Champions no pensamento. Neste momento, ainda nada está perdido, mas a realidade é que a equipa tem sido inconstante, com exibições pobres, que se refletem numa série de resultados menos positivos. Na La Liga estão em 7.º lugar e somam mais empates do que vitórias. Encontram-se a oito pontos do 1.º classificado, uma diferença recuperável, mas que poderá ser difícil se algo não mudar. E o Atlético ainda mais difícil a tornou, depois do empate em casa do Villarreal na jornada passada. Os colchoneros, com o plantel atual, têm capacidade para muito mais.

A verdadeira desilusão está demonstrada nas exibições que se adivinhavam mais ofensivas e dinâmicas, tendo em conta as características dos jogadores contratados, principalmente nos laterais pois Trippier e Lodi são bem mais completos a nível ofensivo do que os donos do lugar no passado (Filipe Luís e Arías ou Juanfran). No entanto, a equipa voltou a adotar às mesmas ideias, com poucas dinâmicas ofensivas e um jogo pouco fluido.

Neste sistema, é complicado para um jogador como João Félix afirmar-se, já que não tem tanta liberdade, notando-se na diferença significativa de toques na bola no meio-campo e área adversária, em comparação com a última época no Benfica. Esta época, o jogo em que mais vezes tocou na bola na área adversária fê-lo por quatro vezes, enquanto nas águias, quatro foi o número mais baixo num encontro durante toda a temporada. As médias desta estatística também são dispersas: pelos encarnados contava com seis toques por jogo na caixa defensiva adversária e pelos colchoneros a média não passa dos três. Resta agora a esperança de melhorias na equipa de Diego Simeone, ou o despedimento do técnico poderá ser uma hipótese, como tem sido abordado nos últimos tempos em Espanha.