1988-2021

A última entrevista de Alfredo Quintana ao Jornal de Notícias

A última entrevista de Alfredo Quintana ao Jornal de Notícias

Entrevista publicada originalmente no suplemento Ataque, do Jornal de notícias, no dia 1 de fevereiro de 2020.


O guarda-redes do F. C. Porto foi uma das figuras da seleção portuguesa que ficou em sexto lugar no Europeu de andebol. Em entrevista ao JN, deu a versão pessoal para o sucesso, garantiu que Portugal pode sonhar com os Jogos Olímpicos e falou ainda das ambições portistas na Champions. Numa viagem pela memória, contou que jogou basquetebol e basebol em Cuba, antes de optar pelo andebol.E não foi na baliza que se estreou.

É difícil voltar à terra depois de um Europeu tão marcante para o andebol português?

Claro. Depois de estarmos quase um mês fora, em jogos de alto nível, voltámos com uma expectativa muito maior. Mas a nossa realidade é esta. Vamos já começar a jogar no clube e temos os pés bem assentes na terra. Sabemos o que fizemos, foi muito bom, mas ainda temos muita coisa para fazer.

Como é que Portugal conseguiu arrancar este sexto lugar?

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O balanço já vinha dos anos anteriores. Nas provas europeias de clubes, o F. C. Porto, o Sporting e até o Benfica têm mostrado muito bom andebol. O Sporting jogou na Liga dos Campeões na época passada. O F. C. Porto chegou à final four da Taça EHF e este ano está a fazer um percurso brilhante na Champions. Era uma questão de tempo até que a seleção aparecesse ao mais alto nível.

Melhorar o sétimo lugar de 2000 nunca vos pareceu uma meta demasiado ambiciosa?

Não, porque nunca jogámos com essa obsessão. Pensámos num jogo de cada vez. Ganhando, muito bem, não ganhando, teríamos de continuar a trabalhar. Nos últimos dois anos, Portugal tem mostrado muito bom andebol e com a ajuda do selecionador Paulo Jorge Pereira atingimos esse objetivo.

Para quem viu de fora, a união da equipa pareceu uma das chaves do sucesso...

Sem dúvida. Soubemos sempre aquilo que tínhamos de fazer e remámos todos no mesmo sentido. A chave do êxito esteve, de facto, aí. Toda a gente queria ganhar.

A vitória sobre a França na estreia foi crucial?

Já tínhamos ganho à França na qualificação, em Guimarães. Sabíamos que ia ser um jogo decisivo. Entrámos focados e tivemos mais vontade do que eles. A certa altura, eles estavam sem soluções. Para as dificuldades que lhes estávamos a criar. Acabámos por ganhar e claro que essa vitória nos deu moral para os jogos seguintes.

Ganhar à Suécia, na Suécia, por 10 golos era impensável?

Para mim, não era. Falei com o treinador antes do jogo e disse-lhe que a seleção sabia jogar fora de casa. Mesmo nos clubes, não ficamos afetados por jogar em frente a 15 mil pessoas. Sabíamos que podíamos discutir o jogo e quando passámos a liderar o marcador logo na primeira parte, percebemos que estávamos por cima. A dada altura, parecia que os suecos já nem queriam jogar. Fizemos um jogo perfeito, no ataque e na defesa.

Os jogos que Portugal perdeu foram equilibrados. O que é que ainda falta à seleção para dar esse último passo e ganhar a equipas como a Noruega, a Eslovénia ou a Alemanha?

Acho que não falta nada. A nível físico e técnico, não ficamos a dever nada a ninguém. O que falta é ter uma presença constante em Europeus e Mundiais. Agora, para mim é claro que quando jogámos com a Noruega, depois de duas vitórias, a fazer jogos excecionais e a ser a surpresa do torneio, a arbitragem não nos ia deixar ganhar. Nestas competições, uma equipa que está lá sempre é beneficiada nas decisões em relação a outra que não vai lá durante 14 anos.

Têm noção de que será preciso voltar a ganhar à França, desta vez em França, para Portugal ir aos Jogos Olímpicos?

Sim, mas quem ganhou uma vez e depois outra pode ganhar a terceira. Ser em França não tem nada a ver. Também ganhámos à Suécia na Suécia. Gostava de jogar com a França logo na primeira jornada e deixar a Croácia para o fim. Se fosse no primeiro jogo, arrumávamos com eles logo. Assim vai ser uma final e esperemos que isso não influencie. A França é uma seleção com muito nome no andebol, mas eles também devem estar a lamentar o facto de terem de jogar outra vez contra nós.

Para um cidadão que nasceu em Cuba e está em Portugal há quase dez anos, o que significa representar a seleção portuguesa?

Quando visto as cores de Portugal, visto-as como se estivesse a vestir as de Cuba. Em termos políticos não posso, mas se me perguntassem se gostava de voltar a jogar por Cuba, digo que sim. Representar o país onde se nasceu é o sonho de qualquer atleta, mas Portugal abriu-me as portas, deu-me a conhecer a nível mundial e quando entrar em campo vou dar sempre tudo pela seleção portuguesa.

Como é que lhe surgiu o gosto pelo andebol em Cuba?

Cuba é um país que sempre deu muita importância ao desporto. Quando andava na escola, ou fazia desporto, ou ficava na sala a estudar. Eu nunca gostei de passar muito tempo nas aulas. Comecei por jogar basquetebol, com o meu irmão. Experimentei o basebol, mas o meu irmão passou para o andebol e um dia perguntou-me se queria ir com ele.

Começou logo na baliza?

Não, não. Jogava a lateral. Mas um dia tivemos de ir a uma competição e não tínhamos guarda-redes. Eu já era alto e disse ao treinador que podia ir para a baliza. Nunca
mais saí.

Tinha oito ou nove anos. Ter mais de dois metros ajuda?

Nem sempre. Tem de se trabalhar muito. Não é por se ter dois metros que se vai ser o melhor. Já vi guarda-redes que não têm esta altura a defender muito.

Adaptou-se bem a Portugal?

Costumo dizer que, na minha vida, tive sempre de me adaptar. Quando vim para Portugal, custou-me muito, mas não a jogar andebol. Nisso, eu sabia que, mais tarde ou mais cedo, com trabalho iria ter sucesso. Nunca entrei em paranoias, de que tinha de fazer 20 defesas no primeiro dia, porque a vida não é assim. Só tinha de trabalhar e esperar. O que me custou foi o frio e o idioma. Já estou habituado, mas ainda me custa.

Como é o Alfredo Quintana fora do campo e da competição?

Gosto de descansar, de beber um bom vinho. Gosto de ver futebol, de jogar playstation, de estar com a minha filha. Desde que fui pai, no ano passado, a minha vida fora do andebol mudou toda. É uma sensação indescritível. Gosto de brincar com ela, de andar com ela às cavalitas pela casa toda. Na próxima competição em que esteja tanto tempo longe de casa, a minha mulher e a minha filha têm de ir lá. Nem que seja por uns dias.

Chegou como um perfeito desconhecido, agora é uma figura do F. C. Porto. Como é representar o clube a um nível tão alto?
A minha mentalidade ao longo destes dez anos não mudou. O único objetivo que tenho é trabalhar e ajudar a minha equipa. Talvez por aí venha o reconhecimento dos adeptos e do clube. Não quero ser lembrado como o melhor guarda-redes, mas como uma pessoa que ajudou sempre a equipa, jogasse bem ou jogasse mal.

Alimenta o sonho de rumar a um clube de um patamar mais alto no andebol europeu?

O sonho está sempre lá, mas falar muita gente fala. Concretizar é mais difícil. O presente é o F. C. Porto e o futuro depois se verá.

Depois de uma época em que o F. C. Porto ganhou tudo, como é que a equipa encara a atual?

Há sempre objetivos. Queremos revalidar todos os títulos, ou seja, ganhar o Campeonato, a Taça e a Supertaça. E ir passo a passo na Liga dos Campeões. Estamos em
boa posição para passar aos oitavos de final e queremos chegar o mais longe possível.

O que é que os adeptos ainda podem esperar na Champions?

Vamos passo a passo, jogo a jogo, com os pés bem assentes na terra. Não é por termos ganho ao Kiel que somos os melhores do Mundo. Vamos ter de certeza um adversário muito difícil nos oitavos.

Como é trabalhar com o treinador Magnus Andersson?

É uma pessoa cinco estrelas. Tem noção do que é ser um atleta hoje em dia. É espetacular. Trouxe o 7x6, apesar de dizer que não gosta.
É uma arma mortífera que ele tem. Trouxe um jogo mais rápido, mas também mais pensado.

O sistema de 7x6 tornou o jogo diferente para os guarda-redes?

Tornou o jogo mais cansativo porque o guarda-redes tem de andar a correr. É sai, entra, sai, entra.

Não gosta?

Eu não gosto de correr, mas se o 7x6 me der a vitória e eu tiver de acabar estourado, vou fazer o quê? Tenho de correr, descansar quando chegar a casa e no dia seguinte vir treinar cedo para recuperar o máximo possível.

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