F. C. Porto

A vacina do futebol

"Com mais paixão", dirão os adeptos cada vez que a bola for rematada para a bancada. Do fundo, o lamento. O desejo de lá estar, colado à força do seu lugar, no levanta-e-senta da cadeira de sonho, a receber a bola mal chutada nas mãos, a desejar melhor destino ou a teleguia-la com os olhos para a baliza com a crença na força das onomatopeias do Dragão. Serão ânimos contidos.

A escolha que fazemos sobre a forma como vamos voltar a ver futebol é uma das muitas opções que vamos ter que tomar sobre a forma como, a partir de agora, queremos viver a vida. Logo que se percebeu que o futebol não deixara de fazer parte do mundo terreno e que, como ele, teria que confinar, muitos adeptos garantiram que futebol sem público nas bancadas não fazia sentido. No contexto da saúde pública, a doença infantil do futebol dos adeptos é romântica mas invalida o romance, encarcera-o no nunca mais, no não tão cedo. Com esses adeptos, o futebol fechava. Para alguns, o futebol que aí vem é a antecipação de um vírus televisivo. Para mim, desde os primeiros dias da pandemia, é a singular solução possível e a única que antecipa um desfecho para os tempos que aí vêm.

Numa terça-feira sem público de novembro de 2005, no Giuseppe Meazza (ou San Siro, para o Milão sem Inter), Hugo Almeida marcou um livre-à-bomba ao quarto de hora de jogo e eu só não acabei a celebrar porque o F. C. Porto perderia essa partida da Champions com os azuis de Milão. Vamos todos, 15 anos depois, à procura dessas sensações com um melhor fim. Muito mais do que um melhor do que nada, nada é melhor do que ter o futebol de volta. Se podemos fazer dos Aliados um gigantesco "drive-in" andante, por que não sonhar com ele? Amanhã é o dia em que o álcool e as máscaras invadem os "packs" de equipamentos. É o dia em que o distanciamento social com "numerus clausus" se eleva a bem essencial ao futebol. "Não tem cartão, não entra" é uma expressão francamente ultrapassada e optimista. Agora, nem com cartão. Mas que ninguém duvide do romance, com a mesma paixão. Que se contribua para a cura. E que caiam algumas máscaras.

* Jurista e comentador televisivo, natural do Porto, 48 anos, adepto do F. C. Porto

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