Opinião

Obrigado aos pobres-diabos

Joel Neto

Joel Neto

Foto António Araújo / Global Imagens

Ponto um: Ronaldo está a jogar mal. Ponto dois: Ronaldo está a lidar mal com o ocaso. Ponto três: Ronaldo estar a jogar mal e a lidar mal com o ocaso vem prejudicando a selecção - a tal ponto que já nos arriscamos a ver não só abreviada a prestação portuguesa no Mundial, mas amputado o legado da nossa melhor geração de futebolistas.

Dito isto, é inquietante que tanta gente tenha como único tema, há semanas, falar mal de Ronaldo. Que digo eu? É inquietante que tanta gente tenha como única identidade, há anos, falar mal de Ronaldo. Que esse seja o seu único vago apaziguamento. Quando eu era colunista de "O Jogo", recebia um e-mail de um senhor de Penafiel com um arrazoado cujo único fito era proclamar que Ronaldo - então no Real - não era o melhor do Mundo. Falava de Messi, das namoradas, dos carros. Assinava com o nome e um epíteto: "O Especialista".

E eu senti sempre pena dele, claro - como sinto dos haters de Facebook. Uma pessoa nasce imbecil, não descobre em si qualquer ferramenta de superação, não lhe acontece nenhum milagre, vê gente a concretizar coisas mas nunca ela - não lhe restam senão a inveja, o ressentimento e (enfim) o ódio. Há até partidos que se alimentam disso: dos que precisam desesperadamente de exagerar a sua própria importância.

E, claro, pode-se sempre dizer que essa é a grandeza a que Ronaldo chegou. É verdade. Já eu, se alguma vez tivesse congregado uma fracção do ressentimento dela resultante, há muito teria baqueado. Como é feio o Mundo - para quê continuar? Seja como for, ir ao Facebook e encontrar essas discussões tornou-se o pior momento do meu dia. E, nesta fase da vida, já lá vou por método: tudo o resto é tão encantador que corro riscos de me alienar.

*Escritor

O autor escreve segundo a antiga ortografia