Polémica

Pichardo para Nelson Évora: "Porque não me deixa fazer a minha carreira?"

Pedro Pablo Pichardo ganhou medalha de ouro para Portugal

Foto Jonathan Nackstrand / Afp

Pedro Pichardo, que se sagrou campeão olímpico do triplo salto em Tóquio2020, esta quinta-feira, admitiu que não é "uma pessoa muito emotiva" mas não fugiu à questão sobre a polémica com Nelson Évora

O campeão Olímpico do triplo salto nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, Nelson Évora, encontrou sucessor com a mesma camisola verde e vermelha de Portugal 13 anos depois também na Ásia, em Tóquio, no Japão.

Na hora do adeus aos Jogos Olímpicos, lesionado, Nelson Évora lamentou não ter sido cumprimentado por Pedro Pichardo, o atleta nascido em Cuba e que colocou Portugal no pódio mais alto do triplo salto, em Tóquio.

Na hora da vitória, Nelson Évora felicitou o adversário olímpico, mas a polémica na caixa de areia ainda não assentou.

"Não tenho falado mal do Nelson. Há pouco enviaram-me o link sobre o Nelson falar do abraço. (...) Não falo mal do Nelson, não quero levar o assunto para problemas pessoais. Há anos que fala de mim e não respondo", disse Pedro Pichardo, em declarações à Agência Lusa, em Tóquio. "Já ganhou tudo, porque não me deixa a mim fazer a minha carreira?"

Pichardo diz que a polémica com Nelson Évora lhe trouxe ofensas e "faltas de respeito", além de insultos e mentiras, também pela "confusão do Sporting e do Benfica" que vem da altura em que chegou a Portugal.

O atleta natural de Cuba, de 28 anos, efetuou o melhor salto, de 17,98 metros, à terceira tentativa, e bateu o seu recorde nacional por três centímetros, impondo-se ao burquinense Fabrice Zango, com 17,47, e ao norte-americano Will Claye, com 17,44, que conquistaram as medalhas de prata e de bronze, respetivamente.

O facto de o estádio não poder ter adeptos "até foi bom", admitiu. "Vou para o quarto e festejo sozinho lá. Tenho muita vergonha, sou mais reservado", declarou, quando questionado na zona mista sobre a razão de não ter dado a típica volta olímpica.

Pedro Pablo Pichardo saltou para o ouro em Tóquio

Foto: Jonathan NACKSTRAND / AFP

Pichardo lembrou a avó, que já morreu, em quem pensa sempre que salta, e explicou que os momentos de prece que foi tendo entre saltos, da sua religião ioruba, são "rituais" antes e durante da competição, para pedir "força e que saia saudável".

Em Cuba, em que há quem o veja e ao pai como 'traidores', deixou "a família e a língua", porque agora faz "parte dos cinco portugueses campeões olímpicos", ao lado de Carlos Lopes (1984), Rosa Mota (1988), Fernanda Ribeiro (1996) e Nelson Évora (2008).

"Estou há quatro anos a trabalhar para dar medalhas a Portugal. Ouvir que um português não é feliz porque um estrangeiro chega ao país e se sente feliz por representá-lo... é complicado. Moro em Portugal, a minha filha nasceu lá, vou continuar e não vou voltar. Mesmo assim, há portugueses que não se sentem felizes que um atleta como eu more lá. É um bocado ingrato", admitiu.

De resto, está pronto para "cantar o hino hoje", na cerimónia de pódio, algo que sabe fazer já "há algum tempo". "O único problema é o sotaque", brincou.

Festejou, no estádio, com "todos os portugueses que lá estavam, eram fáceis de identificar pelo polo vermelho", e tem "sentido o calor, na Aldeia [Olímpica] e por mensagens", mesmo que alguns "continuem a falar por ser luso-cubano, daquelas confusões".

"Ainda hoje não posso voltar a Cuba. Há pessoas que não entendem isso", desabafou.

Escolheu Portugal, disse, até quando tinha outras propostas, e lembrou o pai, colocado à parte em Cuba, razão pela qual saíram do país e não podem voltar, que deve estar feliz, mas também ele "para dentro".

Sobre as medalhas colocadas na sede do Comité Olímpico de Portugal (COP), o facto de o seu ouro ser também lá colocado "será um privilégio". "Entrar no centro de alto rendimento e ver a minha foto... será um privilégio", reforçou o atleta, que regressa já sexta-feira a Portugal.

Portugal superou os resultados alcançados em Los Angeles1984 e Atenas2004, edições em que subiu três vezes ao pódio, passando a totalizar 28 medalhas em Jogos Olímpicos (cinco de ouro, nove de prata e 14 de bronze), 12 das quais no atletismo, modalidade que proporcionou também os cinco títulos olímpicos.

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