1956-2022

Recorde a última entrevista de Fernando Gomes ao JN

JN

Fernando Gomes

Foto Rui Oliveira/global Imagens

Esta entrevista aconteceu por altura do 60.º aniversário do maior goleador da história do F. C. Porto.

Setembro de 1974. Ainda cheirava a abril, já lá vão mais de quatro décadas, um adolescente de 17 anos, corte da moda, cabelinho ao vento, teve a alternativa no F. C. Porto. E que estreia. Fez os dois golos que derrotaram a CUF (2-1). Foram só os primeiros dois de 419 "orgasmos", como lhes chamava o próprio Fernando Gomes. Entrevista ao "Bibota", maior goleador dos anais portistas, que faz 60 anos depois de amanhã e que, investido de novas funções no clube, de diretor de "scouting", revê a própria carreira com um certo desejo de regresso às origens fundadoras do grande F.C. Porto: "O futuro imediato é risonho e está na nossa formação".

Lembra-se desse jogo com a com a CUF?

Foi um momento importante da minha carreira. Na época, como agora, fazer a estreia na equipa principal com 17 anos não era habitual. E logo marcar os dois golos da vitória do F. C. Porto... Tinha entrado para o clube do meu coração aos 14 anos e toda a envolvência desse jogou me marcou. Foi determinante para a minha carreira.

Nesses tempos da Revolução, foi a bandeira da emancipação do F. C. Porto?

Era estudante e não tinha grande ideia da política. O meu foco era o futebol e o F. C. Porto. Bandeira do clube? Nunca pensei nisso. O que pensava e penso é que não é fácil conseguir o que consegui no clube que amamos. Hoje ainda mais difícil, dada a globalização e os novos tempos do futebol. Nessa época era diferente. Recordo-me que fui muito apoiado pelos colegas com mais idade e isso foi muito importante para mim. A todos eles estou grato para sempre, assim como ao presidente Pinto da Costa e a um treinador, como foi José Maria Pedroto, que me ensinou muito.

E lá chegou o título que escapava havia 19 anos...

O meu pai, que hoje tem 83 anos e que é um grande portista - aliás, ele é a razão de eu ser sócio e portista -, agarrou-se a mim a chorar. Ele, como todos os adeptos do F. C. Porto, esperava muito por esse título. Ele já tinha visto o F. C. Porto ser campeão, mas, para mim, foi o primeiro. Jamais esquecerei essa emoção. Foi a loucura nas Antas, num estádio hiperlotado e com invasão de campo.

Chegou o "Verão Quente" de 1980 e emigrou para Espanha, para o Gijon...

Na altura, entendeu-se (digo entendeu-se, porque era a opinião de várias pessoas, dirigentes até) que seria melhor para mim. Aceitei, porque me disseram que era o melhor, até para o meu crescimento. E foi, embora num clube de dimensão muito inferior, mas com condições de trabalho muito superiores, porque o futebol português estava uns degraus bem abaixo do espanhol, que era já altamente profissionalizado. Tive uma entrada fulgurante, marquei cinco golos logo no primeiro jogo pelo Gijon [ndr: 5-1 ao Oviedo], mas, depois, as coisas não correram bem. Tinha 23 anos, fui viver sozinho e, pior, sofri uma lesão terrível. Houve médicos que disseram que não voltaria a jogar. Ultrapassei isso, com o apoio da família, mas não foi fácil. Desesperado, tentei tudo, todas as medicinas, até alternativas. Mas só ao cabo de quase um ano, após consultar um especialista alemão, é que fiquei bem. Na segunda época marquei dez golos na Taça de Espanha e ainda fomos à final, com o Real Madrid.

E lá voltou ao F.C. Porto, pela mão de Pinto da Costa...

Nem hesitei. Disse logo que sim. Faltava-me um ano de contrato com o Gijon e fiquei à espera. O presidente ganhou as eleições e cumpriu o que combinámos, assim como fazer voltar o senhor

Muitas vezes me perguntaram se ia regressar ao clube, como sucede com outras figuras e símbolos do F. C. Porto. Sempre respondi que sim, que gostava de voltar. Estou feliz com isso e retribuo com dedicação, trabalho e sentido de servir"

Pedroto. Seguiram-se belos anos da minha carreira. O clube reestruturou-se, mudou mentalidades, traçou objetivos e as coisas proporcionaram-se. Ganhei muitos títulos, marquei muitos golos e ganhei as duas Botas de Ouro.

E esteve perto do Milan...

O presidente perguntou-me se queria ficar. Claro que eu queria ficar. Já tinha a ideia de renovação. Ia ganhar mais lá fora, mas fiquei feliz por ficar no meu clube, naquele grupo extraordinário. O tempo deu-me razão.

Tudo teria sido perfeito se não se tivesse lesionado antes da final de Viena...

Esse é o facto que confirma que o futebol não é só rosas. Mas, para mim, transformou-se numa rosa. Ao ganhar ao grande Bayern, o F. C. Porto sagrou-se campeão europeu. Não estive na final, mas esse foi o ponto mais alto da minha carreira. Se não fosse esse título, se calhar o F. C. Porto não teria a dimensão que tem hoje.

Já na casa dos 30, viveu situações contraditórias. Ivic disse que "Gomes é finito" e Quinito, a seguir, afirmou que o F. C. Porto era "Gomes e mais dez"...

O peso da idade não era assim tanto. Recordo que o Jordão acabou a carreira aos 37. Também não sei se o senhor Ivic disse que eu estava finito, porque a mim nunca mo disse. Quanto ao Quinito, a declaração foi desenquadrada. Ele não disse apenas que era "Gomes e mais dez". O que disse, para reforçar que o coletivo era uma força do clube, foi que o F. C. Porto era "Gomes e mais dez", "Quim e mais dez", "Madjer e mais dez", "João Pinto e mais dez"... Lamento. Eu fui um dos prejudicados, se calhar, o Quinito ainda mais.

Até que saiu para o Sporting...

Sempre disse que queria acabar no F. C. Porto e as pessoas do clube também assim pretendiam, mas, às vezes, a vida troca-nos as voltas. Temos de aceitar esses momentos que não esperamos na vida. E por muita dor que tivesse foi assim que aconteceu. Tive de fazer isso. E quando acabei a carreira, senti-me feliz, porque acabei a marcar golos, com pena por não ter sido no F. C. Porto. Mas, já tinha marcado tantos que ninguém levou a mal.

Já se lhe ouviu dizer que o mercado da Dinamarca devia ser olhado com mais atenção. É opinião sua ou reorientação do paradigma do F. C. Porto?

Essa afirmação foi feita num contexto global. O que disse foi que o F. C. Porto está focado nos mercados que acrescentem valor. Não há este ou aquele mercado. Mas sabemos, através dos tempos, que há mercados que se vão inflacionando e aos quais o F. C. Porto não pode aceder. E há mercados emergentes que podem, pelo estilo de jogador, ser abordados para o reforço de determinadas posições.

Aí entra a Dinamarca...

Dei como exemplo a Dinamarca e os países do Norte da Europa. Mas o nosso maior mercado, o primeiro, é a nossa formação, que terá, como sempre teve, o foco do clube. O futebol é uma indústria, mas ainda não há máquinas para fazer jogadores. Nem há varinhas-mágicas. Temos de conhecer a nossa formação e, às vezes, nem sempre podemos ter jogadores que sejam capazes e suficientes para as necessidades do clube.

Mas a formação parece revigorada nos últimos anos...

Olhando para toda a formação, dos sub-15 à equipa B, eu sei, toda a gente que está nesta área sabe, e o presidente é o primeiro a saber, que temos muitos jovens de grande potencial para podermos estar confiantes no trabalho que vamos fazer num futuro imediato e a médio prazo. Não ficará mal dizer que temos jogadores nos sub-15, como o Mauro Ribeiro e o Tiago Ribeiro, dois esquerdinos de grande talento, e que temos nos sub-17 o Afonso Sousa, filho do Ricardo Sousa e neto do António Sousa, e o Romário Baró, entre outros de grande potencial. Nos sub-19, há um guarda-redes fantástico, o Diogo Costa, um lateral direito extraordinário, como é o Diogo Dalot, e muitos outros talentos, como o Moreto, o Rui Pires, o Rui Pedro, que é um ponta de lança que vai, seguramente, fazer carreira brilhante. E ainda temos, na equipa B, o Fede Varela, um médio de talento, o Fernando Fonseca, outro lateral direito de muito valor, o Francisco Ramos. E ainda temos, já na equipa principal, jovens como o Rúben Neves, o André André, o Sérgio Oliveira, o André Silva... Só nomeando alguns deles, assim de repente, podemos fazer quase duas equipas. Ou seja, o futuro do F. C. Porto é risonho. E falo do futuro imediato ou a médio prazo.

André Silva é exemplo desse trabalho?

É o que nós conhecemos muito e todos nós acreditamos que ele vai ser o nosso avançado e da seleção. Mas há mais. Se o André Silva fosse o único exemplo do trabalho da nossa formação, não estaria tão confiante no futuro.

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