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Caçador de mitos, o indomável Dragão

Caçador de mitos, o indomável Dragão

Mais do que um clube, dir-se-ia se não fosse vento que viesse da Catalunha. "Azul, branca, indomável, imortal", essa bandeira avançou e conquistou um título que bem podia ser o tri que levaria o F. C. Porto a um novo penta. Não fosse tudo o que se passou na recta final da época passada e seria este o futuro risonho com que os portistas estariam hoje a sonhar. De volta à base, como se de basebol se tratasse, a segurança dos timoneiros: Pinto da Costa e Sérgio Conceição voltam a ganhar, merecidamente, no ano em que sofreram maior contestação. A alegria dos adeptos, todo este júbilo que inunda as casas porque as ruas envelheceram temporariamente para festejos, é mais do que merecida. É já um mito, o dos salteadores da arca do Dragão. A nova história da nova hegemonia no futebol português está sempre a ser reescrita, tantas voltas já deu no paleio.

Este título do F. C. Porto não cai nos seus braços por um golpe do acaso ou por demérito alheio. O F. C. Porto foi melhor e mais sólido, mais consistente, capaz de não afundar ou desistir nos momentos em que a equipa desatou a tropeçar em alguns erros próprios. Resistir, dar a volta, ressurgir. Até ao momento da consagração, mais golos marcados e menos sofridos, mais vitórias e menos derrotas, mais goleadas, todos os clássicos ganhos (nomeadamente os dois jogos com o Benfica, o 2.o classificado). Para as estatísticas, 15 jogos sem perder e duas séries de seis ou mais jogos sempre a ganhar. Nesta época, se exceptuarmos a entrada de época titubeante com o Gil Vicente e Krasnodar, a equipa nunca deixou de responder com uma vitória a qualquer empate ou derrota que lhe aparecesse pelo caminho. O Benfica não resistiu à segunda derrota da época com o F. C. Porto e escudou-se em autojustificações como se, na altura, não vivesse com quatro pontos de vantagem. Deu ar de pânico. Se ao primeiro banho de bola na Luz acabou por responder com uma série de 16 vitórias, a derrota no Dragão atirou a equipa para apenas três vitórias nos 11 jogos seguintes na Liga. Perante isto, continuar a falar de quem jogou melhor futebol entre os dois é apenas risível.

Este é um título muito especial e saboroso, conquistado com sangue, suor, lágrimas... e pausas. Como laçarote, o fim do outro mito, o das histórias irrepetíveis. À frente da classificação quando tudo foi suspenso e a ampliar a liderança após a retoma, este foi o ano em que a história dos sete pontos se repetiu no sentido inverso ao da época transacta. Dados como sepultados pela impossibilidade histórica e pela vontade de quem queria cimentar "outras eternidades", esta equipa técnica e estes jogadores ressurgiram fruto da liderança e da crença, da qualidade que sabem estar sempre sob escrutínio, por demonstrar e por confirmar. Este campeonato resulta da ambição indomesticável por serem dragões e também das suas novas fontes de fogo. Há quanto tempo não víamos, nas mais diversas posições, uma fornada de jovens jogadores tão "crescidos" e promissores, capazes de alimentar a convicção de que o futuro se vai escrever a azul e branco? E, já agora, há quantos anos um jogador do F. C. Porto não é o melhor marcador da Liga? A resposta, que ainda se conta pelos dedos, remonta à época de 14/15. Sejamos capazes, aos mais jovens e aos que terão de vir, de lhes dar palco. Aposto que vão devolver em vitórias.

o autor escreve segundo a antiga ortografia

*Músico e jurista

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