Euro 2020

Histórias e memórias de um Euro inesquecível

Histórias e memórias de um Euro inesquecível

Se há torneio de seleções que vai ficar na memória dos adeptos é o Euro 2020. Esta competição teve de tudo: desde momentos caricatos, sustos com jogadores, histórias de superação e desilusão, golos de outro mundo e lances de perder a cabeça. Vamos recapitular alguns dos episódios marcantes.

Se o Euro em 2016 começou de forma emocionante, com Payet a dar a vitória à França nos últimos minutos com um golaço de pé esquerdo, em 2021 o torneio começou por assustar os espectadores. Decorria o minuto 43 do jogo entre a Dinamarca e a Finlândia, quando Christian Eriksen caiu inanimado no relvado. Todos os adeptos pelo mundo fora congelaram, com uma ansiedade que percorria o corpo por não saber o que se tinha passado. A correria para as redes sociais, para ver vídeos e tentar encontrar alguma informação que acalmasse o medo do pior cenário foi intensa, tão intensa que o Twitter bloqueou palavras que se relacionassem com o acontecimento. Assim que começou a ser partilhada a foto de Eriksen acordado, foi um respirar de alívio para os adeptos, mas existiam as dúvidas se voltaria a jogar ou teria repercussões graves. Até ao momento, sabe-se que o dinamarquês viverá com um desfibrilhador cardíaco, mas mantém-se a incerteza se voltará a ser visto dentro de campo.

A Hungria foi um dos anfitriões mas a sua imagem ficou afetada dias antes do começo do Euro. O país aprovou uma lei que proíbe a "promoção" de conteúdos homossexuais a menores. A política não se mistura com desporto, ou, pelo menos, não deveria. Mas os adeptos húngaros não conseguiram fugir a isso. O grupo "Carpathian Brigade" define-se como patriota de extrema-direita e tem um passado pouco feliz. São várias as histórias de insultos racistas, xenófobos e homofóbicos, que mostram a parte mais triste do futebol. A UEFA abriu uma investigação para averiguar os insultos homofóbicos a Cristiano Ronaldo, Mbappé e Benzema. Castigou a Hungria com três jogos à porta fechada por comportamento discriminatório de certos adeptos durante a competição, de forma a passar a mensagem que estas atitudes são intoleráveis. No entanto, quando a Alemanha pediu à UEFA para iluminar o Allianz Arena com as cores do arco-íris, como demonstração de apoio à comunidade LGBTQ+ na Hungria, o organismo recusou, alegando motivos políticos. Isto provocou uma onda de descontentamento em toda a Europa e o país germânico não se deixou ficar: iluminou edifícios de Munique com as referidas cores e seguiu em frente na homenagem.

Mas nem tudo foi negativo neste Euro e houve várias ocasiões de humor, emoção e espetáculo. Quem diria que, para além de golos, festejos e adeptos, fossem as garrafas a protagonizar alguns dos momentos mais caricatos da competição. Cristiano Ronaldo abriu as hostilidades, quando na conferência de imprensa antes do encontro contra a Hungria, retirou da frente as Coca-Cola e substituiu-as por água. Mais tarde, Pogba também removeu a cerveja Heineken por motivos religiosos e Yarmolenko aproveitou o momento para reunir todas as bebidas e pedir que o patrocinassem. Locatelli seguiu a moda, mas foi o selecionador russo a motivar alguns risos: o técnico utilizou uma garrafa de Coca-Cola para abrir outra e deu uns goles do refrigerante.

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Um grupo de seis franceses viajou para apoiar a França contra a Hungria, mas quando chegaram ao centro da cidade repararam que algo não estava certo. Em vez de verem adeptos húngaros, vestidos de vermelho, verificaram que todos os aficionados estavam com as cores amarelas, da Ucrânia. Qual o motivo? Confundiram Budapeste com Bucareste. Mais ainda: três deles tinham bilhete para a capital húngara, enquanto os outros para a capital romena, e viajaram todos no mesmo avião. A solução encontrada não lhes permitiu ir ao estádio, mas com certeza foi divertida para eles. Decidiram ficar pela Roménia a beber cerveja com os adeptos locais.

A Macedónia do Norte participou na primeira grande competição internacional da sua história e, apesar da eliminação, o desfecho da sua participação não poderia ter sido outro protagonista, senão Pandev. Era o jogador mais velho da equipa com 37 anos e fez história logo no primeiro encontro frente à Áustria. Marcou o único golo da seleção no jogo, mas não foi um qualquer, foi o primeiro golo de sempre do país em competições europeias. A lenda do futebol macedónio, que já conquistou tudo o que tinha para conquistar a nível de clubes, acabou por se retirar após a eliminação da equipa.

Houve muitas surpresas neste Euro 2020, mas foi a França que causou uma das maiores. Enfrentaram a Suíça nos oitavos de final e, após uma primeira parte a perder e dominados pelo adversário, entraram a todo o gás após o intervalo e viram-se a vencer por 3-1 aos 75 minutos. O que certamente Didier Deschamps não esperava era que a Suíça se reerguesse e empatasse o resultado, aguentando-se no prolongamento e levando o jogo para penáltis. Na marcação do castigo máximo, Mbappé, uma das estrelas da companhia, falhou o penálti decisivo, ditando a eliminação da equipa.

A semifinalista Espanha e a vice-campeã do mundo Croácia foram protagonistas de um jogo impróprio para cardíacos, elevando o aspeto emocional do futebol ao seu expoente máximo. Começou logo de forma caricata, com Pedri a atrasar a bola para o guarda-redes Unai Simón, que não conseguiu dominar e impedir a bola de entrar na própria baliza. A Espanha assumiu o controlo e viu-se a vencer por 3-1 aos 77 minutos. Mas o jogo só acaba quando o árbitro apita e a Croácia marcou aos 85 e 92 minutos para empatar a partida. No prolongamento, Morata e Oyarzabal marcaram e ditaram a eliminação da Croácia.

A magia do Euro passou pela Áustria para fazer história e dar espetáculo ate à última. Apurou-se em segundo no grupo C, à frente de Ucrânia e Macedónia do Norte e apenas atrás dos Países Baixos. Foi a primeira vez que alcançou a fase a eliminar e enfrentou a (mais tarde) campeã Itália. Causou muitas dificuldades aos italianos, que não conseguiram marcar durante os 90 minutos. Já no prolongamento e fruto da superioridade individual, Chiesa e Pessina colocaram a equipa na liderança, que ainda teve um susto quando a Áustria marcou aos 114 minutos.

A Ucrânia chegou aos quartos-de-final do Euro como uma das equipas que melhor jogava, dentro daquelas que se teriam menos expectativas. A verdadeira emoção veio no encontro frente à Suécia, depois do empate ao fim dos 90 minutos, Artem Dovbyk marcou um golo com muita história. Foi o segundo golo mais tardio de sempre de um Campeonato da Europa, aos 120:37 minutos, apenas fica atrás de Sentürk, que marcou aos 121:01, no Euro 2008. No entanto, nunca nenhum golo que tenha dado a vitória a uma equipa tinha sido marcado tão tarde. Dovbyk superou Platini, que concretizou uma oportunidade aos 118:53 no Euro 84. O avançado ucraniano marcou o primeiro golo ao serviço do seu país e logo um golo decisivo, tudo isto sendo um jogador relativamente desconhecido, tendo feito a sua formação no Dnipro e com passagem pela Dinamarca. Mas Dovbyk não é a única figura a destacar nesta Ucrânia. Para além de lenda enquanto jogador, Shevchenko tornou-se uma lenda como selecionador. Levou a seleção pela primeira vez aos quartos-de-final do Euro, um feito histórico que complementa os muitos que fez como futebolista. Foi Bola de Ouro, marcou o primeiro golo de sempre num Campeonato da Europa, é o melhor marcador de sempre do país e com ele a Ucrânia foi ao primeiro Mundial da história, em 2006.

Antes do começo do Euro havia muita expectativa e muito entusiasmo em torno do "grupo da morte", constituído pelo então campeão da Europa, Portugal, a campeã do mundo, França, a sempre forte Alemanha e a anfitriã, Hungria. Mas este grupo da morte morreu cedo. A Hungria não passou da fase de grupos e França, Alemanha e Portugal foram eliminados nos oitavos de final.

O grupo da morte trouxe o melhor marcador e quebrou vários recordes. Cristiano Ronaldo marcou cinco golos em 360 minutos e igualou Ali Daei como o máximo goleador internacional de sempre. Tornou-se no jogador com mais golos da história do Euro (14) e o único a participar e marcar em cinco edições. Por fim, é o futebolista com mais golos somados entre Mundiais e Europeus (21).

Por muita vontade que exista em ver o Euro e apoiar a sua seleção, convém tem prioridades. Na Inglaterra, uma mulher faltou ao trabalho para ir ao estádio e, depois de ter sido avistada pelas câmaras de televisão a festejar um golo, recebeu uma mensagem do patrão que dizia para "não se importar em voltar ao trabalho". Por falar em adeptos, a final não escapou a uma invasão de campo de um aficionado bem habilidoso, que conseguiu fintar alguns seguranças já no relvado.

O formato do Euro 2020 foi um tema muito badalado ao longo da competição. 11 cidades em 11 países anfitriões, o que levou a que umas equipas jogassem em casa e outras sempre fora. Itália, Dinamarca, Países Baixos, Inglaterra, Espanha e Alemanha fizeram a fase de grupos sem sair do país, enquanto seleções como a Suíça e a Polónia viajaram mais de nove mil quilómetros. Este modelo foi criticado por várias personalidades, como Thomas Vermaelen, da Bélgica. "Este formato é injusto. Todas estas viagens não são boas para o corpo dos jogadores, sobretudo num torneio tão curto", explicou. O jogador do País de Gales Chris Gunter lançou uma "farpa" à UEFA numa publicação no Instagram: "Vocês (adeptos) e nós merecíamos mais do que este torneio de brincadeira, mas quem disse que a vida é justa?". Aleksander Ceferin admitiu que o modelo do Euro não foi justo. "Não é correto que umas equipas tenham de viajar mais de 10 mil quilómetros, enquanto outras viajam apenas mil. Não vou apoiar este formato novamente", referiu o presidente.

O Euro 2020 teve um melhor marcador algo inesperado: o auto-golo fez as redes balançar por 11 vezes, sendo que nunca houve uma edição desta competição com tantos golos na própria baliza. Por falar nisso e para acabar em grande, nada melhor que recordar alguns dos melhores golos desta edição. Pogba, Ronaldo, Modric, sem esquecer Patrik Schick, levaram os adeptos à loucura com estas obras de arte.

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