Patinagem

Das 12 horas de treino até ao controlo do peso ao grama. Métodos de Tutberidze dão que falar

Das 12 horas de treino até ao controlo do peso ao grama. Métodos de Tutberidze dão que falar

Eteri Tutberidze volta a estar nas bocas do mundo e não pelos melhores motivos. Após uma prova menos conseguida da patinadora Kamila Valieva, os métodos de trabalho da treinadora russa voltam a ser criticados.

Quem vê patinagem artística, vê graciosidade. É uma modalidade bonita de se ver. Mas, por trás de tanta beleza existe muito sacrifício - os atletas fazem muitos, é certo - mas também métodos pouco convencionais, como, aparentemente, na equipa da Rússia.

Eteri Tutberidze começou por praticar patinagem artística mas passou para a dança no gelo quando se tornou demasiado alta. E, depois de falhar uma carreira no principal objetivo, a moscovita retirou-se e passou a ser treinadora, tendo passado por Oklahoma, Cincinnati, Los Angeles ou Texas, nos EUA, antes de regressar ao país natal. O regresso, esse, não podia ter corrido melhor, não fosse Eteri uma das treinadoras com melhores resultados, tendo até já sido condecorada pelo presidente Vladimir Putin. Mas os seus métodos voltam a ser criticados.

Meses antes de ter recebido a medalha da Ordem de Honra da Rússia, em novembro de 2018, a treinadora levou Alina Zagitova e Evgenia Medvedeva a vencerem a medalha de ouro e a de prata, respetivamente, nos Jogos Olímpicos de Inverno de Pyeongchang. Nos Jogos de Sochi, Julia Lipnitskaia, na altura com apenas 15 anos, deixou tudo e todos de boca aberta quando, depois de uma prova quase perfeita, conseguiu o ouro e se tornou a mais jovem a subir ao lugar mais alto do pódio na patinagem artística desde 1936.

Tutberidze tornou-se uma autêntica máquina a produzir talentos. Atletas que sempre conseguiram o topo, "elásticas" e cada vez mais "leves". Mas a exigência pela perfeição pode ter um alto preço a pagar. E, depois do que aconteceu a Kamila Valieva, que chorou perante o mundo inteiro depois de uma prova menos conseguida e foi recebida com o que muitos apelidam de "frieza", os métodos da treinadora russa voltam a estar debaixo de fogo.

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Julia Lipnitskaia deixou a modalidade aos 18 anos, apenas três anos depois dos Jogos de Sochi, admitindo sofrer de anorexia. Evgenia Medvedeva competiu nos Jogos de 2018 com um osso do pé rachado. Elizabet Tursynbaeva retirou-se no ano passado, aos 21 anos, por causa de uma lesão crónica nas costas. Darya Usacheva sofreu um problema físico muito grave em novembro, tendo de voltar para casa de cadeira de rodas. Agora, Kamila Valieva, de 15 anos, que até se tornou na primeira mulher a aterrar um quádruplo em Jogos Olímpicos, falhou a medalha de ouro e ainda teve um teste antidoping positivo (mas competiu na mesma devido à sua idade, que a torna uma "pessoa protegida" na legislação antidoping).

Em entrevista, Polina Shuboderova contou que os treinos com a treinadora, que podem durar até 12 horas, são "duros e rígidos" e o controlo do peso é feito ao grama. "Não há espaço para o cansaço ou algo que não seja a busca incessante pela perfeição". Romain Haguenauer, treinador francês que tem acompanhado várias campeãs, também acusou a técnica russa de promover treinos "abusivos, até militares". "Ela não se poderia aproximar de crianças se fizesse aquilo no Canadá", comentou.

Medvedeva, que conquistou duas medalhas de prata, disse que, durante a temporada de 2018, tinha de ficar o "mais seca possível", sendo "impossível" realizar o programa que lhe fora destinado se ganhasse peso. A russa, que na altura tinha 18 anos, afirmou que todo o processo lhe "fez muito mal" ao corpo. Polina Shuboderova, outra atleta que foi treinada por Tutberidze, disse ao "Sport Express Russia" que mesmo que alguém esteja "cansada ou lesionada", tem "de ir para o gelo e treinar. E variações de peso superiores a cerca de 0,2 quilos não são permitidas".

Outra das críticas a Eteri Tutberidze tem a ver como, a cada ciclo olímpico são descartadas atletas em favor de outras mais novas, quando o peso delas aumenta. Mas a treinadora justifica tais métodos com "ambição" e as queixas com as "hormonas" das atletas.

"O que eu tento ensinar às minhas alunas, começando mais ou menos com 13 anos, é que não se pode vir para os treinos e começar a lamentar 'estou cansada. Não posso fazer isto agora. Fazemos amanhã'. Olhem para o mapa e vejam o tamanho da Rússia. Quando se vai a uma competição internacional e se tem o nome da Rússia escrito no casaco, é suposto ser a melhor que a Rússia enviou para o mundo ver. Logo, não se pode ir para o gelo com uma má atitude, dizendo que se está cansada. Não se pode", disse durante uma entrevista à televisão estatal da Rússia. Vincando, sempre, que tem de haver perfeição. Custe o que custar.

"Quando vejo uma atleta que pode fazer muito melhor, sinto imensa pena que isso não esteja a acontecer. Então, tenho de ser um dragão, para conseguir acender o interruptor dela. Porque, caso eu não fizesse isso, a atleta não teria a alegria posterior de estar num pódio com o nosso hino a tocar em honra dela. É preciso fazer tudo para o conseguir, com dedicação máxima. Rígida? Eu digo às minhas atletas a verdade, porque suavidade elas ouvirão de outras bocas. A verdade, como as coisas são de facto, só ouvirão de mim. As patinadores ofendem-se com os meus métodos, deve-se às idades difíceis e as hormonas".

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