Dakar

Dia de Luto por Paulo Gonçalves. "Sabemos que as motas são perigosas"

Dia de Luto por Paulo Gonçalves. "Sabemos que as motas são perigosas"

Hoje é dia de luto no Dakar. A organização cancelou a etapa de motos e quadriciclos para dar tempo aos pilotos para chorar a morte do português Paulo Gonçalves, "uma figura" da mais dura prova motorizada do Mundo.

"Paulo era uma pessoa que estava por cá há muito tempo, todos o conhecíamos. Era uma figura do rali", disse o diretor do Dakar, David Castera. "Esta é uma altura difícil", acrescentou, domingo, ao comentar a morte do piloto português, na sequência de uma queda, ao quilómetro 276 da sétima etapa da prova.

A organização anunciou o cancelamento da oitava etapa para quadriciclos e motociclos "para dar tempo aos corredores de chorar a morte do amigo". Pela zona de Wadi ad-Dawasir circulam, segunda-feira, apenas carros e camiões.

A morte de Paulo Gonçalves trouxe uma sombra ao Dakar que não vai dissipar-se tão cedo. Particularmente entre os "motards", as vítimas principais da prova, que há 40 anos se fez às areias e outros perigos do deserto africano, sob a designação Paris-Dakar, com início na capital francesa e fim nas praias do Senegal.

Nas 40 edições da prova, morreram 25 pilotos, 20 dos quais motociclistas. "Sabemos que as motas são perigosas", reconheceu David Castera, que dirige a prova desde março de 2019, após anos no pelotão de participantes. "Saímos muitas vezes de manhã com um nó no estômago, porque os motards não têm qualquer proteção, não têm nada", admitiu Castera.

"Todos os motards sabem isto", admitiu Castera, que fez cinco vezes o Dakar em mota.

Stephane Peterhansel, que soma 13 vitórias na prova, as seis primeiras em duas rodas, tem bem a noção do perigo. "Sempre senti que estava a brincar com o fogo em cima da mota", disse o piloto francês, conhecido como "Senhor Dakar", em declarações à agência de notícias France Press.

"Terminei a minha carreira nas motas muito cedo e vi amigos morrer à minha frente", disse Peterhansel, que em 1999 trocou as motas pelos carros, 11 anos após estreia na competição, em 1988, e que viria a vencer por seis vezes em duas rodas, três destas seguidas, entre 1991 e 1993. Desde que passou para os carros venceu a competição por sete vezes.

Este ano, de novo candidato ao triunfo, Stephane Peterhansel faz equipa com o navegador português Paulo Fiúza. "Quando passamos pelo acidente tive um mau pressentimento", disse o piloto francês. "Quando vemos a equipa médica assim atarefada, um cobertor de sobrevivência sobre o corredor, sabemos que algo de terrível aconteceu", acrescentou.

A tragédia tinha nome português. Paulo Gonçalves, o "speedy" altruísta que parou para ajudar um rival, em 2016, estava de regresso à prova, depois de ter falhado a edição anterior devido a uma lesão.