Lutadora

500 metros e seis anos de vida

500 metros e seis anos de vida

Joana tem uma história quase normal. Corre. E vive. Mas sabe que só poderá fazê-lo por mais seis anos. Tem a doença de Huntington. E esteve na Assembleia da República a celebrar o princípio da despenalização da eutanásia. Até lá, até esse dia, vai continuar a correr.

A cada quilómetro, Joana Silva conquista vida. Sente-se a correr "os últimos 500 metros" - uma metáfora para os seis anos de vida que tem pela frente até que a doença de Huntington lhe tolha os movimentos. A herança deixada pelo pai, que viu definhar dia após dia com a doença que mata as células do organismo, sobretudo as do cérebro, vai deixá-la sem conseguir comer, falar ou andar. Vai provavelmente deixá-la agressiva, como ele ficou.

Joana chega à conversa com o JN toda vestida de preto. As sapatilhas são a única nota colorida e é fácil perceber porquê. Aos 39 anos, é na corrida que encontra uma das maiores forças. Três vezes por semana, de forma solitária, prepara-se para as provas onde tem sido feliz e livre. "É uma parte essencial da minha vida, do meu bem-estar". Durante as provas em que participa - corre sobretudo as de 10 km - coloca perguntas existenciais e encontra respostas. Nisso e em conversas privadas com o seu "Deus bom".

Foi uma amiga quem a desafiou para se aventurar no trail. Começou em finais de 2012, na Serra de Canelas, em Gaia, e já participou na "maratona mais bonita do mundo, no Douro".

Natural de Vila das Aves, em Santo Tirso, Joana tem um calendário biológico particular, vive "dez anos dentro de um" e tem mais seis de vida saudável e sem medicação. Quando chegar aos 45, devem surgir os primeiros sintomas. A doença de Huntington não tem tratamento, nem cura, pelo menos para já. "O tempo passa muito rápido e essa sensação angustia-me".

Supera os pensamentos e as noites mal dormidas com a mesma vontade que tem de superar todos os percalços até chegar à meta. Na corrida, onde "não há espaço para as doenças", esquece os problemas e absorve tudo: "o verde da montanha, o som dos pássaros, a brisa, a água a correr, o pôr do sol".

Fora da corrida, tem sido uma das vozes de luta a favor da morte assistida, da "morte digna", como prefere chamar-lhe. Em 2018, gravou na memória o som dos aplausos de quem apoiava o chumbo. "Fiquei muito incomodada, aquele som das palmas, dentro daquele edifício, aquele eco ainda está presente na minha cabeça". Voltou à Assembleia da República há dias e celebrou a vitória das propostas para a despenalização da eutanásia. "O que peço é uma boa morte, que é aquilo que a palavra eutanásia quer dizer. Quero uma morte digna".

Joana Silva só fala de morte para defender a "liberdade de escolha, quando não comandar o corpo". De resto, toda ela é celebração da vida. Riso fácil, gosta de comer bem, beber um bom vinho, festejar com os amigos, namorar, sem espaço para lamúrias, nem olhares piedosos.

A corrida ajuda-a a "gerir emoções", "garantir o equilíbrio" e a "disciplina dos treinos". "A culpa é das endorfinas". Uma espécie de hormonas da felicidade.

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