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Corrida

Explosão de provas de trail gera comunidade de 200 mil

Explosão de provas de trail gera comunidade de 200 mil

A história da corrida em montanha vem de longe, mas a explosão daquilo que a comunidade de atletismo consensualizou apelidar de trail tem uma vida tão curta quanto explosiva. Cálculos feitos por extrapolação atiram para pelo menos 200 mil praticantes em Portugal, uma gigantesca comunidade nascida com escassos afoitos há menos de uma década. Porquê?

Haverá muitas explicações, mas a primeira delas será, certamente, a oferta. Feitas as contas, e a acreditar num dos sites que mais faz pela agenda das corridas (www.runportugal.com), 2017 soma 318 eventos de trail. E dizemos eventos porque em cada um deles haverá, no mínimo, uma corrida, mesmo que curta, e uma versão de caminhada. Portanto, multiplique-se por dois. Em muitos casos, por três. Deve haver mais algumas, admite o presidente da Associação de Trail Running de Portugal (ATRP), Rui Pinho.

A segunda explicação, mais subjetiva, coloca o dedo na ferida: "Cada vez mais, as pessoas iniciam-se na corrida no trail, porque na montanha não há aquela censura da rua". Rui Pinho tira a constatação da própria experiência. Quando começou a dar corda às sapatilhas por questões de saúde, corria à noite, vestido de preto. Pesava 137 kg. "Raramente se vê um gordo a correr uma maratona. Há uma espécie de chacota". Dura constatação. Ora, diz, "na montanha não há a pressão da velocidade, caminha-se muito, estamos muito solitários, não há a pressão do olhar".

Mas como se chega a essa enormidade de 200 mil? Um estudo realizado em 2013 pelo Instituto Português de Administração e Marketing calculou a existência de um milhão e 450 mil praticantes, dos quais 460 mil regulares. Entre outras caracterizações, concluía-se que 19% do pelotão exercitava-se fora de estrada. Que é como quem diz, na natureza. Ou seja, quase 90 mil. Passados quatro anos, as contas são outras. Rui Pinho analisou um fim de semana de maio, sem provas a contar para os campeonatos entretanto nascidos (circuito ATRP e Taça de Portugal): em 14 provas participaram cerca de seis mil pessoas. A extrapolação possível aponta os ditos 200 mil, dada a profusão de eventos que gerou. Indo às estatísticas dos campeonatos, conclui-se que os classificados cresceram de 1682 em 2016 para 4312 neste ano.

Outro porquê? "É muito mais fácil e barato organizar um trail. Uma corrida de estrada implica policiamento e cortes de estrada, com custos elevados, é um licenciamento mais difícil. Num trail em que não seja preciso abrir muito trilhos, basta garantir a limpeza do percurso e os abastecimentos". Ora, como o princípio do trail, atualmente a ser definido pela Federação Internacional de Atletismo, é a autossuficiência, os abastecimentos não deverão exigir muito investimento. Há cada vez mais clubes locais a organizar provas para angariar financiamento para as próprias atividades, autarquias ou grupos com motivos solidários cujos próprios elementos dão apoio ao evento. "É muito fácil arranjar voluntariado...".

E onde começou toda esta febre? Lá atrás. "Chamava-se necessidade", lembrou-nos, certo dia, um madeirense que nos dava boleia para a montanha. A história oficial, contudo, arranca nos Estados Unidos, na Western States, uma prova a cavalo em que o animal se lesionou (é uma das versões, a outra é mesmo a do desafio) e o cavaleiro resolveu fazer a pé as cem milhas do trilho (conseguiu em algo mais do que 22 horas). Três anos depois juntou um grupo de competidores pedestres. Em França, outro país de aficionados, tratou-se da transição do esqui de fundo para a corrida, porque o verão secava a montanha. Entretanto, havia corridas de montanha, mas em estrada, implicando um desnível mínimo. Portugal tem uma famosa, na serra da Estrela. Mas essa é outra história. O trail, hoje, é a corrida autossuficiente em ambiente natural e com menos de 20% de alcatrão. O desnível nem sequer é condição "sine qua non"...