A utilização do "frio" como estratégia de recuperação

A utilização do "frio" como estratégia de recuperação

A utilização do "frio" como estratégia de recuperação assenta na necessidade de acelerar o processo, predispondo mais rapidamente o atleta para o treino e/ou competição seguinte.

Atletas que realizam altos volumes de corrida e com alta intensidade apresentam níveis aumentados de dano muscular e dor, indicadores de fadiga. Sessões de treino ou competições num curto período de tempo proporcionam mais fadiga. Nestes casos, surge a necessidade de implementar medidas para acelerar o processo de recuperação.

Apesar de existirem várias medidas alternativas, há fatores fundamentais num processo de recuperação física que, não sendo respeitados, retiram o efeito de outras medidas. São eles: o descanso, o sono, a nutrição e a hidratação.

Em relação às modalidades de recuperação, atualmente são utilizadas diversas estratégias, como massagem desportiva, recuperação ativa, crioterapia, banhos de contraste, oxigenoterapia hiperbárica, roupas de compressão, alongamento e eletroestimulação.

Uma das mais utilizadas é a crioterapia, existindo duas formas muito comuns: os banhos de contraste e a imersão em água fria. O principal mecanismo envolvido está relacionado com a diminuição na temperatura da pele e músculo, por exposição ao frio. A redução da temperatura leva a uma diminuição do inchaço muscular, da inflamação aguda provocada pelo dano muscular e uma diminuição do espasmo muscular e dor. Em banhos de contraste, os atletas alternam a imersão no frio com água quente. A imersão em água quente aumenta a vasodilatação, o fluxo sanguíneo, o transporte de oxigénio, a eliminação de metabolitos e reduz o espasmo muscular e dor.

Mas nem tudo é benefício

Alguns autores argumentam que o uso de medidas frias pode diminuir as respostas anabólicas do treino, o que, por sua vez, afeta o tamanho muscular. Daí alguma discórdia quanto à utilização do frio para a recuperação: apesar de aumentar a recuperação e prontidão para o treino seguinte, a longo prazo pode ter efeitos prejudiciais como a diminuição do tamanho muscular.

Assim, é de extrema importância levantar algumas questões quando a intenção é aplicar modalidades de crioterapia. O atleta foi exposto a uma sessão de treino exigente que, provavelmente, levou a níveis significativos de dano muscular? Quando ocorre a próxima sessão de treino? No treino seguinte, será obrigado a produzir altas cargas e/ou velocidade?

Além disto, o tipo de aplicação, a temperatura, a duração e a profundidade de imersão levarão a respostas diferentes. Por fim, fatores individuais como a composição corporal terão grande impacto no efeito fisiológico das respostas às modalidades de recuperação por crioterapia.

De forma a clarificar dúvidas em relação ao protocolo a utilizar, existem características fundamentais a respeitar, podendo depois ser alteradas determinadas variáveis de forma a proporcionar a recuperação desejada.

Dicas

Assim, relativamente à duração da exposição ao frio, quanto mais prolongada for a duração maior será a severidade do protocolo, mas normalmente 10 minutos são suficientes. Em relação ao tipo de água, a imersão em água fria pode fornecer alguns pequenos benefícios em comparação com os banhos de contraste em marcadores de dano muscular. Quanto à profundidade de imersão, devido à pressão hidrostática da água, além de elevações no volume sistólico e no débito cardíaco, também se observam aumentos na compressão venosa e linfática, concomitantemente ao aumento da imersão da superfície corporal. A temperatura utilizada deve situar-se entre os 11 e os 15 ° C.

As diferenças na composição corporal e na relação entre a área de superfície corporal e a massa corporal têm sido destacadas como fatores primários que afetam as respostas aos protocolos de frio. Maiores percentagens de massa gorda, massa corporal, área de superfície corporal e outras características da composição corporal retardam a redução da temperatura corporal durante a exposição ao frio.

Em suma, a exposição ao frio pode interferir nas vias anabólicas, tendo, portanto, um impacto prejudicial nas adaptações a longo prazo. Portanto, durante períodos não competitivos em que alguma fadiga acumulada é esperada (e desejável), a implementação de modalidades de recuperação a frio deve ser evitada. Por outro lado, em períodos de competição, um atleta que precisa de aumentar a massa muscular deve evitar o uso de modalidades de recuperação a frio. Por último, a densidade da semana de treino determinará se o atleta deve recorrer as modalidades de recuperação por frio ou não.

* Fisioterapeuta ROPE® - Reabilitação e Otimização de Performance | Clínicas Nuno Mendes

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