Açores

Correr nas Flores é queijo e café a fumegar

Correr nas Flores é queijo e café a fumegar

Começou com o queijo artesanal da Dona Ilda. Findou, para nós, com o café quente da Dona Maria de Fátima. Foi o Extreme West Atlantic Trail, a nova criança da corrida de montanha nos Açores. Tratem-na bem, queremos vê-la crescer.

Há ali uma curva, escassos milhares de metros depois do grito que nos lança Flores acima, em que nos estendem um prato com nacos de queijo. É do Pico Redondo, da queijaria artesanal da Fajãzinha, o nominho que dá ainda mais beleza ao fim do mundo. Além, da banda de lá do Atlântico, da banda de lá do furor de um mar que nos prendeu ali por dias, que deu alma a um céu violento, da banda de lá de tudo, a América.

Sonhar a América dos sonhos que despovoaram esta fajã e saborear o queijo quase fresco da Dona Ilda, de um curado tão suave quanto o nome do sítio, foi a medalha. Porque isto que vos contamos, meus senhores (é assim que a educação diz na ilha), é uma corrida. Ou talvez não. Correr nos Açores é muito mais do que isso. É viajar.

E ali é, dizem os mapas de Portugal, a ponta mais ocidental da Europa - os franceses dirão que têm terra nas Caraíbas, cada um tem o mapa que pode. A Fajãzinha irmã da Fajã Grande que só não ganham na corrida efetiva porque parte de si se desfez, em épocas idas, para formar o Ilhéu de Monchique, ao largo, esse sim, extremo ocidente. Tão a ocidente que foi decidido chamar à prova que ali estreamos "Extreme West Atlantic Trail". Podia ser Far West, mas esse já existe na mesma América - porque as Flores são já América, tectonicamente falando - e, já se sabe, tudo vai das perspetivas e, no caso, o extremo tanto pode ser do longe quanto do desafio. Voltemos ao queijo.

Partimos dezenas de minutos antes, da praia negra da Fajã Grande, para reconquistar aquilo que o homem só conhece desde o século XV. Como sempre, é para o fim que nos deixamos ficar, porque o fim é, contraditoriamente, o tempo de viver tudo isto. É o tempo de sentir a chuva, de olhar a água a cair-nos fronte abaixo, replicando as cascatas que entrevemos contra a parede que é a costa ocidental florentina. É o tempo de as bátegas se nos entranharem no peito - o aviso seria laranja ou vermelho, a nosso ver passou a linha das cores - e escorrerem corpo abaixo, misturadas com o suor de uma ilha que sobe ou desce, não conhece planos como não conhece regras.

Lá adiante, certamente cega, segue a elite da corrida de montanha portuguesa. Há uma Taça de Trail à espera, vê-la-íamos ser montada, ela e as medalhas, com as fitas trazidas numa mala do Continente. Voam os atletas e preparam o nosso terreno, o do tempo. O tempo todo deste fim de mundo. Um escorrega de lama, um carrossel de escarpas espancadas pelas rajadas, mãos incertas a procurar um rombo seguro na pedra, a esperar escolher, no nevoeiro do esforço receoso, aquele arbusto que não está a pedir para ser levado. Lá em baixo, o Atlântico, encrespado. Nos dedos, um arbusto solto. Quereria fugir.

A distância é intermédia, 37 quilómetros. O desafio, percebemos mal engolimos o queijo da Dona Ilda, é bem maior.

Escarpas, degraus de lama que é manteiga sob os pés, não raras vezes sob o corpo todo, o céu ao fim de tanto desse tempo que daria para vislumbrar a América, não estivesse a ilha enfiada numa tempestade, o céu que não é o plano sonhado, o céu que é apenas o cume, antes de descer até lá abaixo, num túnel de Laurissilva subtropical. Uma duas três tantas as vezes que a conta se perde, entre vistas para o mar e vistas para os pastos, entre acenos de florentinos e cumprimentos de vacas. Até uma Casa do Espírito Santo, das que noutras ilhas são "impérios" e se abrem, brilhantes, todos os finais de maio.

Não. A dor não nos torna a Deus. Será a divindade que se torna a nós, agradecendo a visita. É junto ao altar que comemos e o bolo é de lamber a chuva salgada que pinga da face. "O meu senhor está a pingar". Um bocadinho, sim. E a tremer.

As Casas são ventosas e o estradão que ali nos trouxe uma pista aberta aos ventos que nos explica, diretamente no corpo, por que é que os aviões só vêm às Flores quando os nós são poucos e a jeito. Voamos. Caímos. Seguimos. Os joelhos abanam, enregelados pela água que não mais secou. E somos avisados pelo céu, ali, sozinhos na aresta: vamos ficar mais tempo nas Flores. Presos. Livres.

Organizar uma prova no fim de novembro no grupo de ilhas mais fustigado pelos acasos do tempo é um risco. Assumido. Fazer dela uma Taça de Portugal de Trail é contrariar o medo perante o risco.

A Associação de Trail Running de Portugal (ATRP) e a organização do Azores Trail Run - essa perante a qual só podemos vergar-nos numa vénia, porque o desafio dela é muito acima do nosso, é bater o pé à distância do fim do mundo e oferecer experiências inolvidáveis - tinham um plano B (dizemos nós porque é moderno dizer assim das alternativas, que é como eles dizem). Não foi preciso.

O Extreme West aconteceu num dos piores dias do calendário anual, não se viu avião naquele céu, um sinal. Mas era assim que precisava de ser. Foi extremo, na verdadeira aceção da palavra. E encheu a ilha adormecida pelo inverno que é outono perene nestas latitudes, motivo para o Governo Regional ver na nossa festa uma oportunidade.

Rui Pinho, presidente da ATRP, junta-lhe outro, ó tão mais elevado: "Faz todo o sentido que o trail seja um meio de divulgação de destinos. E se esses destinos forem remotos e desconhecidos, ainda mais sentido faz. Todos sonhamos com destinos de férias, imaginamos sempre que vamos para longe, mas temos cá dentro maravilhas para descobrir."

Ir à América e regressar. Talvez

O resto sucede-se em catadupa, o Corvo irrompe das nuvens na curva depois de Ponta Delgada, a pequena, a das Flores, é perto, é tudo perto, só que longe. Uma jovem bombeira cruza-nos, tínhamos passado pela ambulância de motores ligados, uma boa hora antes. Um esgotamento, nada de grave. Está tratado. Um planalto, enfim, e um olhar compreensivo de mão erguida, o gado a queixar-nos da quebra da paz, outra vez alcatrão e a Ponta Ruiva. Burros, deixámos o frontal na gaveta do armário da tralha de corrida, no Porto. É a nossa meta, mas não o fim do nosso tempo. Estão ali Maria de Fátima, Arlete, Paulo e o melhor café do fim do mundo, leve e tão quente sob o coberto que a família emprestou ao último abastecimento, tal era a fúria do clima.

Correr nos Açores é queijo e café a fumegar. Correr nos Açores é descobrir as antípodas tão próximas do nosso mapa. Correr nas Flores é ir à América e voltar quando a depressão (a do céu) deixar. É abandonar sem tristeza, a oito quilómetros da meta, mas à mão de uma boleia que nos leva ao topo que os trilhos não viram, às lagoas aos pares, à vista do Morro Alto, imponente 914 metros acima do Atlântico, uma altura exorbitante para um pedaço de solo que pouco passa dos 140 km2.

"Ver o sorriso dos atletas, saber que eles gostaram e sabermos que o trail chegou para ficar a mais um destino nacional dão-nos o sentimento de dever cumprido, a nós e à organização do Azores Trail Run", resume Rui Pinho. Já antes, Mário Leal, o organizador, prometia sequência, talvez noutros moldes - a distância dependia dos critérios para a Taça, uma taça que acabou por endurecer o nível, não fossem os selecionados os melhores dos melhores.

"Vocês foram a coisa mais extraordinária que aconteceu às Flores", deixava escapar Tércio Sousa, florentino que distribui carros a forasteiros na época alta e que viu o serviço multiplicado quando a ilha já deveria estar a dormir. São assim, os florentinos. Dão-nos queijo e café e sorrisos. E o secreto desejo de que o avião não surja mais no firmamento.